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Tasso Jereissati – Senador diz que foi um erro o PSDB esperar tanto tempo para lançar a candidatura a presidente e que a militância perdeu o entusiasmo

26 mar

“Não podemos ter o vice antes de ter o candidato na rua”

Um dos parlamentares mais influentes do PSDB, o senador cearense Tasso Jereissati não esconde sua insatisfação com a demora do governador de São Paulo, José Serra (PSDB), em oficializar a candidatura à Presidência da República. Em entrevista à ISTOÉ, Jereissati foi taxativo. Para ele, por causa da estratégia equivocada de esperar até a data-limite para colocar a campanha ao Planalto na rua, a militância está perdendo o entusiasmo. “O Serra demorou. Enquanto isso, a nossa campanha vai murchando.

“Demos chance para a candidatura de uma desconhecida ganhar espaço. Agora não adianta chorar o leite derramado”

É como se, num jogo, a torcida adversária estivesse num clima de festejo e a nossa de moral baixo, deixando o estádio antes de o jogo terminar”, lamentou Jereissati. Na avaliação do senador, o partido errou ao dar espaço para o crescimento da candidatura da ministra Dilma Rousseff. Jereissati pondera, no entanto, que o atual cenário de crescimento de Dilma e queda de Serra nas pesquisas de intenção de voto é reversível: “Na hora em que a eleição entrar no contraponto, vai prevalecer muito um candidato contra o outro.”

“Em 2002, realmente apoiei o Ciro, mas as condições foram muito especiais e particulares. Hoje trabalho pelo candidato do PSDB”

Istoé – O PSDB está preparado para enfrentar a ministra Dilma Rousseff, candidata da aliança governista e de um presidente superpopular?
Tasso Jereissati – Há duas diferenças em relação às últimas eleições em que tivemos um bom desempenho, na minha avaliação. A primeira, negativa para nós, é o fato de que a economia vai muito bem. A segunda, para mim determinante, é que Lula não será o candidato. Vamos enfrentar uma candidata que não tem nenhuma experiência eleitoral, nunca participou de eleição, e não é propriamente conhecida pela sua simpatia.

Istoé – Mas ela tem a popularidade do Lula.
Tasso Jereissati – É importante. A própria sigla, o PT, tem um percentual cativo de votos, seja qual for a circunstância. Mas ela não é o Lula e, na hora em que a eleição entrar num processo definitivo, de contraponto, vai prevalecer muito um candidato contra o outro. E acho que a Dilma não tem experiência política para assumir o País. É preciso muita habilidade para dirigir um país como o Brasil. A candidata do PT não conhece o Brasil com profundidade. Falta a ela visão de uma administração descentralizada e me preocupa muito essa tendência da Dilma ao autoritarismo.

Istoé – Qual a leitura que o sr. faz do crescimento de Dilma nas últimas pesquisas?
Tasso Jereissati – Não é surpresa que a candidata do PT, Dilma Rousseff, tenha crescido. Ela absorve parte dos votos tradicionais do PT, além daqueles que o Lula transfere. Dilma também se beneficia de uma campanha que já dura dois anos e que ela está fazendo totalmente sozinha, sem adversário, o que a superexpõe na mídia sem nenhum contraponto. E nós não colocamos nosso bloco em campo. Qualquer poste nessas condições também teria avançado.

Istoé – Há campanha antecipada?
Tasso Jereissati – A máquina pública está sendo usada ilegalmente. Só os tribunais eleitorais não percebem essa campanha explícita. Até no Senado já montaram um palanque para a ministra Dilma. A experiência do nosso candidato, a administração que ele tem feito e sua longa história política jogam a nosso favor. Também acho que vai pesar muito o fato de que este é um governo que mais escândalos produziu nos últimos anos. Toda semana tem um escândalo. Isso já está praticamente institucionalizado no governo do PT.

Istoé – O governador José Serra está demorando para oficializar a candidatura ao Planalto?
Tasso Jereissati – Acho que o Serra demorou. Estive com ele em novembro e disse que era um erro ficar apenas assistindo, mesmo com todas essas inconveniências. O problema é que você cria no País o clima de uma candidatura só. Com a nossa candidatura encolhida, o entusiasmo vai para o outro lado. Enquanto isso, a nossa campanha vai murchando. É como se, num jogo, a torcida adversária estivesse num clima de festejo e a nossa de moral baixo, deixando o estádio antes de o jogo terminar. Isso é muito perigoso. O entusiasmo da militância é fundamental numa campanha. Esse erro foi cometido. Mas a gente tem que olhar para a frente. É reversível.

Istoé – Há quem diga que Serra só teria a perder se antecipasse a campanha, uma vez que ele rivalizaria com o presidente Lula e não com Dilma. O sr. concorda com essa tese?
Tasso Jereissati – Não concordo. Demos chance para a candidatura de uma ilustre desconhecida ganhar espaço. Está na cara que isso aconteceu. Agora não adianta mais chorar o leite derramado.

Istoé – O sr. ainda acredita na chapa Serra-Aécio?
Tasso Jereissati – Precisamos ter uma chapa que ganhe as eleições. Nem a candidata que está em campanha há dois anos anunciou seu vice. O que nós precisamos é ter logo o candidato na rua. É isso que vai construir essas alianças. A articulação em torno do vice é feita com o candidato na rua. Ele vai ter condições de, no momento certo, convidar a pessoa que vai ter mais capacidade de compor a sua chapa.

Istoé – Esse nome pode ser Aécio?
Tasso Jereissati – Não acho provável. Impossível não é, pois durante a construção de um projeto que envolve a Presidência da República muitas coisas podem acontecer.

