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Mídia brasileira tem alta credibilidade

10/11/2009

Embora a TV se mantenha soberana como principal fonte de informação da população brasileira, o rádio e a internet têm mais credibilidade. É o que revela pesquisa encomendada pelo Grupo Máquina ao Vox Populi, que ouviu 2,5 mil pessoas maiores de 16 anos, entre 25 de agosto e 9 de setembro, no Distrito Federal e nas regiões metropolitanas de Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

O levantamento mostra que os sites de notícias e blogs jornalísticos já são a segunda principal fonte de informações, citados como primeira opção por 20,4% dos entrevistados e ficando atrás apenas da TV, com seus 55,9%. Na sequência, aparecem jornais impressos (10,5%) e rádio (com 7,8%).

Com uso crescente no País, as redes sociais foram citadas como principal fonte de informação por 2,7% da amostra, ficando à frente das versões online dos jornais (1,8%) e das revistas impressas (0,8%) e online (0,1%).

Quando o assunto é credibilidade, o ranking sofre modificações consideráveis. O Vox Populi pediu que os entrevistados dessem notas de 1 a 10 neste quesito aos meios de comunicação listados. Resultado: o rádio pulou para o primeiro lugar, com média 8,21. Em seguida, estão sites de notícias e blogs jornalísticos (8,2), TV (8,12), jornais online (8,03), jornais impressos (7,99), revistas impressas (7,79), redes sociais (7,74) e revistas online (7,67).

Por MMOnline

Como as notas médias variaram apenas meio ponto percentual, pode-se concluir que não há crise de credibilidade nos veículos de comunicação brasileiros – pelo menos na avaliação do público.

O economista Luis Contreras, consultor do Grupo Máquina e coordenador da pesquisa, foi surpreendido pelo fato de as redes sociais, embora um fenômeno recente, já desfrutarem de credibilidade similar aos demais meios. “Entre os usuários dessa nova mídia, 40% consideram-na como de credibilidade muito alta. Isso nos mostra claramente que não podemos ignorar o poder das redes sociais na formação de opinião”, frisa.

Ednilson Machado, sócio-diretor do Grupo Máquina, acrescenta que a pesquisa aponta uma tendência das pessoas se informarem pelas redes sociais, até então vistas mais como plataformas de relacionamento. “Isso faz da internet um ambiente ainda mais promissor. Como as redes sociais demandam muito tempo de interação, acabam sendo um veículo mais próximo das pessoas”, avalia.

Como a tradicional mídia eletrônica representada pela TV e pelo rádio se saiu bem na pesquisa, o dado negativo foi mesmo a menor relevância de jornais e revistas impressos. “A internet já tem praticamente o dobro de citações como principal meio de informação em comparação aos jornais impressos, que tradicionalmente são considerados de mais credibilidade entre os formadores de opinião”, salienta Machado.

A avaliação pública expressa pela pesquisa contrasta com o resultado de uma consulta feita no ano passado pelo próprio Grupo Máquina a 600 formadores de opinião. Perguntados sobre quais suas fontes de informação, mais da metade (53%) citou a mídia impressa (jornais e revistas), deixando a TV com menos de 10%. Na ocasião, a internet já aparecia bem colocada, com aproximadamente 30% das citações.

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Convergência digital

09/11/2009

Por Terra Magazine/ Silvio Meira

uma estória datada, que se conta em qualquer interior que se preze, é que um ex-prefeito [nunca o atual] menos letrado, ao ser informado que os recursos do erário público não seriam suficientes para construir a caixa d´água monumental que fecharia seu mandato com chave de ouro, indaga ao seu interlocutor a razão… e recebe como resposta que o problema é a lei da gravidade. impávido, o alcaide diz que isso é coisa pouca, pois enviará à câmara, de imediato, um projeto mandando a tal da lei da gravidade para o espaço.

numa versão mais longa da mesma conversa, o líder do governo, vereador pouco mais instruído, informa ao prefeito que não vai adiantar… porque a lei da gravidade “é federal”.

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federal mesmo vai ser –quando, ou depois que se tornar lei- o PL29/2007, ou simplesmente PL29, que “dispõe sobre a organização e exploração das atividades de comunicação social eletrônica e dá outras providências” e que está transitando pela CCTI, a comissão de ciência e tecnologia, comunicação e informática da câmara dos deputados.

o projeto, tornando-se lei, vai regulamentar desde a quantidade de comerciais nos intervalos das TVs pagas até quem pode contratar talentos artísticos de qualquer natureza para  veiculação em meios de comunicação, passando pelo que se pode ou não fazer na internet. e deve transformar a ancine em uma superagência reguladora de tudo o que for conteúdo que passe por aqui, nacional ou não. e criar, como não poderia deixar de ser, um bom número de conflitos entre ela e a anatel.

e como papel –ou editor de texto- ajudado por vontade política aceita absolutamente tudo, inclusive a revogação das equações mais elementares de newton, o deputado josé rocha, [pr/ba] está propondo a proibição de empresas cujo objeto social não a enquadre como prestadora de serviços de comunicação social, constituída sob as leis brasileiras, de adquirir eventos de interesse nacional e contratar talentos artísticos nacionais.

isso quer dizer que um portal como o TERRA não poderia veicular uma olimpíada, copa do mundo ou campeonato nacional de coisa alguma. e a definição do que é interesse nacional, se a emenda acima passar, terá que ser regulamentada e provavelmente será decidida, caso a caso, por mais um conselho ou comitê, como se no país tivéssemos poucos. em resumo, o deputado está propondo que se revogue a convergência digital, que vem a ser uma espécie de lei da gravidade de nossos tempos. não é preciso tecer considerações, aqui, sobre a desnecessidade de tal tipo controle; trata-se, simplesmente, de uma tentativa de aprisionar possíveis futuros no passado.

