Posts com Tag ‘EUA’

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Declíno gradual

25/02/2009

Publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, em 26 de outubro de 2008. Paul Kennedy, historiado britânico, professor de Yale e autor do livro Ascensão e Queda das Grandes Potências. Para o historiador, a crise é a prova de que a era do unilateralismo acabou.

 

Paul – Há mudanças no equilíbrio de forças globais. Após 20 anos, estou sendo questionado sobre se estamos vendo o fim do período unipolar, de dominação americana, inaugurando com o colapso da União Soviética. Se pensarmos em poder militar, a mudança é pequena. Hoje os EUA respondem por 51% dos gastos de defesa globais, embora suas forças tenham vulnerabilidades – como lidar com o terrorismo e guerra assimétrica. No campo econômico, há uma alteração mais significativa. Depois da Segunda Guerra os EUA tinham 50% do PIB mundial. Hoje tem 20%. A Europa responde pela mesma porcentagem e a China, por 15%. E as previsões de crescimento da Ásia são maiores. Há uma necessidade maior de cooperação na área econômica e financeira que ficou evidente com a crise – o Fed não podia lidar com o problema sozinho porque ele tornou-se global. Todos os bancos centrais agiram. Além disso, também houve uma redução significativa do poder ideológico dos EUA. Pesquisas mostraram que a imagem do país nunca esteve tão ruim no mundo.

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Na Era não-polar, EUA não podem mais ser sozinhos

25/02/2009

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo, em 12 de maio de 2008. Richard Haass, presidente do Council of Foreign Relations, de Nova York, autor do livro The Opportunity: America’s Moment to Alter History’s Course, para qual, o mundo caminha para um novo momento de divisão de poder e participação maior de instituições não-estatais.

 

Haass – Era inevitável que alguns Estados ficassem mais eficientes e produtivos e, conforme isso aconteceu, esses Estados acumulassem muita riqueza. Estamos vendo isso acontecer na Índia, China e no Brasil. Com o tempo, a força econômica acaba sendo traduzida para outras formas de poder de influência. Isso é o primeiro fator. O segundo é a globalização, que dilui e enfraquece o poder de algumas nações, pois, por conta dela há muitos aspectos do mundo que os países não podem controlar. Ela torna possível que os atores não-estatais tenham mais acessos e recursos, o que tanto reflete quanto contribui para a não polaridade. Por último, os EUA aceleraram o surgimento dessa nova era da história por conta de alguns erros que cometeram em suas políticas interna e externa. A decisão de ir à guerra, a falta de compreensão da política energética, o gerenciamento da economia do país, todos esses problemas se juntaram e viraram um grande problema que enfraqueceu o país. Assim, foi a combinação de problemas estruturais, históricos e políticos levou o país e o mundo a essa nova era.

 

Haass – Países como o Brasil terão cada vez mais importância nesse novo mundo. Não são mais potências regionais, mas globais. O Brasil, por exemplo, será central na hora de resolver o problema das mudanças climáticas e na questão do comércio exterior. Será fundamental nas ações para promover a ordem da América Latina. É o país potencialmente mais importante como primeiro parceiro dos EUA na questão de construir instituições regionais e agir em respostas rápidas aos desafios locais.

 

Haass – É uma questão interessante. Existem atores não-estatais muito importantes na questão das relações internacionais, como Al Qaeda. É um ator significativo no mundo do terrorismo e por isso requer esforços de segurança. Mas a autoridade de negócios de Abu Dhabi é cada vez mais um ator significativo no mundo dos investimentos, por exemplo. Uma organização como a Fundação Gates é um ator significativo na saúde pública. Os atores não-estatais tendem a ter um papel limitado a apenas um aspecto as relações internacionais, mas, dentro dele, podem ser extraordinariamente importantes.

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Crise acentua o risco de xenofobia aumentar

25/02/2009

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo, em 16 de fevereiro de 2009. Marc Jacquemain, sociólogo e cientista político, professor da Universidade de Liège, é autor dos livros A Razão Neurótica e Capital Social e Dinâmica Regional. Para o estudioso, demissões em massa devem inflar aversão a estrangeiros já alimentada por sensação de declínio europeu e “guerra ao terror”.

 

Marc – Não dá para saber o que passa na cabeça das pessoas. Em todo caso, há uma clara expressão da xenofobia no plano político. Ela tende a se generalizar, mas se manifesta com destaque maior nas regiões mais ricas da Europa – Holanda, Áustria, Suíça, Noruega, norte da Itália… O fenômeno surge principalmente de parte da classe média, que viveu por décadas em situação privilegiada e hoje sente fragilizada em relação à globalização. Os pais sabem que seus filhos enfrentaram um cenário com muito mais dificuldade do que eles.

 

Apontar para o imigrante como bode expiatório foi a estratégia que muitos partidos políticos adotaram na Europa. Isso acabou alimentando mais ainda a idéia de construir uma Europa-fortaleza para se proteger da concorrência externa. Mas é preciso ressaltar que essa tendência à xenofobia também foi impulsionada pela propaganda das idéias unilaterais e de guerra entre civilizações defendidas por George W. Bush, que via perigo islamita em toda parte. Os europeus rejeitam claramente o belicismo de seu governo, mas acabaram embarcando na onda de medo do Islã. Afinal, quem está perto do mundo islâmico é a Europa e não os EUA. É a convergência desses dois fenômenos – o sentimento de declínio dos europeus e o declínio antiterrorista do governo Bush – explica boa parte da atual xenofobia européia.

 

Marc – A globalização está fragmentando todas as grandes sociedades, na Europa, na América do Norte, na América Latina, na Ásia, na África…. E os contornos do fenômeno não estão totalmente claros. Do ponto de vista econômico, os EUA ostentam enormes contrates. São a maior potência econômica, comercial e financeira do mundo. Mas as áreas ricas do Brasil são muito mais ricas do que as áreas pobres dos EUA. Do ponto de vista cultural, os EUA formam hoje um conjunto bem mais homogêneo do que a fragmentada e dividida Europa, mesmo tendo vivido uma guerra civil terrível (1861-65, deixando quase um milhão de mortos).

 

 

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Ainda donos da bola?

25/02/2009

Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo, em 26 de outubro de 2008. Diplomata brasileiro, Gelson Fonseca Jr, acredita que os EUA dividirão a quadra da diplomacia com muitos países, inclusive o Brasil. É autor do livro O Interesse e a Regra – Ensaios sobre o Multilateralismo.

 

Gelson Fonseca – Qualquer pessoa que anos atrás fizesse previsões sobre como se desenvolveria o sistema internacional iria apontar para isso: certamente o unipolarismo americano não iria persistir, se é que existiu algum dia. As tentativas que os americanos fizeram de impor seu poder não foram bem-sucedidas. Pelo contrário, deram a idéia de que aquele poder tinha limites. Então os EUA terão que cooperar, seja na área de segurança, de meio ambiente ou dos direitos humanos.