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O que vai pela cabeça do brasileiro?

28 set

Lançado em 2007, o livro A cabeça do Brasileiro, é resultado de uma pesquisa de opinião, empreendida pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida e com colaboração de Clifford Young, ao abrigo da Universidade Federal Fluminense e com financiamento da Fundação Ford. Ambicionando funcionar como um teste quantitativo da antropologia de Roberto DaMatta, segue os passos do mentor ao dialogar pouco com a historiografia e a sociologia brasileiras. Provocou acalorados debates na imprensa, mas teve recepção morna no ambiente acadêmico. Almeida partiu da questão central lançada por DaMatta, a de que os brasileiros lidam mal com a igualdade, perspectivada aqui no modelo anglo-saxão. Assim como DaMatta, tomou os Estados Unidos e seu liberalismo como tipos ideais, mas exacerbou a desconsideração pelo vetor de síntese hibridizante da sociedade brasileira e seu pendor à tolerância, aspectos que funcionam como faces positivas do criticado jeitinho brasileiro, comportamento característico de uma sociedade hierarquizada e patrimonialista. Seu trabalho privilegia ainda mais que DaMatta a idéia de conflito, ao invés da interculturalidade. Abraça a fórmula de Euclides da Cunha dos dois Brasis, o da classe alta e o popular, mas inverte os fatores: considera a elite mais moderna, impessoal e democrática porque é mais escolarizada, enquanto o povo é fatalmente mais conservador. Contrariando DaMatta, Almeida admite que o País está em transformação, que segue rumo a uma mentalidade mais moderna, em favor da democracia. Para ele, a alavanca desse desenvolvimento é a expansão da educação. Foto: Reprodução O autor de A cabeça do brasileiro, Alberto Carlos Almeida Almeida mostra, com sua grade de respostas e questionários, que há razoável consciência de que a quebra da regra ou da lei é desonesta. Almeida logra medir a fronteira entre o jeitinho e a corrupção. Para seus depoentes, é corrupção usar um cargo no governo para enriquecer, subornar um guarda, ser funcionário fantasma ou fazer uma gambiarra de energia elétrica. É jeitinho dar gorjetas a um garçom para ser melhor atendido num restaurante, usar de um cargo para ajudar um amigo a furar uma fila, valer-se de relações pessoais para conseguir pequenos benefícios, tais como acelerar a retirada de um documento de um órgão público. As situações de jeitinho, contudo, embora o autor não perceba, são encontradas com relativa freqüência em muitos países europeus. Não há, portanto, porque exacerbar a especificidade brasileira neste particular. Por outro lado, o apelo a uma relação pessoal, que o autor sublinha como herança patrimonial e tradicional, é cada vez mais exercitado na moderna sociedade de massas, como estratégia de fuga ao uniforme, do que os clubes exclusivos e os serviços personalizados dão bem conta. Esquecendo-se de se remeter a Sérgio Buarque de Holanda, o autor comprova que quem mora nas capitais tende a ser menos tolerante com a indistinção entre espaço público e privado. Esta tendência também valeria para os cidadãos mais jovens e para aqueles melhor inseridos na dinâmica da economia de mercado, indicando que a revolução cultural capaz de combater a cordialidade vem na esteira da industrialização e da urbanização. O autor consegue mapear por momento de inflexão geracional o início dos anos 1960, precisamente quando o Brasil começa a dar um salto de urbanização. Seus dados mostram haver uma percepção geral de que dá mais jeitinho quem tem mais estudos. A população menos escolarizada acredita que a elite lida melhor com os aspectos extralegais. Já a população com nível superior completo tende a ser mais tolerante com relação à prática do jeitinho. A pesquisa não explica se isto acontece porque estas pessoas sabem-se parte da elite e usufruem seus privilégios ou porque compreendem as injustiças do País e acham que o jeitinho é uma estratégia de sobrevivência dos mais pobres que pode ser tolerada. O dado, entretanto, serve para relativizar a conclusão central do próprio autor, pois indica que a escolarização, embora importante, por si só não é garantia da consolidação da impessoalidade. De qualquer modo, como sublinha o autor, solapando a regra universal, o jeitinho permite uma válvula de escape às relações hierárquicas, que, na prática, evita a implosão do sistema como um todo. É uma estratégia de