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Arquivo diário: 27/03/2010

“O Brasil está dividido”

“Será uma disputa dura para qualquer um dos lados. Não há favoritos”

Apesar de toda sorte de ma­zelas que atingem o universo político brasileiro com escândalos de corrupção, compra de votos, mensalinhos e mensalões, as eleições de 2010 consolidarão no País uma característica típica de países desenvolvidos: a segmentação eleitoral. Apenas países com democracias longevas e estruturadas têm disputas tão passionais entre dois partidos políticos antagônicos.

“A novidade é que o cidadão não vota mais em candidatos que
dão ênfase somente a grandes obras de infraestrutura”

É assim nos Estados Unidos, com o Democrata e o Republicano; na Inglaterra, com o Trabalhista e o Conservador; e, agora, no Brasil, com o PT e o PSDB. “Esse é um fenômeno novo, em que duas forças dominam a maior parte do eleitorado e dependem dos eleitores de centro para vencer as eleições”, diz o sociólogo e cientista político Alberto Carlos Almeida, do Instituto Análise, principal advogado dessa tese. Autor dos livros “A Cabeça do Brasileiro”, “A Cabeça do Eleitor” e do novo “Erros nas Pesquisas Eleitorais e de Opinião”, Almeida acredita mais uma vez que o eleitor será pragmático. “Ele escolhe aquele que lhe der mais capacidade de consumo.”

“Já está dado o alinhamento: a classe mais alta prefere o PSDB
e os mais pobres o PT. Não existe lulismo, Lula será passado em alguns dias”

Istoé –

Qual é o presidente que o brasileiro quer? 

Alberto Carlos Almeida –

Ele quer um presidente que melhore a vida diária dele especificamente no consumo, na sua capacidade de comprar mais. O eleitor brasileiro é extremamente pragmático e egoísta. A maioria expressiva não pensa no bem comum. Só olha para o próprio umbigo, o bolso e o bem-estar. 

Istoé – Então, voto não tem ideologia, o eleitor pouco se preocupa com o coletivo? Alberto Carlos Almeida – Na eleição, o eleitor vê a oportunidade de manter alguma coisa na vida dele ou de mudar alguma situação que não o está ajudando em nada. A novidade eleitoral é que o cidadão não vota mais em candidatos que dão ênfase somente a grandes obras de infraestrutura. O eleitor agora se preocupa principalmente com temas sociais, como a saúde.

 Istoé – Há uma mudança no perfil do eleitor? Alberto Carlos Almeida – Sim. O eleitor não acreditava que seu voto poderia mudar a sua forma de viver. Agora não. O eleitorado pobre, por exemplo, descobriu que com o passar do tempo ele ficou menos pobre, foi se escolarizando, e agora sabe que seu voto pode mudar sua vida. Políticos que não tinham marcas do social, como o (Paulo) Maluf, ficaram ultrapassados.

 Istoé – Esse tipo de comportamento serve para todo mundo? Alberto Carlos Almeida – Em certa medida, sim. Mas quanto mais o eleitor está colado na necessidade, mais ele é pragmático.

 Istoé – O Brasil está dividido eleitoralmente? Alberto Carlos Almeida – Estamos diante de um novo fenômeno que surgiu a partir de 2006, que é a segmentação eleitoral. Hoje, temos uma segmentação típica de países desenvolvidos, como a Inglaterra. O eleitorado tem segmentos diferentes. Os mais pobres tendem a votar no PT, enquanto a classe média, que ganha acima de R$ 1,2 mil, tende a votar no PSDB. Isso aconteceu nas últimas eleições presidenciais e vai se repetir em 2010. É uma mudança que veio para ficar. O Nordeste terá tendência de votar pesadamente, em todas as eleições, em um candidato do PT, enquanto o Sul tenderá a votar no PSDB.

 Istoé – Por que um país desenvolvido tem essa característica? Quais são os alicerces sociais para se chegar a isso? Alberto Carlos Almeida – A primeira coisa é ter certa longevidade do sistema democrático. Apesar de jovem, o Brasil já conseguiu essa condição. A outra característica é surgir dentro desse sistema um partido de esquerda que busque apoio social. Isso é o que o PT fez e vem fazendo.

 Istoé – É um novo cenário calcado em quê? Ideologia? Alberto Carlos Almeida – uma ideologia no sentido fraco do termo, em formas de pensar diferentes. Uns acham que o governo tem que ajudar mais as pessoas a mudar de vida ativamente. Outros têm a visão de que as próprias pessoas é que terão que fazer mais. São duas ideologias distintas. A pessoa que é mais pobre, naturalmente, tende a pensar que precisa de alguma ajuda.