Istoé – Ainda há tempo para a substituição de Serra por outro nome do PSDB?
Tasso Jereissati – Não trabalhamos mais com essa hipótese.

Istoé – É possível uma chapa pura tucana tendo o sr. como vice?
Tasso Jereissati – Sou candidato ao Senado. E nunca houve nenhum convite, contato ou conversa para que eu fosse vice. Há outros excelentes nomes e a escolha deve ser orientada pela necessidade ou não de reforçar a campanha em determinado setor do eleitorado ou região do País. Mas insisto que não podemos ter o vice antes de ter o candidato na rua. É preciso ter primeiro o candidato.

Istoé – Se Dilma Rousseff está em franca campanha ilegal, por que as ações da oposição no TSE ainda não tiveram êxito?
Tasso Jereissati – A Justiça está intimidada. Todo o Brasil está vendo. Há hoje um patrulhamento em cima de algumas decisões que possam ferir os interesses do governo. O governo tem uma capacidade de propaganda e comunicação grande. E usa isso para desvirtuar o mérito de qualquer questão. Qualquer decisão que fira os interesses do governo é logo tachada como não patriótica. Ou então se diz que tal decisão estaria a serviço de alguém. Quando o governo é alvejado por alguma denúncia, não se discute o mérito dela. Logo é colocada na praça uma contrapropaganda fortíssima acusando o jornalista e a empresa de estar a serviço deste ou daquele. Por exemplo, houve duas denúncias importantes nas últimas semanas. Uma delas, da própria ISTOÉ, envolve o coordenador de campanha da Dilma, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, com o Mensalão. A outra acusa o tesoureiro do PT. Não ouvi, até agora, nenhuma defesa com consistência. Só vimos contra-acusação.

Istoé – Falta discurso e projeto de país para a oposição?
Tasso Jereissati – Nosso discurso é aquele que o presidente Lula renegou a vida inteira e se apropriou quando virou governo. Quem primeiro implementou uma política econômica baseada em metas de inflação, controle fiscal e câmbio livre foi o PSDB. Lula a aprofundou. Quem criou o Bolsa Família, como política social de transferência de renda, fomos nós.

Istoé – Mas de que maneira vocês pretendem se diferenciar do atual governo e mostrar ao eleitorado que podem fazer mais e melhor?
Tasso Jereissati – Vamos mostrar na campanha que temos condições de fazer um governo sem roubo, sem escândalos e sem aparelhamento dos serviços públicos, com uma política externa mais equilibrada e maior eficiência nos serviços de saúde. Precisamos dar um salto de qualidade. Infraestrutura e educação precisam ser os elementos primordiais. Pretendemos fazer uma grande revolução na área educacional. Não é possível, por exemplo, não termos educação básica e fundamental de qualidade com esse cenário atual de economia pujante. É inaceitável que sejamos apenas o 65° no ranking da educação básica.

Istoé – O sr. acredita que o deputado Ciro Gomes (PSB-CE) manterá a candidatura a presidente?
Tasso Jereissati – Não sei o que o Ciro vai decidir, mas ele tem reiterado que vai ser candidato a presidente.

Istoé – A alternativa Ciro é importante para o País e para o processo eleitoral?
Tasso Jereissati – Não temos tradição do bipartidarismo. Eu, particularmente, acho importante que a população tenha mais alternativas na hora de escolher seu candidato.

Istoé – Em 2002, o sr. apoiou Ciro Gomes na eleição presidencial, mesmo depois de José Serra sair candidato. Há quem duvide do seu engajamento na campanha de Serra agora.
Tasso Jereissati – Eu voto no candidato do PSDB e vou trabalhar pelo candidato do partido. Em 2002, realmente aconteceu de eu apoiar o Ciro, mas as condições, naquele momento, foram muito especiais e particulares. Alguns erros foram cometidos na campanha do Serra, que espero não se repitam este ano, e havia uma candidatura que representava o sentimento de todo o Estado do Ceará. Hoje as circunstâncias são diferentes e já disse com muita clareza ao Serra que vou trabalhar pela candidatura do PSDB.

Istoé – Mas a chapa que o sr. costura no Ceará com o governador Cid Gomes não deixa o Serra sem palanque no Estado?
Tasso Jereissati – Não estou costurando uma chapa com o Cid. Estamos estudando várias opções e há um consenso dentro do partido de que essa alternativa precisa aguardar um pouco os rumos da eleição presidencial, pelo fato de ter um candidato cearense, ligado ao governador do Estado, concorrendo à Presidência da República. O palanque do partido para a Presidência da República será do PSDB em qualquer circunstância. O palanque de Serra está assegurado. Dependendo das conveniências decorrentes da eleição nacional, os arranjos locais poderão ser diferentes.

Istoé – Se a oposição perder esta eleição, o lulismo pode ficar 30 anos no poder, como vaticinou o ex-porta-voz do Planalto e cientista político André Singer?
Tasso Jereissati – Tenho convicção de que esse tempo passou na América do Sul. Houve algumas recaídas, como é o caso do chavismo. Há ainda uma tentativa, na Colômbia, de fazer um movimento personalista em torno do atual presidente. Mas na volta aos tempos de peronismo e getulismo, exemplos totalmente populistas, não acredito. Construímos uma sociedade moderna com instituições bastante sólidas. Temos uma classe média cada vez maior e mais politizada. Esses fatores não vão permitir o retorno desse tipo de populismo ou política populista baseada em personalidades.

Por Istoé

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Publicado por em 26/03/2010 em Uncategorized

 

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