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Mulheres, elas querem casar

09 mar

A brasileira quer casar. Ainda. E talvez ainda mais. Quase 80% das mulheres de classe AA, AB e C declararam que desejam viver com um companheiro no futuro, de acordo com a última edição da pesquisa “Movimentos Femininos” divulgada pelo Ibope – na edição anterior, eram 55%. E, segundo os dados de registro civil dos “Índices de Indicadores Sociais de 2009” do IBGE, a mulher tem conseguido o que quer: o número de casamentos no país vem crescendo sistematicamente. O índice de nupcialidade legal, expressão que o instituto usa para designar a taxa que mede a proporção entre casamentos oficiais e habitantes, cresce desde 2003 e está em seu maior número desde 1999 – são quase sete casamentos a cada mil habitantes em um ano.

Isso não quer dizer necessariamente que o país esteja romântico. Para os responsáveis pelo estudo do IBGE, é mais uma questão de melhoria do acesso à Justiça. Ou seja, não dá para saber se estão sendo formados mais pares; mas certamente há um número maior de “papéis passados”. O documento oficial do instituto atribui o crescimento “à melhoria no acesso aos serviços de justiça, particularmente ao registro civil de casamento, à procura dos casais por formalizarem suas uniões consensuais, incentivados pelo Código Civil renovado, em 2002, e pelas ofertas de casamentos coletivos promovidos desde então”.

O Acre foi o Estado com a maior taxa de casamentos na última pesquisa divulgada pelo IBGE. E é um bom exemplo da influência dos facilitadores de registro: do total de uniões realizadas, quase 40% aconteceram dentro do Projeto Cidadão, iniciativa do Tribunal de Justiça local e cerca de 60 entidades parceiras, que há 15 anos forma mutirões que viajam pelo interior do Estado para, principalmente, emitir documentos e registros. “Saímos como um circo, um mutirão itinerante, levando tendas por todo o Estado, atendendo comunidades carentes, seringais, aldeias indígenas, regiões de selva. Muitas vezes o acesso é feito apenas de barco, e não é raro demorarmos 20 dias entre ir e voltar”, conta Alessandra Araújo, responsável pela execução do Projeto Cidadão. “Na maioria dos casos, são oficializações de uniões que já existem. Casamos pessoas de 80, 90 anos que já estão juntas há 50. Fazemos casamentos de pais e filhos no mesmo dia”, diz.

No ano passado, o Estado do Mato Grosso promoveu o maior casamento coletivo do Brasil. Foram 4.175 uniões realizadas em um só dia – o equivalente a 35% da média anual do Estado. Como no caso do Acre, a maior parte foram oficializações de uniões já existentes. “Em que pese o Estado ter equiparado o casamento e a união estável, você ainda precisa entrar com uma ação para ter os mesmos direitos. E muitas vezes eles não têm como fazer isso. E ainda tem a questão dos movimentos religiosos. Com o registro os direitos da família ficam mais assegurados”, acredita Alessandra.

E o amor?

A facilidade de acesso, no entanto, serve pouco se não há vontade de casar. “As pessoas continuam interessadas em se relacionar de forma estável, tanto homens quanto mulheres”, explica a doutora em Psicologia pela UnB Giovana Perlin. “Aquela crise que foi vivida na década de 90, quando se chegou a prever o fim do casamento, ficou para trás. Agora as uniões ganham um novo contorno, com novos arranjos”.

Sim, nem só de burocracia vive o casamento. “Continua sendo um ritual importante na nossa cultura. Claro que existe um acesso mais fácil, mas quando a gente se desloca das estatísticas e vai para perto das pessoas, vê que assinar um papel é um ritual para o casal”, diz Giovana. “Há um compromisso psicológico que é reafirmado quando as pessoas assinam aquele papel. Mas os casais também criam formas alternativas de fazer esse contrato psicológico. É o caso de pessoas em união estável que usam aliança, por exemplo”.

A importância do ritual fica clara no casamento coletivo de Mato Grosso: em tese o evento foi uma iniciativa do poder público de inclusão social. Mas na prática teve ginásio decorado com flores, casais passando no tapete vermelho ao som da Marcha Nupcial, bênção ecumênica e pose para foto ao lado de um bolo que fazia as vezes de cenário. Apesar de virem de muitas vezes de outras cidades, e de a espera em alguns casos chegar a oito horas, a maior parte fez questão de se vestir a caráter. Para assinar o papel, milhares de mulheres se vestiram de noiva, ou pelo menos com um traje de festa.

Com menos pompa, é o que acontece também nas incursões de Alessandra pelas regiões mais inóspitas do Acre. “Mostramos que é um momento especial para nós assim como é para eles. Não fazemos só a parte burocrática. Tentamos ter alguma cerimônia ecumênica, às vezes conseguimos fazer uma mesa com bolo, uma festinha”, conta.

Casar por gosto, aliás, é a tendência observada por Giovana Perlin em seu estudo mais recente. Segundo ela, atualmente os relacionamentos estão com “uma proposta muito interessante”. “O casamento foi criado para organizar processos produtivos e reprodutivos, mas hoje uma mulher não precisa estar casada para ter acesso ao dinheiro, nem um homem precisa de esposa para ter conforto e filhos”, explica. “Então, em tese, agora as pessoas só se casam porque elas querem.”

Por Portal IG/ Delas

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Publicado por em 09/03/2010 em Uncategorized

 

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