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A democracia começa dentro dos partidos

30 mar
Lutar pela democratização partidária é a melhor forma de renovar a representação política
Fernando Abrucio

 

FERNANDO ABRUCIO
é doutor em Ciência Política pela USP, professor da Fundação Getúlio Vargas (SP) e escreve quinzenalmente em ÉPOCA

Os partidos políticos são peças-chave das democracias. No Brasil, houve avanços nesse quesito, particularmente com o aumento da competição partidária, que possibilita a apresentação de mais alternativas ao eleitor e o controle mútuo entre as forças políticas. A introdução da fidelidade partidária, mesmo que por linhas tortas, levou à falência do frenético troca-troca de partido. Claro que ainda há defeitos no sistema, em especial a partidarização dos cargos públicos e a falta de transparência no financiamento das campanhas.

O maior problema está na vida interna das legendas. Eis um dos grandes temas de reforma política e que normalmente não aparece na agenda: a democratização da vida interna dos partidos. Embora a visibilidade dos políticos seja cada vez maior, sabemos o que eles fazem quando ocupam cargos públicos e desconhecemos enormemente suas ações no interior das legendas. As agremiações partidárias devem se abrir para a sociedade, não só para que tenhamos maior conhecimento sobre sua dinâmica, mas também para atrair mais pessoas e grupos sociais aos partidos.

O problema da democratização partidária também aparece na grande força que as cúpulas têm em relação ao restante dos filiados. É por essa razão que, salvo raras exceções, os candidatos a cargos majoritários são apenas referendados pelas convenções.

Os três maiores partidos brasileiros, de formas diferentes, revelam as agruras da vida interna das legendas. Comecemos pelo PMDB, o maior de todos. Sua evolução pode ser resumida pelo seguinte trajeto: a força política mais importante para a derrota da ditadura hoje é um condomínio de caciques regionais. Essa convivência só é possível por duas razões: de um lado, os líderes estaduais não sofrem pressões da cúpula nacional; de outro, todos abdicam de um projeto para conquistar o governo federal. Esse pacto não é completamente pacífico. Mas, no frigir dos ovos, prevalece o modelo fisiológico hegemônico.

Lutar pela democratização partidária é a melhor forma
de renovar a representação política

A situação recente do PSDB ilustra uma tentativa de aprimorar a democratização interna do partido. Trata-se de uma legenda que nasceu por meio de lideranças e que não tinha, de início, base político-popular. Atualmente, contudo, não se pode dizer que é um movimento sem militantes e estruturas sociais de apoio. Só que, nas duas últimas vezes em que o partido escolheu seu candidato presidencial, ficou a impressão de que a decisão fora tomada de cima para baixo.

A ideia das prévias é uma possibilidade de aperfeiçoar o PSDB, com consequências positivas para todo o sistema partidário. Falta saber se o partido será capaz de seguir os passos do Partido Democrata americano, citado como exemplo por alguns líderes tucanos. Penso aqui em dois significados para essa comparação. O primeiro é a intensidade do debate realizado nas primárias democratas, obrigando os candidatos a discutir sua visão de mundo com um número enorme de eleitores. Não sei quanto os partidos brasileiros estão preparados para isso, mas é um belo desafio.

Mais difícil ainda é, depois das prévias, aceitar a vitória do vencedor. Essa é a grande lição do Partido Democrata americano. Cabe lembrar que líderes tucanos importantes não fizeram efetivamente campanha para seus candidatos nas duas últimas eleições presidenciais. Se a história se repetir, será a desmoralização do processo de democratização interna.

Finalmente, cabe ressaltar que, entre os grandes, o PT é o mais transparente dos partidos. Recentemente, porém, ele mostrou uma enorme falha em sua dinâmica interna. Mesmo com tantos debates e reuniões abertas, seus filiados foram incapazes de controlar a cúpula no episódio do mensalão. Pior: a direção partidária invadiu parte do governo, gerando males não só para os militantes, como também para os brasileiros em geral. Lutar pela democratização partidária é uma forma de melhorar a representação política no Brasil. Quando isso acontecer, a distância entre eleitores e eleitos diminuirá, favorecendo uma sadia renovação da classe política.

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Publicado por em 30/03/2009 em Uncategorized

 

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