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mas talvez valha a pena dizer que, lá no passado, o país já viveu ditaduras de controle da mídia e conteúdo. o caso mais notório é o do departamento de imprensa e propaganda, o DIP da era vargas, criador da “hora do brasil”  e da agência nacional, que até hoje nos acompanham. para quem quiser entender um pouco mais do DIP e de seu tempo, há um texto simples e direto neste link; para um conjunto mais amplo de textos e links, consulte a página do CPDOC/FGV sobre o assunto e, para começar a estudar o tema e entender as possíveis consequências de um PL29 “mal aplicado” ou controlado por “certos interesses”, leia estratégias de controle da mídia: o caso da radiodifusão no estado novo – 1937/1942, de othon jambeiro et al.

mas o representante da bahia não é um lutador solitário pelo aumento do controle da mídia, seja ela qual for. para não ficar muito atrás, o deputado paulo roberto pereira [ptb/rs] quer obrigar as TVs pagasa veicular a propaganda eleitoral e partidária gratuita, prevista na legislação brasileira, nos mesmos parâmetros das regras que regulam a propaganda eleitoral e partidária no rádio e televisão, inclusive quanto ao beneficio fiscal.

segundo o nobre deputado, seu objetivo é… manter o eleitor brasileiro próximo aos políticos e atualizado quanto aos assuntos e evolução da política nacional. o deputado deve estar de posse de algum levantamento que indica haver brasileiros que só têm acesso a TV paga e estão ávidos por propaganda eleitoral e partidária, para ficarem próximo[s] aos políticos e atualizado[s] quanto aos assuntos e evolução da política nacional

deve ser. deve haver muita gente interessada inclusive no andar, quase que literalmente, da carruagem do PL29 na CCTI. mas não, não há. não consigo imaginar quem quer que seja, com a provável exceção de uma certa parcela da nobre classe política, assinando uma petição por propaganda eleitoral e partidária, boa parte da qual sandices de legendas de alugual, nas TVs fechadas ou, de resto, em qualquer TV, rádio, ou jornal.

o que deveria ser feito, isso sim, era liberar o precioso tempo do espectro de rádio e tv ocupado pela propaganda eleitoral e levar toda ela para a internet, onde a audiência se tornou comunidade e escolhe o que vai ver, ouvir e do que vai participar. a audiência seria fantástica. e bem perto de zero, creio eu.

espera-se não só que tais propostas não passem pelo crivo da CCTI mas que os nobres deputados da comissão consigam refrear sua criatividade, dado que ainda podem apresentar emendas ao texto do substitutivo ao projeto até a próxima quarta, dia 11.

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claro que o debate sobre conteúdo, conteúdo nacional e infraestruturas de e para mídia não é trivial; para ter uma idéia do cenário, leia este texto de sayonara leal e laura haje, onde as pesquisadoras fazem um mapa das… lógicas e interesses que perpassam as atuais propostas dos projetos de lei para regulamentação do processo de convergência tecnológica no setor das comunicações no brasil. conteúdo nacional é importante, sim, e o assunto tem que ser pensado, em toda sua amplitude e complexidade, e amplamente debatido dentro de contextos nacionais, dado que cada país é naturalmente diferente de qualquer outro e se encontra em seu particular estágio de desenvolvimento.mas daí para querer aprisionar a nação em estruturas vencidas pelo tempo não só é demais, mas é aumentar, em muito, o custo brasil. por que?

porque aqui temos o vício de nos sentir vencidos por uma “modernidade”, sempre criada por outros. e sempre queremos preservar, para o futuro, um passado que, noutras plagas [plagas?], já não tem mais lugar no presente. tais tentativas são um sinal muito claro de nosso subdesenvolvimento no que tange às capacidades de inovar, empreender, pensar, planejar e, de resto, olhar para o mundo como o nosso quintal, e não de nos olharmos [como sempre é o caso] como o quintal do mundo.

além do mais, parece que o bom senso [e a boa teoria], no assunto, diz que a economia das comunicações –infraestrutura e conteúdo- depende da forma através da qual se regula o conteúdo. como consequência, criar uma competição entre agências regulatórias [como será fatalmente o caso aqui, depois do PL29 transformado em lei] não será bom para os negócios, para as pessoas, como cidadãos e consumidores, para o país.

a inglaterra, desde 2003, fez tal descoberta e unificou suas agências regulatórias relacionadas a mídias através da OFCOM. os resultados da fusão se revelam, até agora, muito acima da média dos países onde os conflitos regulatórios continuam.

de resto, e pra terminar, querer regular o passado, como é o caso de boa parte do PL29, nos levará ao… passado [como querem, ainda mais objetivamente, os nobres deputados rocha & pereira]. também em 2003, cees hamelink, da universidade de amsterdam, na graham spry memorial lecture da universidade de montreal, já dizia que…

Current international human rights standards cover mainly the dissemination of information, the consultation of information, and the registration of information. Practically all human rights provisions refer to communication as the “transfer of messages.” This reflects an outdated conception of communication as “distribution.” Communication is interaction: a process of personal and public dialogue! The shift from distribution to interaction requires the adaptation of human rights standards to the new reality of global interactive technologies and the emergence of networking in many social domains.

…os atuais padrões internacionais de direitos humanos tratam principalmente do registro, consulta e disseminação de informação. na prática, todas as provisões de direitos humanos tratam comunicação como “transferência de mensagens”. e isso reflete uma concepção datada de comunicação como distribuição. mas comunicação é interação, um conjunto de processos de diálogo pessoal e público! a mudança de comunicação para interação requer uma adaptação dos padrões de direitos humanos para a [nem tão] nova realidade de tecnologias interativas globais e a emergência de redes [de todos os tipos] em muitos domínios sociais.

a mensagem não poderia ser mais clara: deveríamos estar tratando de conectividade e interação, e não de comunicação e disseminação. e isso há pelo menos uma década. o que constrói o futuro é tratarmos dele, o tempo todo, no presente. e não o contrário, que é, no caso, tentar carregar o passado para o futuro. ainda mais porque, felizmente, não vai dar certo.

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A propaganda paga na internet está proibida, mas não será punida a livre manifestação de apoio a determinados candidatos.

09/11/2009

O sistema eleitoral brasileiro, após sua informatização, se tornou referência mundial aos países que buscavam um método rápido, eficaz e seguro para a realização e apuração das votações. No entanto, apesar do exemplar aperfeiçoamento da Justiça Eleitoral, não foi dada a devida atenção para a regulamentação dos meios de propaganda à disposição dos candidatos.