 Istoé – É aí que o PT ganha força eleitoral? Alberto Carlos Almeida – É. O PT trocou a ligação com as celebridades pela entrada de milhões de desconhecidos do interior do Nordeste. O partido mudou a fonte de sua força. Quem lembra que Paulo Betti fez campanha para o PT? Ninguém. O que importa é o Bolsa Família e o eleitor do Nordeste. Se for feita uma pesquisa no País só sobre o PT, fica claro que ele tem uma imagem fortalecida junto a esse eleitor mais pobre. É o PT, não é Lula nem ninguém. O PT é conhecido e é valorizado por esse segmento da sociedade. A forma como o partido criou sua imagem é responsável por uma segmentação da sociedade. Isso é uma das características políticas de um país desenvolvido. Ou seja, o eleitor certo de cada lado. É um equívoco pensar que o PT está enfraquecido.

 Istoé – Isso pode garantir ao PT uma continuidade no poder? Alberto Carlos Almeida – Hoje, na eleição presidencial o PT tem como certo 30% do eleitorado, o PSDB conta com 25% dos votos e o resto é eleitor de centro que flutuará de acordo com a conjuntura. Isso veio para ficar. A eleição será decidida pelo eleitor de centro. Este ano, será uma disputa dura para qualquer um dos lados. Não há favoritos. O PT tem um marca forte, mas também existe a força do anti-PT, que naturalmente é o eleitor do PSDB. O Brasil caminhou rapidamente para ser um país bipartidário quando se trata de eleição presidencial.

 Istoé – As últimas pesquisas mostram um crescimento da ministra Dilma no sudeste. Isso é uma surpresa?Alberto Carlos Almeida – O Sul e o Sudeste têm preferência pelos tucanos. Mas o fato é que a Dilma entrou numa área que é do Serra. Disputa eleitoral é isso: um tem que entrar na área do outro.

 Istoé – Qual discurso a oposição terá que adotar para ganhar espaço? Alberto Carlos Almeida – Ela terá que desconstruir a ministra Dilma e deixar claro que seu candidato é mais preparado para continuar o que está aí. Por exemplo, o PSDB terá que mostrar ao eleitorado que Serra tem mais ponto de contato com o Lula que a Dilma.

 Istoé – Em que sentido? Alberto Carlos Almeida – O Lula veio da pobreza rural nordestina, o Serra veio da pobreza urbana e a Dilma é filha da classe média. Quais são os desdobramentos dessa afirmação? O Serra, assim como o Lula, teve dificuldades na infância. O Lula tem experiência administrativa, o Serra também. Os dois lutaram contra a ditadura, mas, ao contrário de Dilma, que foi guerrilheira, eles não pegaram em armas para fazer isso, o que mostra que ela é muito diferente do Lula. O PSDB terá que demonstrar que Lula e Serra são mais iguais e que a Dilma não terá condições de conseguir o mesmo desempenho que o presidente teve. O PSDB tem que mostrar que Dilma não é Lula.

 Istoé – O chamado lulismo poderá definir as eleições?Alberto Carlos Almeida – Não existe lulismo. O Lula só é bem avaliado pelo desempenho do governo dele.

 Istoé – Para o sr., o Lula não é um fenômeno? Alberto Carlos Almeida – Não. Ele tem é sorte. O Lula ganhou força porque seu governo é bem aprovado. Lula não é um mito. Ninguém tem sucesso sem ter sorte. Competência, ele teve! Qual foi? Domesticar o PT, levar o partido para o centro e manter a política econômica.

 Istoé – O presidente Fernando Henrique não teve sorte? Alberto Carlos Almeida – Comparando com o Lula, ele foi sem sorte. A sorte sorriu mais para o Lula que para FHC.

 Istoé – Qual será o impacto eleitoral da comparação entre os governos do PSDB e do PT?Alberto Carlos Almeida – O eleitor não está nem aí para isso. Já está dado o alinhamento: o eleitor que é classe mais alta prefere o PSDB e os mais pobres o PT. Isso é passado. Como o Lula será passado daqui a uns dias.

 Istoé – Qual será o grande tema eleitoral deste ano?Alberto Carlos Almeida – Até agora não existe um grande tema. Em 94, o tema dominante foi o controle da inflação. Quatro anos depois foi a crise econômica. Em 2002, o eleitor deu ênfase ao desemprego e em 2006 ao Bolsa Família. Agora, a inflação está contida, o desemprego não é mais um problemão e o Bolsa Família está consolidado.