sobrevivência e de acomodação, ao mesmo tempo que de reforço de uma face autoritária. Esforça-se o autor para provar o sentimento hierárquico da sociedade brasileira. Entretanto, muitas de suas conclusões são discutíveis. Dizer que os cidadãos mais idosos e os habitantes das zonas menos urbanizadas são mais conservadores em matéria de costumes, tolerando menos a independência feminina ou o homossexualismo, é uma platitude que se aplicaria provavelmente a todos os países. O autor conclui por um alto grau de intolerância, de um modo geral, dos brasileiros para com o homossexualismo masculino: entre 75% e 90% dos entrevistados, dependendo do grau de instrução, de superior completo a analfabetos, responderam contra a esta questão. Surpreendentemente, quando perguntados a respeito da opinião sobre todo o tipo de prática sexual voluntária, a porcentagem de contrários caiu para 15% e 61%, respectivamente. A pesquisa não consegue avaliar se, quando perguntados sobre o homossexualismo, muitos entrevistados entenderam tratar-se de suas próprias vidas, o que explicaria o elevado repúdio. Por outro lado, ela também não consegue medir a diferença entre homoerotismo e homoafetividade. Ora, há sinais muito evidentes de que no Brasil o homoerotismo pode estar presente em razoável intensidade mesmo entre aqueles que se declaram heterossexuais. Finalmente, o índice de tolerância às práticas sexuais consentidas é elevadíssimo para um país onde 97% dos habitantes declara acreditar em Deus, como indica pesquisa recente do Instituto DataFolha (Folha de São Paulo, 6 de maio de 2007). Ao tratar da fé, o autor não abre espaço para diferenciar fatalismo religioso de espiritualidade: quando 47% de seus entrevistados com escolaridade superior afirmam que “Deus decide o destino, mas as pessoas podem mudá-lo muito” contra 27% que acreditam não haver destino e 9% que acreditam que Deus decide tudo, o que parece estar sendo indicado é uma sociedade altamente espiritualizada, mas muito pouco exclusivista ou reducionista em sua fé. Com efeito, o forte espírito religioso do brasileiro não tem estimulado formas de intolerância. A convivência entre as crenças, salvo episódios isolados, costuma ser bastante pacífica. E embora o Parlamento e o Poder Público enfrentem alguma dificuldade para tratar de assuntos como a liberação do aborto e a instituição do casamento homossexual, em decorrência da pressão dos grupos religiosos, o estado brasileiro é laico. Por seu turno, a jurisprudência, notadamente nos Estados do Sul, já reconhece há vários anos o direito dos cônjuges de uniões homossexuais estáveis à herança e à pensão, bem como reconhece o direito de homossexuais à adoção de crianças órfãs, o que resta um tabu absoluto na Europa. A questão importante a reter aqui é como um país onde 97% da população se declara crente em Deus consegue produzir ciência, manter universidades de padrão internacional e modernizar-se tão rapidamente, como o fez ao longo do século XX? A resposta passa pela admissão de algo ainda a ser estudado: a cultura brasileira não apenas existe, como acreditava Roberto Foto: Divulgação Roberto DaMatta: sua tese é base para as novas constatações de Almeida DaMatta, como encontrou uma fórmula de convivência entre a razão e a fé. As teses de ensaístas neo-ateístas, como Christopher Hitchens e Luc Ferry, para os quais a religião a tudo envenena e em nada contribui para a liberdade do Homem, simplesmente não se colocam no Brasil, onde o que importa é a solução cotidiana de composição entre o universo sensorial e o plano da razão. Almeida constata que os brasileiros nutrem a percepção de viverem em um mundo onde existem zonas nebulosas nas quais o certo e o errado não estão claramente sinalizados, sendo definidos em função do contexto e das circunstâncias. Para ele, que sonha com o padrão dicotômico da realidade como o idealizado para o mundo anglo-saxão, reside aí prova de subdesenvolvimento. Penso o contrário. A crença inabalável na regra universal pode se revelar autoritária e intolerante. Talvez seja preferível que o certo e o errado possam compreender sua dimensão universal e racional, mas também uma dimensão de definição circunstancial. Como propõe François Jullien, precisamos nos engajar na construção de uma nova universalidade, fundamentada na diferença. E isto passa, creio, pela capacidade de ler o contexto. O espaço nebuloso do qual Almeida sente horror, é também o