Por muito tempo o sistema eleitoral vanguardista e a propaganda eleitoral primitiva coexistiram no sistema brasileiro. Apesar do arrojo para incluir as novas tecnologias nas votações, aos candidatos ainda era bem limitado o uso destas ferramentas no exercício de sua publicidade. Contudo, mesmo que tardiamente, a era digital chegou para as eleições.

A inclusão da internet como uma das ferramentas à disposição dos candidatos para a realização de propaganda eleitoral traz junto suas normas próprias, com os limites desta publicidade. Além das agências publicitárias, agora os blogueiros, moderadores e administradores de conteúdo digital também devem se atentar para as novas regras.

É bom lembrar que está vedada a propaganda eleitoral paga na internet, exceto para os casos de mera reprodução de jornal impresso. Note-se que a proibição se refere ao pagamento para a veiculação da publicidade eleitoral; ela deverá ser gratuita. A utilização de instrumentos de remuneração por visitação ou redirecionamento, desde que respeitem os princípios da legislação, não está impedida. Se no site há os banners, não será necessário removê-los, por exemplo.

Dentro das atuações para os diversos profissionais especializados em novas tecnologias e web em geral, além da própria propaganda a ser desenvolvida para a página do candidato, são possíveis, dentre outras:

  • Criação de sistemas para arrecadação e emissão de recibos pelas doações online;
  • Organização de entrevistas e debates com pré-candidatos e candidatos;
  • Elaboração de e-mail marketing – adotando mecanismos opt-out;
  • Mediação em redes sociais e fóruns de discussão.

A propaganda paga na internet está proibida, mas não será punida a livre manifestação de apoio a determinados candidatos. Blogueiros – profissionais ou não – poderão elaborar posts contendo mensagens em favor de determinados candidatos, desde que a iniciativa seja de cunho pessoal, sem qualquer pagamento. Críticas, por outro lado, devem respeitar a honra alheia e a realidade dos fatos, sob pena de responsabilização criminal, inclusive.

Outros meios incluem fóruns diversos, Grupos de Discussão, Orkut e Twitter, por exemplo. No entanto, a mensagem nunca poderá ser anônima ou proveniente de fakes; daí a grande importância na manutenção ou implementação de uma moderação constante sobre os textos publicados. Vale lembrar que poderá incidir uma pena de suspensão por 24 horas – dobrando a cada reincidência – para os casos de violação à lei eleitoral.

Mesmo de forma filantrópica, qualquer publicidade é vedada nos sites de empresas – com ou sem fins lucrativos – e nos de órgãos governamentais ou de entidades da administração direta e indireta. O que se pretende evitar é a associação de candidato com determinada marca e a desvirtuação da publicidade institucional para promoção pessoal; a proibição alcança, portanto, apenas o site corporativo e não eventual rede social criada por pessoa jurídica.

Exceção à gratuidade das propagandas é a reprodução digital correspondente ao material veiculado na imprensa escrita, respeitada a proporcionalidade entre o espaço no jornal e no site da mídia. Ou seja, se o jornal decide reproduzir suas matérias online, o espaço da propaganda deverá ser proporcional ao original.

Agora os tradicionais debates televisivos também poderão ser realizados por meio eletrônico, com a possibilidade interatividade com o público. O princípio básico para esta modalidade de publicidade eleitoral é o tratamento isonômico (igual) entre todos os partidos e coligações, desde a ciência da realização até a participação na reunião para estabelecer as regras do evento.

A participação em entrevista também deve ser moderada, principalmente entre os pré-candidatos, com discursos sem conteúdo eleitoreiro, mas de caráter informativo. Esta exposição também poderá ser feita por webmeeting, observada sua ambientação em entrevistas, programas, encontros ou debates.

Quanto ao e-mail marketing, seu conteúdo deverá necessariamente conter opção para descadastramento imediato do destinatário. A obtenção da base de dados deverá ser de iniciativa do candidato, partido ou coligação. Percebe-se que é permitida a propaganda política via e-mail; na verdade, só será caracterizado spam se houver continuidade no envio de mensagens mesmo após a solicitação para descadastrar.

Além disso, a lei traz uma relação de entidades que não poderão ceder seu banco de dados para mailing; basicamente são pessoas jurídicas de direito público ou que recebam verbas públicas.

Os provedores ou servidores onde esteja hospedado o site pessoal do candidato, partido ou coligação devem ficar atentos, pois também são responsáveis pela divulgação de propaganda irregular no seu domínio após a notificação pela Justiça eleitoral.

As ferramentas para a propaganda digital estão aí, ao alcance de todos. Com o conhecimento necessário, poderão fazer toda a diferença na promoção dos candidatos. A grande questão é o uso correto das novas tecnologias pelos profissionais envolvidos, evitando trazer sanções para si e para seus clientes.[Webinsider]

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Nordeste – Milhões de pessoas passam a fazer parte do mercado consumidor, uma nova safra de empreendedores surge e investidores chegam em busca de novos projetos