 Istoé – Então, ganha as próximas eleições a candidata ou candidato que melhor representar a continuidade?Alberto Carlos Almeida –

Um tema que pega o governo de calça arriada é o imposto. Em 2010, o tema que poderá embaralhar todas as cartas que estão na mesa será a redução dos impostos. Na verdade, os políticos não estão ligados neste tema. Quem está preocupado com isso, segundo as pesquisas, é o eleitorado, o pobre inclusive. Ele acha que os impostos são um problema para a vida dele. O eleitor acredita que o governo pode ser exatamente o que é, mas cobrando menos impostos. 

Istoé -O controle fiscal eficiente é o principal discurso do PSDB. É possível passar essa mensagem para o eleitor ou esse é um tema muito complexo?Alberto Carlos Almeida – Possível é. Porém, a maneira mais eficiente de falar isso é mostrar para o eleitor que o imposto alto atinge o bolso dele. Esse é um problema que afeta todo o eleitorado, do PT ao do PSDB, passando pelo eleitor de centro.

 Istoé – O eleitor quer um Estado forte? Alberto Carlos Almeida – Essa é uma discussão entre os políticos, mais intelectualizada. O eleitorado não é conectado neste debate. O que o eleitor quer é mais dinheiro no bolso dele. Ponto. O foco do eleitor é o bem-estar dele, a condição financeira da família.

 Istoé – Diante disso, a Dilma leva vantagem nessa eleição, já que 30 milhões de pessoas subiram para a classe C neste governo?Alberto Carlos Almeida – A Dilma já conseguiu o recall necessário para participar da largada da corrida eleitoral. Ela já está na

Istoé – O eleitor ainda pode mudar de voto? Alberto Carlos Almeida – Sim. Os resultados das pesquisas decorrem de um estímulo que é feito, dizendo que haverá eleição este ano. A maioria das pessoas nem sabe que teremos eleições este ano.

Istoé – Como o eleitor trata o tema corrupção? Alberto Carlos Almeida – A corrupção está colocada como uma questão moral. O eleitor não se preocupa muito com isso. Agora, se houvesse um discurso do tipo: irei combater a corrupção porque meu compromisso é reduzir os seus impostos. Ou, se a corrupção e o desperdício forem reduzidos, eu irei reduzir seus impostos. Aí sim, chamaria a atenção do eleitor.

 Istoé – Dá para acreditar em pesquisas eleitorais?Alberto Carlos Almeida – Na média dá. Mas em geral o eleitor não sabe o resultado das pesquisas. Se o candidato está muito na frente, o eleitor conhece muita gente que vota nele. Pesquisas feitas corretamente podem ter resultados diferentes.

 Por Istoé

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Publicado por em 27/03/2010 em Uncategorized

 

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Eleições 2010, O X não aconteceu

A pesquisa Datafolha de hoje não trouxe o “X” que os petistas davam como certo nas curvas de intenção de voto entre José Serra e Dilma Rousseff. Não houve empate nem a candidata de Lula ultrapassou o tucano. Por fim, a distância entre ambos cresceu.

Serra continuou a liderar e subiu dos seus 32% em fevereiro para 36% agora. O levantamento foi realizado nos dias 25 e 26 deste mês.

Dilma havia registrado 28% há um mês e escorregou para 27%.

O segundo pelotão permaneceu no mesmo lugar. Ciro Gomes (PSB) está com 11%. Marina Silva (PV) pontuou 8%. Indecisos, brancos, nulos ou nenhum somam 18%.

A distância entre Serra e Dilma havia afunilado para quatro pontos percentuais em fevereiro. No novo Datafolha, o tucano abriu uma vantagem de nove pontos.

Quando os petistas já colocavam o champanhe na geladeira e Lula falava quase em público a respeito de ganhar no primeiro turno, eis que o modelo de inocular popularidade em Dilma Rousseff começa a mostrar um certo esgotamento.

Dilma cresceu nas pesquisas sorrindo, com olhar de paisagem e aparecendo ao lado de Lula em eventos de campanha disfarçados de atos de governo. Deu certo. A petista entrou com força na disputa.

Mas os números do Datafolha revelam talvez a necessidade de uma tática mais agressiva se a petista pretende voltar a crescer. A nova fase exigirá de Dilma um confronto direto com Serra. Até porque a candidata de Lula estará fora do governo a partir da semana que vem.

Já Serra terá de colocar sua resiliência à prova como candidato declarado. Esse é o cenário da largada da corrida presidencial de 2010: dois candidatos polarizando na ponta e ninguém ainda competitivo como possível terceira via.

Só que essa, como se vê logo no seu começo, não parece ser uma eleição fácil para se fazer previsões.