território da adaptação, da flexibilidade, da tolerância e da criatividade. O excesso de regulamentação do cotidiano pode não ser tão positivo. Em 2006, o Conservador-chefe do Departamento de Artes Gráficas do Museu do Louvre, Régis Michel, afirmou no Brasil que a regulamentação estatal na cultura produziu uma verdadeira crise de criatividade na França. Já o paraíso igualitário-impessoal damattiano-almeidiano, os Estados Unidos, promoveu uma bizarra confluência entre conservadorismo criacionista e politicamente correto para regular os costumes como em nenhum outro país ocidental. Hoje, as relações interpessoais são lá cada vez mais reguladas pela Justiça. O autor também conclui ser elevado o índice de brasileiros que defendem a intervenção estatal na economia. Mais uma vez, a proporção diminui na medida em que aumenta o grau de escolarização. A pesquisa não mede, entretanto, a confiança no empreendedorismo. Em relatório da Global Entrepreneurship Monitor de 2005, o Brasil figurou entre as nações onde mais se iniciaram empresas . Além disso, a pesquisa de Almeida não considera que em zonas menos urbanizadas o estado é visto como um anteparo benéfico ao arbítrio do poder privado local e como um instrumento assistencial contra a pobreza. Portanto, exagera o autor ao concluir pelo espírito patrimonial dos brasileiros que sonhariam com um estado paternalista. Almeida constata que quase ¾ de seus entrevistados afirmam não considerar que o que é público merece ser cuidado por todos. O déficit de cidadania no Brasil como desdobramento da histórica indistinção entre espaço público e privado tende a favorecer este alheamento do que é comunitário. Mas ele próprio reconhece o paradoxo de uma população que é simpática à intervenção do estado na economia, mas considera a eficiência do setor público inferior à iniciativa privada. Almeida conclui que o brasileiro é antiliberal e que deseja o estado mesmo reconhecendo que ele é ineficiente e mesmo não se sentindo parte do espaço público. O que a pesquisa pode aqui estar mediando é justamente a tensão entre empreendedorismo e liberdade, que emergiram com força nos anos 1990, e o efeito de sentido recorrente legado por séculos de tradição fortemente estatista e autoritária. Finalmente, Almeida pretende testemunhar a existência do racismo no Brasil. Mas o que realmente consegue é comprovar que os brasileiros associam a pobreza e a baixa escolaridade à cor parda. O que está, portanto, na base é o preconceito de classe. Almeida é mais feliz em quantificar a ideologia do branqueamento, que consiste no motor da mestiçagem brasileira. O fenômeno foi bem descrito por Thomas Skidmore. É bastante presente na literatura brasileira. Mas não pode, de forma alguma, ser reduzido ao tipo de racismo vigente nos Estados Unidos. Enfim, a obra de Alberto Carlos Almeida propôs uma metodologia criativa para renovar e revalidar as teses de DaMatta. Apresentou a expansão da educação como porta de saída para o seu diagnóstico labiríntico. O irônico é que, ao fazê-lo, Almeida contradiz o fulcro da teoria damattiana, fugindo do mecanicismo estruturalista e aproximando-se implicitamente das teses de outros intérpretes do Brasil, como Sérgio Buarque de Holanda, Vitor Nunes Leal e, mesmo, Gilberto Freyre. Mas ao dialogar de forma precária com a historiografia brasileira e ao insistir no cotejo com um idealizado processo histórico norte-americano, Almeida chegou freqüentemente a conclusões que transitaram do lugar comum a um reducionismo dicotômico, de forma a escapar-lhe a singularidade da cultura brasileira na contemporaneidade. Neste particular, Almeida investe preponderantemente em uma fração do modelo estrutural de DaMatta, deixando de explorar a face mais criativa do autor, quando este exalta a especificidade da cultura brasileira e seus componentes de adaptabilidade, de criatividade e de produção de mecanismos inclusivos. Assim, em que pese a novidade do método e alguns esboços eficazes, como a matização das fronteiras entre o jeitinho e a corrupção, o livro de Almeida, a mais atual visita ao universo damattiano, no geral, frustra. A obra de Roberto DaMatta ainda está a espera de uma atualização capaz de proporcionar o seu aproveitamento crítico na contemporaneidade.

Por Revista Cult

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Publicado por em 28/09/2009 em Uncategorized

 

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