09/11/2009

A avenida Paralela, que liga o município de Lauro de Freitas a Salvador, é um gigantesco canteiro de obras em linha reta. Ao longo de seus 18 quilômetros brotam edifícios, condomínios, shoppings, lojas e universidades onde, até cinco anos atrás, o que se via era apenas um matagal. Todo fim de tarde, centenas de ônibus apinhados de operários a caminho de casa se misturam aos carros de passeio e entopem as três pistas da avenida. O movimento é especialmente intenso na altura das obras do condomínio Le Parc, onde 2 200 funcionários trabalham seis dias por semana. O Le Parc — incrustado na capital da Bahia — é o maior empreendimento residencial em construção no Brasil. Dezoito torres, cada uma com pelo menos 16 andares e 64 apartamentos, são construídas ao mesmo tempo, num terreno de 100 000 metros quadrados. A cada semana, são utilizados 4,5 milhões de blocos pré-moldados e o equivalente a sete piscinas olímpicas de concreto. Caminhões de 40 fornecedores entram e saem pelos portões do empreendimento de segunda a sábado, das 7 horas da manhã às 5 horas da tarde. Previsto para ser construído ao longo de cinco anos, o Le Parc precisou ter seu cronograma adiantado para atender à demanda. Em menos de um ano, 1 000 de seus 1 138 apartamentos foram vendidos, a preços que variam de 421 000 a 1,1 milhão de reais. “Planejávamos começar as obras com apenas cinco torres”, diz Antonio Andrade Jr., de 43 anos, presidente da Cyrela Andrade Mendonça, associação entre a construtora baiana Andrade Mendonça e a paulista Cyrela. Mas, assim como tantos outros empresários, Andrade Jr. descobriu que o mercado local era maior do que parecia ser. Em 2008, as vendas de sua construtora dobraram, alcançando 600 milhões de reais. Criada há mais de 30 anos, a Andrade Mendonça jamais viveu tamanha prosperidade em seus negócios. Neste momento, seus operários erguem simultaneamente 52 obras, espalhadas por Bahia, Pernambuco, Paraíba e Sergipe.

A avenida Paralela, em Salvador, é um retrato do que hoje acontece naquela que historicamente foi a região mais pobre e atrasada do país. Por quatro séculos, o Nordeste brasileiro foi berço de uma economia pré-industrial, com base numa estrutura quase feudal, na inexistência de tecnologia e na escassez de grandes empreendimentos. Não havia mercado. Não havia, numa consequência óbvia e cruel, oportunidade. Com 28% da população brasileira, o Nordeste é responsável por apenas 14% do PIB do país. Mas os prédios erguidos por
2 200 pessoas na Paralela são uma evidência concreta da transformação da região em um mercado real, em que parte dos 54 milhões de habitantes se torna consumidora. É um sinal que se junta a outros — o surgimento de um novo e pujante polo agrícola entre a Bahia, o Piauí, o Tocantins e o Maranhão, a instalação de grandes indústrias, comoNestléSadia, e obras de infraestrutura que estão entre as maiores do país, frutos de investimentos públicos e privados.

Aos poucos, a economia do século 21 toma o espaço do que resta da economia do século 16. O desenvolvimento do Nordeste, portanto, não se deu em fases. Está ocorrendo num movimento de salto. Neste ano de abalo mundial, o Nordeste foi responsável pela maior fatia do pequeno crescimento da economia brasileira. A consultoria Tendências estima o crescimento do PIB nordestino em 1,5%, enquanto o resto do Brasil deve encolher 0,1%. Se o mercado interno protegeu o país dos efeitos da crise internacional, isso é mais verdade no Nordeste, região de baixíssima exposição internacional, formada em sua base por uma legião de consumidores emergentes. “Esse pedaço do Brasil está descobrindo o próprio caminho para o crescimento, com o empreendedorismo local, o desenvolvimento tecnológico, dos serviços, do turismo e da construção civil”, afirma o economista Maílson da Nóbrega, sócio da Tendências.

Para entender as estatísticas atuais é preciso voltar um pouco no tempo. Nenhuma região do país foi tão beneficiada pelos programas de transferência de renda do atual governo quanto o Nordeste. Hoje, cerca de metade dos 12 milhões de famílias atendidas pelo Bolsa Família em todo o país vive na região. O programa é responsável por 2,6% da renda familiar nordestina — média três vezes superior à brasileira, mas ainda assim um volume de dinheiro pequeno diante do todo. Há também outras iniciativas, como a aposentadoria rural, que hoje atende 3,8 milhões de pessoas na área — metade de todo o benefício pago no país –, e o aumento de 94% do salário mínimo, que desde 2003 ajudaram a elevar a renda média da população. Mas é fundamental deixar claro que a economia nordestina, embora tenha sido empurrada por incentivos de distribuição de renda, hoje se move graças às forças do capitalismo tradicional. A região começou a receber grandes investimentos nos últimos anos, sobretudo no que se refere ao setor de infraestrutura. Obras gigantes já estão em curso, como os portos de Suape, em Pernambuco, e Pecém, no Ceará, ou a duplicação da BR-101, que liga o litoral pernambucano ao do Rio Grande do Norte. No total, 52 bilhões de reais devem ser injetados na economia local nos próximos cinco anos, de acordo com o levantamento do Anuário EXAME de Infraestrutura 2008. “É um investimento muito grande para uma região historicamente carente”, diz Francisco Cunha, sócio da consultoria TGI, com sede em Recife. Essa combinação fez com que o Nordeste acelerasse sua marcha econômica — o aumento da renda gera mais consumo, que gera mais produção, que gera mais investimento. Um levantamento do economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas, revela que a renda do trabalho nesse pedaço do país vem crescendo 7,27% ao ano desde 2003, ante 5,13% da média brasileira. De setembro de 2008 a setembro deste ano, o Nordeste apresentou o maior crescimento em vagas formais de trabalho do país. “São números emblemáticos, para derrubar as teses de que a região só cresce graças aos programas de transferência de renda”, diz Neri.

O efeito direto dessa mudança de cenário é uma mobilidade social sem precedentes. Em 2003, metade das famílias nordestinas vivia com menos de 768 reais por mês e fazia parte da chamada classe E, um extrato da população alijada do mercado de consumo. Nos últimos cinco anos, essa faixa caiu para 31% da população. Isso significa que cerca de 10 milhões de nordestinos ingressaram nas classes C e D. Trata-se de um imenso contingente de pessoas que compraram seu primeiro fogão ou seu primeiro aparelho de TV. Os nordestinos são hoje os maiores consumidores de produtos como arroz e carros Uno Mille, o modelo mais barato da Fiat, do país. Há demanda para quase tudo — e é exatamente isso que está na raiz do surgimento de uma nova geração de empreendedores locais. É o caso do pernambucano Richard Saunders, dono da rede varejista Eletroshopping. Sua empresa dobrou de tamanho nos últimos dois anos vendendo eletrodomésticos em crediário de até 24 vezes para uma população que, muitas vezes, nem sequer possui conta bancária. Aos 37 anos, Saunders, filho de um inglês e de uma pernambucana, comanda hoje uma rede com 105 pontos de venda espalhados por seis estados nordestinos, com faturamento previsto de 700 milhões de reais neste ano. Até 2014, a previsão é abrir mais 150 lojas — mesmo com a chegada de concorrentes nacionais à região, como a Casas Bahia, líder do setor. Em março deste ano, 52 anos após sua fundação, a Casas Bahia inaugurou suas primeiras lojas no estado que lhe empresta o nome. A previsão é chegar a 50 unidades até meados de 2010.