Por UOL/Fernando Rodrigues

 
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Publicado por em 27/03/2010 em Uncategorized

 

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Serra volta a subir e abre 9 pontos sobre Dilma

Pesquisa Datafolha realizada nos dias 25 e 26 de março de 2010 indica que o pré-candidato a presidente José Serra (PSDB) voltou a crescer e atingiu 36% das intenções de voto. Dilma Rousseff (PT) está com 27%. A diferença entre ambos agora é de 9 pontos percentuais. 

Em fevereiro, segundo o Datafolha, Serra estava 4 pontos à frente de Dilma, com 32% contra 28% da petista.Vale a pena olhar também a estratificação da pesquisa por regiões do país (quadros a seguir). Nota-se que Serra se segura bem no Sul e no Sudeste, E que Dilma vai bem no Nordeste. É igualmente interessante notar que muitos nanicos já conseguem ter 1% cada no Sudeste (cenário 4) –os nanicos podem ser um fator determinante para que a eleição acabe indo para o segundo turno. Eis os dados:

Ainda não está claro qual será o teto de votos para a petista no primeiro turno. Enquanto sua curva de intenção de votos estancou na pesquisa Datafolha estimulada, seu percentual continua a subir de maneira consistente na pesquisa espontânea.

A pesquisa espontânea é aquela na qual o Datafolha pede ao entrevistado que se manifeste sem escolher os nomes em uma lista.

Também foi registrado pelo Datafolha uma certa estagnação na pesquisa sobre rejeição dos candidatos. Como a margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, estão todos empatados.

Por fim, na simulação de segundo turno, Serra também abre uma vantagem folgada sobre Dilma.

A pesquisa Datafolha foi registrada sob o número 6617/2010. A coleta de dados se deu nos dias 25 e 26 com 4.158 brasileiros acima de 16 anos. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

O que pode ser considerado desta pesquisa com os dados aqui apresentados:

1) José Serra: demonstra ser um candidato forte, resiliente e infenso em grande parte aos reveses dos últimos meses O tucano está num partido dividido e pouco organizado. No Estado que governa, São Paulo, esteve sob forte bombardeio por causa dos efeitos das chuvas do início do ano. Titubeou várias vezes para se lançar na disputa. Ainda assim, conseguiu se posicionar na largada ainda em primeiro lugar. Vai manter esse desempenho? Não há como saber a resposta, mas Serra demonstra ter forças para ser um candidato competitivo. Não custa lembrar que sua alta agora o coloca apenas no mesmo patamar que já esteve em dezembro passado –não se trata, portanto, de uma tendência constada de alta, mas de uma recolocação do candidato num lugar já frequentado por ele antes.

2) Dilma Rousseff: assim como era um exagero de alguns petistas achar que a candidata de Lula estava rumo a uma inexorável vitória no primeiro turno, agora também seria um erro imaginar que a campanha do PT está em crise e estagnada de maneira irreversível. O mais provável é que Dilma tenha esgotado o modelo de subir nas pesquisas apenas por meio da exposição ao lado de Lula.  Agora, a petista terá de partir para o confronto mais direto com seu adversário direto, Serra, e mostrar ao eleitor o que realmente pretende fazer se for eleita. Qual será o resultado desse eventual confronto? Impossível prever.

 3) Ciro Gomes e Marina Silva: como não se autocumpriu a profecia dos petistas sobre a alta constante de Dilma Rousseff, o pré-candidato do PSB, Ciro Gomes, ganha uma sobrevida. No patamar dos 10%, Ciro pode continuar a argumentar que sua presença na disputa é útil para levar a eleição para o segundo turno. Ciro só vai se inviabilizar se mais adiante Serra e Dilma polarizarem de maneira mais vigorosa –e então Ciro cair para um patamar muito inferior a 10%. Já Marina Silva, do PV, continua empacada nos seus 8% e nada indica que esteja em condições de se viabilizar como uma opção real em outubro.

 4) Nanicos: o Datafolha pesquisou os candidatos de partidos pequenos pela primeira vez (aqui, um post sobre quem são eles e o quais dizem ser suas propostas). Como é comum nessa fase da campanha, os nanicos têm quase sempre traço. Só Mário de Oliveira (PT do B) pontuou para marcar 1% na soma geral (embora vários tenham 1% regionalmente, como mostrado nos quadros acima dentro deste post). Mesmo que o teste com os nanicos possa parecer inútil, não é. Essa é uma realidade a ser considerada. Só as pesquisas que apresentam todos os nomes dos pré-candidatos podem se aproximar daquilo que é a expressão real das intenções de voto.

Por UOL/ Fernando Rodrigues

 
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Publicado por em 27/03/2010 em Uncategorized

 

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