Depois de ocupar espaço nas principais capitais nordestinas, a Eletroshopping parte agora para uma segunda fase — o crescimento em cidades com menos de 70 000 habitantes. A chegada de uma dessas lojas de eletrodomésticos ao interior normalmente é motivo de festa. Na inauguração da Eletroshopping em Arcoverde, cidade com 68 000 habitantes a 250 quilômetros de Recife, o povo se aglomerou na praça central para ver a abertura das portas, animada por uma banda de pífanos. “Temos uma oportunidade enorme nesses lugares em que as pessoas ganharam poder de consumo, mas ainda não tinham acesso a crediário”, diz Saunders, que vendeu a Saveiro e o Chevette da família para encher as prateleiras de sua primeira loja, inaugurada em Recife há 19 anos.

Com a velocidade de movimentação da economia nordestina, começam a surgir figuras típicas de mercados mais desenvolvidos. Em Pernambuco, já é possível encontrar uma geração de empreendedores seriais — empresários irrequietos, normalmente jovens, que criam uma empresa após a outra e, não raro, as vendem para investidores como fundos de private equity ou de venture capital. Um dos representantes dessa leva de novos capitalistas nordestinos é o recifense Fernando Carrilho, de 28 anos. Formado em engenharia civil pela Universidade Federal de Pernambuco, Carrilho é filho e neto de empresários da construção civil, mas desistiu de trabalhar na construtora da família para abrir seu próprio negócio. Conseguiu 15 milhões de reais com bancos e outros investidores e, em 2006, inaugurou sua primeira empresa, a Cimentos Brasil. Menos de dois anos depois, vendeu a companhia para o grupo Camargo Corrêa por 200 milhões de reais — um extraordinário ganho de 185 milhões de reais em relação ao aporte inicial. Em julho, Carrilho começou sua segunda empreitada, desta vez em sociedade com o colega de faculdade Luiz Priori, fundador da fabricante de estruturas metálicas Zipco. Fundada há três anos, a Zipco especializou-se em construir armazéns para grandes empresas. Carrilho investiu 12 milhões de reais para ficar com metade da empresa, cujas receitas neste ano serão de 20 milhões de reais. “Ainda somos pequenos, mas já temos clientes como Vale, AmBev e CPFL”, diz ele.

O maior indício de renovação no ambiente de negócios do Nordeste é certamente a capacidade de atrair investidores. “O apelo da região migrou de uma espécie de compaixão para o do crescimento acelerado”, diz Tania Bacelar, sócia da consultoria pernambucana Ceplan e ex-secretária de Política de Desenvolvimento Regional do Ministério da Integração Nacional. A expansão vem chamando a atenção inclusive de fundos internacionais. Segundo a GVcep, braço da FGV que analisa o mercado de venture capital e private equity, existiam 11 empresas nordestinas com participações de fundos de private equity em 2004. Agora são 19. Uma delas é o grupo SER Educacional, com sede em Recife, que no ano passado recebeu um aporte de 100 milhões de reais do fundo americano Cartesian Capital Group (o Cartesian só tem mais um investimento no Brasil, no banco Daycoval).

Formado por três faculdades — Maurício de Nassau, Fabac e Joaquim Nabuco –, o SER foi fundado em 2003 pelo paraibano Janguiê Diniz. Aos 45 anos de idade, Diniz tem uma origem improvável para um empresário do setor de educação. Filho de pais analfabetos, que deixaram a Paraíba fugidos da seca nos anos 70, ele morou em Mato Grosso e Rondônia antes de se fixar em Pernambuco. Conseguiu se formar em direito e, anos depois, ao tentar uma vaga num concurso público para promotor, percebeu que não havia cursinhos preparatórios. “Ficou claro para mim que havia ali uma oportunidade de negócio”, diz ele. Foi então que, em 1996, Diniz abriu uma escola preparatória — que daria origem ao SER, alguns anos depois. Hoje o grupo tem oito campi espalhados por Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Bahia e faturamento de 140 milhões de reais — para se deslocar entre um campus e outro, Diniz usa o próprio avião, um turboélice King Air C-90, cujo preço gira em torno de 1 milhão de dólares. Com o aporte dos americanos do Cartesian, o objetivo agora é aumentar o número de alunos de 30 000 para 100 000 e chegar a 30 unidades nas regiões Norte e Nordeste nos próximos cinco anos.

O crescimento do mercado nordestino não passou despercebido pelas grandes companhias instaladas no Sul e no Sudeste. Apenas no Banco do Nordeste, os financiamentos sextuplicaram, passando de 2 bilhões em 2003 para 13,3 bilhões de reais em 2008. São projetos dos mais variados portes e destinados a fins tão diversos quanto esmagamento de soja e produção de medicamentos. Um dos maiores investimentos recentes foi feito pelaSadia em Vitória de Santo Antão, a 50 quilômetros de Recife. Em março, a empresa inaugurou sua primeira fábrica na região, resultado de um aporte de 300 milhões de reais. “Antes levávamos até dez dias para atender a um pedido local, com produtos que chegavam a viajar 3 000 quilômetros”, diz Julio Cavasin, gerente de projetos e investimentos. A Sadia, também espera fazer de Vitória de Santo Antão um polo para exportação de seus produtos. Para isso, deu especial atenção às exigentes normas internacionais de qualidade. A fábrica da Sadia. em Vitória de Santo Antão é a primeira do setor de carnes do país a neutralizar suas emissões de carbono.

Os benefícios decorrentes de grandes obras — tanto privadas quanto de infraestrutura — são imediatos. Em 2005, a BR-232 foi duplicada de Recife a Caruaru, a maior cidade do agreste pernambucano. O percurso de 150 quilômetros, que antes levava até 3 horas para ser percorrido, passou a ser feito em 90 minutos. Desde então, Caruaru vive uma expansão inédita. Em maio, a cidade, conhecida por sua gigantesca festa de São João, recebeu a primeira loja do McDonald’s instalada no interior do estado. No dia da inauguração, centenas de pessoas fizeram fila em frente ao balcão — numa cena que lembrou a abertura da primeira unidade da rede em Moscou, após a queda do Muro de Berlim. Os funcionários do McDonald’s ganharam status de celebridade no município. Alguns mantêm o crachá até mesmo para sair à noite, no forró da cidade (segundo eles, os arcos dourados estampados no peito servem como um “ímã” para conquistar as garotas locais). Diferentemente do que acontece nos grandes centros, o maior desafio do McDonald’s em Caruaru não é superar outras cadeias de fast food — até porque elas ainda não existem por lá –, mas romper a tradição local de almoçar carne de sol e guisado de bode. A maior esperança de mercado está nas novas gerações de consumidores. Professores chegam a levar turmas inteiras para a loja no horário das refeições. “Para esses meninos, comer no McDonald’s é motivo de orgulho”, diz Mario Jorge Carvalheira, dono da franquia.

No caminho inverso, cada vez mais companhias nordestinas ganham fôlego para ultrapassar as próprias fronteiras, num movimento migratório diferente do que se viu por décadas no país. Em vez de uma massa de retirantes em busca de emprego, começa a surgir uma leva de empresários nordestinos atraídos pela possibilidade de expansão nacional. Uma das pioneiras nesse movimento é a rede de farmácias Pague Menos, com sede em Fortaleza. Fundada em 1981 por Deusmar Queirós, hoje com 62 anos, a empresa tornou-se no ano passado a maior do país em seu setor. A previsão é fechar 2009 com 340 lojas e faturamento de 2 bilhões de reais. Por enquanto, a grande concentração está na própria região, onde estão localizadas 220 lojas. Agora, o objetivo é ganhar o resto do país. Para isso, Queirós já mapeou 132 cidades com mais de 100 000 habitantes, que poderão receber novas farmácias. Por trás desse crescimento está uma estratégia inovadora. A Pague Menos foi a primeira rede brasileira a oferecer produtos como sorvetes e refrigerantes e a aceitar pagamento de contas de água, luz e telefone — serviço muito procurado no interior nordestino, onde a presença dos bancos ainda é tímida. Nos próximos meses, o modelo de Queirós será colocado à prova. A Anvisa, agência que regula o setor de medicamentos, determinou que em fevereiro as farmácias passem a vender apenas remédios.

Como a mais emergente região de um país que hoje chama a atenção do mundo, o Nordeste vive um momento de prosperidade por seus próprios méritos. Seu desenvolvimento atual ocorre além — e a despeito — das conveniências políticas, dos interesses particulares e das agências de desenvolvimento estatais que enterravam dinheiro em açudes fantasmas. A força de atração da região está em seu mercado potencial e na parcela dele que se torna real. Mas é evidente que esse movimento tem travas, que tendem a aparecer mais adiante caso não sejam removidas. O Nordeste é, apesar do que está acontecendo, uma região pobre, com baixos índices de educação e qualificação da mão de obra. Dados da FGV revelam que os alunos nordestinos só agora chegaram à média de anos de estudo que o restante do país tinha em 1999 — inferior a seis anos de instrução formal. Essa lacuna tende a ser crítica numa economia que se moderniza e que passa a depender de mais qualificação. As diferenças entre os estados são consideráveis. Alagoas e Maranhão, por exemplo, estão longe do ritmo de crescimento de vizinhos como Pernambuco e Ceará. “Temos a obrigação de crescer mais porque a diferença em relação ao Sul e ao Sudeste ainda é brutal”, diz o sergipano João Carlos Paes Mendonça, presidente do grupo JCPM e fundador da rede de supermercados Bom Preço, hoje nas mãos do Walmart. O lugar onde vivem mais de 54 milhões de brasileiros parece finalmente ter a chance de transformar suas enormes fraquezas em oportunidades.

Por Exame

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25 de março – 3 000 pontos de venda e quase 20 bilhões de reais por ano

09/11/2009

Para quem está acostumado com o ambiente asséptico dos shopping centers, o primeiro contato com o lugar é chocante. A sensação que predomina é de sufoco, provocado pela circulação diária de cerca de 400 000 pessoas na região, todas elas zanzando de lá para cá com sacolas nas mãos. Nos meses de novembro e dezembro, esse número sobe para 1 milhão de consumidores, o que dá uma média de mais de dez pessoas por metro quadrado, superior à de um vagão do metrô paulistano nos horários de pico. Centenas de vendedores ambulantes com tabuleiros de doces na cabeça e funcionários aboletados nas portas das lojas anunciando ofertas como numa feira livre aumentam a balbúrdia na região da rua 25 de Março, no coração de São Paulo, o maior centro de comércio popular do país. Nas lojas, vitrines organizadas, provadores arejados e ar condicionado são luxos raros de encontrar. Alguns pontos não aceitam cartão de crédito ou de débito. Só cheque ou dinheiro.

A região da rua 25 de Março não é propriamente uma novidade — sua tradição no comércio de São Paulo vem de décadas. Mas foi o florescimento de uma nova classe média brasileira e o aumento da renda que a levaram ao patamar de fenômeno do varejo e de laboratório de vendas para um número crescente de fabricantes de bens de largo consumo. De certa forma, a região é uma metáfora do que está ocorrendo nos últimos anos com o mercado de consumo no Brasil. Ao longo de 18 ruas, esparramam-se 3 000 pontos de venda, dos mais variados tipos — várias galerias comerciais, lojas de até 3 000 metros quadrados, cubículos com mercadorias oferecidas numa portinhola e muitas, muitas barracas de camelôs. A quantidade enorme de itens vendidos na região inclui desde bugigangas de 20 centavos, passando por roupas, brinquedos, bijuterias, fantasias e falsificações de todos os tipos, até itens mais caros, como tecidos ricos e cristais Swarovski. A característica comum à maior parte das ofertas é o preço baixo — em alguns casos, 70% mais em conta do que itens equivalentes vendidos fora da 25 de Março.

Entre a babel de comerciantes, misturam-se sírios e libaneses (os pioneiros e ainda responsáveis por metade dos negócios), chineses, espanhóis, portugueses e coreanos. Os brasileiros são, em geral, descendentes desses imigrantes. O metro quadrado comercial na região vale 10 000 reais, superando os preços cobrados na rua Oscar Freire, o endereço mais sofisticado de São Paulo. Apesar do valor imobiliário, há pouquíssimos pontos à venda. Os negócios costumam ser passados de pai para filho. Hoje, há lojas administradas pela quarta geração de famílias que se instalaram na região no início do século 20. Na raiz dessa tradição está a enorme riqueza gerada pelo comércio na região. Uma pesquisa da consultoria TNS Research International, encomendada por EXAME, estima em 17,6 bilhões de reais por ano o faturamento total do comércio da região. O valor corresponde a mais que o triplo do total das receitas em 2008 dos 11 shoppings do grupo Iguatemi, um dos maiores do país. “A 25 de Março é um lugar excitante, cheio de cores, barulho, ação, e todas as ofertas fazem os clientes se sentir especiais”, diz o psicólogo israelense Dan Ariely, especialista em comportamento do consumidor do Massachusetts Institute of Technology (MIT). “Nunca vi nada igual.”

A pesquisa da TNS tem o mérito de deixar os aspectos folclóricos da 25 de Março de lado e mergulhar em sua complexidade como centro de negócios. Foram entrevistadas 708 pessoas em pontos de grande fluxo da região durante o mês de setembro. Segundo a pesquisa, a maior parte da clientela é formada por mulheres (74%), que gastam cerca de 190 reais a cada compra. Os consumidores da classe C — com renda domiciliar de até 4 800 reais — representam 39% do mercado. Mas, surpresa para muitos analistas, a classe B é preponderante. “Houve um movimento de ascensão social no país nos últimos anos e isso se refletiu na mudança de público da 25 de Março”, afirma Elizabeth Salmeirão, diretora de varejo da TNS. “Além disso, parte da elite que sempre comprou na região, e tinha vergonha disso, agora resolveu assumir.”

Essa mudança de perfil tem interferido na estratégia dos lojistas. Instalada na 25 de Março há quase 80 anos, a Niazi Chohfi vende tecidos, tapetes e artigos de cama, mesa e banho. Nas quatro lojas da rede, tecidos populares, como chita e saco para pano de chão a menos de 5 reais o metro, dividem o espaço das prateleiras e dos mostradores com jogos de algodão egípcio de 700 reais. “Sofisticamos o mix de produtos, mas sem abandonar o público que vem aqui em busca de lençóis de 15 reais”, afirma Reginaldo Niazi Chohfi, de 26 anos, um dos donos do negócio. Na Doural, outra pioneira da região, são oferecidos desde talheres de 1 real até luxuosas cafeteiras italianas. “Trouxemos para a 25 de Março itens que antes só podiam ser encontrados em bairros mais ricos”, diz Fernando Abdalla, bisneto do fundador da Doural.

O enorme fluxo de consumidores com mais dinheiro para gastar vem atraindo uma série de novos fornecedores para o varejo da 25. “A região é uma referência nacional em vendas, na concentração de negócios e na identificação de tendências de compras”, afirma Marcelo de Campos Mouawad, diretor comercial das lojas Semaan, especializadas na venda de brinquedos de marcas multinacionais, como Mattel e Hasbro. Até o final da década de 90, os executivos da Lupo, maior fabricante brasileira de meias, recusavam-se a colocar os produtos de sua marca nas lojas da 25 de Março. Para esses comerciantes e seus compradores, havia uma marca alternativa. “Existia entre os fornecedores a ideia de que o atacado, na época dominante na área, poderia ‘queimar’ a mercadoria, vendendo para camelôs”, afirma Valquírio Cabral, diretor comercial da Lupo. “Com o tempo, percebemos que o Brasil todo ia buscar meias na 25 e que estávamos perdendo essas vendas.” Hoje, a Lupo tem na região alguns de seus principais clientes. Juntas, as vendas de meias e outros itens da marca para as lojas da 25 de Março são responsáveis por 7% do faturamento total da empresa.

Com frequência cada vez maior, grandes empresas usam a região como uma espécie de laboratório de consumo popular, testando produtos antes do lançamento no restante do país e utilizando o retorno dos consumidores para definir políticas de preços e de distribuição. “Se vende na 25, é porque o Brasil vai comprar”, afirma Rubens Passos, presidente da Tilibra, uma das maiores fabricantes de cadernos do país. “Sempre tiramos da região lições comerciais valiosas”, diz Marcello Stewers, vice-presidente da tecelagem catarinense Teka, que faturou 168 milhões de dólares em 2008. Do total dessa receita, 5% foram obtidos nas vendas de produtos a lojistas da 25 de Março.

As origens do comércio da região remontam ao século 19, quando ali eram descarregadas mercadorias importadas, vindas do porto de Santos. Desde o princípio, o local ganhou fama de vender barato, tradição que se mantém até hoje. Em sua maior parte, as ofertas são resultado da grande escala de compras feitas pelo varejo local. Com preços menores, o giro dos produtos é maior — eis uma regra básica do comércio, válida na 25 de Março ou nas centenas de lojas do Walmart, o maior varejista do mundo. “Uma loja de varejo num bairro normal costuma receber 300 pessoas por dia, e aqui temos mais de 1 000 visitas no mesmo período”, diz Bete Rico, de 57 anos, dona da Bijorca, especializada em bijuterias.

A enorme variedade de itens e a apresentação simples dos pontos de venda também contribuem para explicar o fascínio da 25 de Março. Sua maior loja, a Armarinhos Fernando, ocupa 3 000 metros quadrados e oferece 200 000 itens diferentes. “É um volume de mercadorias só comparável ao dos hipermercados”, diz Claudio Felisoni de Angelo, presidente do conselho do Programa de Administração de Varejo, da Fundação Instituto de Administração, de São Paulo. Outra gigante da 25, a Festas e Fantasias, oferece 20 000 produtos em suas duas unidades (só de coroas de princesa são quase 100 modelos diferentes). A Festas e Fantasias pertence ao libanês Pierre Sfeir, de 52 anos. Ele começou a vender esses produtos depois de uma viagem à Disney nos anos 90, quando trouxe na mala 15 roupas de personagens como Branca de Neve e Cinderela. “Ajudei a criar a cultura de festas no Brasil”, diz Sfeir, que trabalha num escritório de 20 metros quadrados decorado com máscaras de Carnaval, objetos de Halloween e um pôster do Corinthians.

Com uma profusão de roupas coloridas, trajes de super-heróis e abóboras decoradas para o Dia das Bruxas, as unidades da Festas e Fantasias representam uma exceção na rua 25 de Março. Em geral, a decoração das lojas da região é bem menos exuberante. Quase sempre a entrada está preenchida por bancas, caixas e prateleiras transbordantes de produtos. “O varejo de rua sempre foi o espaço da classe popular. Ali, ela não se sente excluída”, diz Renato Meirelles, sócio da consultoria Data Popular, especializada em estudos de mercado. “Além disso, os consumidores costumam se sentir inteligentes ao comprar num ambiente onde há muitas ofertas.” Um dono de loja da região que restaurou a fachada recentemente diz que no primeiro mês após a reforma as vendas caíram. “Precisei ‘sujar’ a entrada”, diz. “Acho que as pessoas se sentiram intimidadas com o visual mais chique. Talvez tenham pensado que eu estava cobrando mais caro.”

Outra explicação, menos nobre, para o fenômeno da abundância de ofertas na 25 é o alto índice de informalidade. Os produtos falsificados são um problema tão grave que, em 2006, a 25 de Março entrou para a lista de paraísos mundiais da pirataria elaborada pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Dos estimados 2 000 camelôs que atuam na região, apenas 74 têm permissão legal para trabalhar — ou menos de 5% do total. Um dos vendedores legalizados é Tertuliano Lisboa, de 75 anos, dono de uma banquinha numa zona disputada, a esquina da 25 de Março com a Ladeira Porto Geral. “Sei que fui ajudado por Deus para conseguir este ponto”, diz ele, que vende por ali colares de pérolas falsas, lenços, brincos e pulseiras. Lisboa não gosta de falar em números, mas quem conhece bem esse tipo de comércio na 25 estima que uma barraca como a dele obtenha uma receita de 10 000 reais por mês.

Cerca de 80 ações de apreensão de mercadorias — o popular “rapa” da polícia — são realizadas por dia, em média. Como a fiscalização é escassa em relação ao número de ilegais, combater a informalidade é como enxugar gelo. Outros focos de comércio informal são os centros comerciais que ficam na região — a Galeria Pajé e o Shopping 25 de Março. São locais abarrotados de bolsas Louis Vuitton por 50 reais, relógios Swatch por 30 e tênis Nike a partir de 40. O Shopping 25 tem entre seus donos o chinês Law Kin Chong, apontado pela CPI da Pirataria, em 2003 e 2004, como o rei do contrabando no país. Nos últimos anos, Chong foi preso três vezes acusado de crimes como corrupção ativa. Hoje, as paredes do Shopping 25 contêm anúncios — em português e chinês — avisando da proibição de venda dos itens de marcas como Nike e Louis Vuitton. Mas os produtos são encontrados ali com facilidade, como uma prova da incrível capacidade de resistência da face sombria da máquina do comércio popular da 25 de Março.

Um gringo no meio do “rapa”
Em visita à região da rua 25 de Março, o psicólogo israelense e especialista em consumo do MIT espantou-se com a fiscalização e não resistiu às ofertas

Professor do Massachusetts Institute of Technology, o psicólogo israelense Dan Ariely é um especialista em comportamento do consumidor. Autor do livro Previsivelmente Irracional, lançado no ano passado, Ariely prega que as várias decisões que tomamos são influenciadas por forças invisíveis, como emoções e normas sociais, e que nos induzem a fazer escolhas “previsivelmente irracionais”. Ao ser convidado por EXAME para visitar a rua 25 de Março, no centro de São Paulo, Ariely foi avisado de que o lugar era um centro de compras de rua que nada lembrava os shopping centers. Ao chegar à região numa tarde de setembro, o professor se disse encantado com o que viu. “É um lugar muito excitante, cheio de cores, barulho, ação e ofertas.” Segundo Ariely, a região aguça o instinto de caça do consumidor, que fica estimulado com a sensação de desbravar as ruas em busca de uma “presa”. “As pessoas vêm para cá sabendo que vão fazer um grande negócio, mas elas não têm a menor noção de onde irão encontrá-lo nem quando. Essa parte imprevisível é um sentimento muito estimulante”, afirma.

Nas 2 horas em que permaneceu na 25 de Março, Ariely passeou pelas banquinhas de camelô (“Você pode perguntar a ele quanto custa aquele brinquedo do Ben 10 ali?”, pediu ele à repórter), entrou no Armarinhos Fernando para conferir se o preço dos brinquedos era bom e ficou impressionado com a ação dos guardas civis fiscalizando os ilegais. “Por que, quando os guardas passam andando, os vendedores saem correndo?”, perguntava Ariely, impressionado com a rapidez com que os vendedores ilegais fugiam durante o “rapa” da fiscalização. No fim do passeio, comprou um pen drive de um camelô, por 30 reais, e encerrou a jornada com a compra de figos e a degustação de um sanduíche de bacalhau no Mercado Municipal. “Adorei. Nos Estados Unidos, as pessoas vão ao shopping e ao cinema como forma de entretenimento. Se eu pudesse escolher onde me divertir, escolheria aqui. É um monte de produtos, de coisas acontecendo, muita ação e música”, afirmou. “Nunca vi nada igual.”

Por Exame