RSS

O eleitor olha para a aparência física do candidato na hora de decidir, especialmente quando a candidata é mulher”

18 maio

Para o cientista político Antonio Lavareda, há pesquisas que comprovam que passar uma imagem de competente, ter boa aparência e ser simpático ajudam e muito a vencer nas urnas.

Doutor em ciência política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), Antonio Lavareda é um estudioso do cenário político brasileiro.

Professor e coordenador do mestrado em ciência política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e ex-pesquisador da Universidade da Califórnia (Berkley), Lavareda participou de mais de 76 campanhas eleitorais no país e publicou mais de seis livros sobre o tema.

No último deles, Emoções Ocultas e Estratégias Eleitorais, ele analisa as várias teorias que discutem o peso da razão e da emoção na hora de o eleitor definir o seu voto. Na entrevista a seguir, Lavareda analisa as estratégias adotadas pelos pré-candidatos à presidência nas eleições de outubro deste ano.

Para o cientista político, as apostas na melhora da aparência física e a tendência de amenizar o discurso para parecer mais simpáticos ao eleitorado são esforços que fazem sentido. “O eleitor olha para a aparência física do candidato na hora de decidir, especialmente quando a candidata é mulher”, diz.

A entrevista foi concedida ao Brasil Econômico um dia após ele debater o papel das emoções na escolha eleitoral, em evento realizado, em São Paulo, pela Fundação Getulio Vargas (FGV).

A estratégia de amenizar a imagem adotada pelos pré-candidatos à Presidência José Serra, do PSDB, e Dilma Rousseff, do PT, são eficientes?

Os esforços fazem sentido se nos basearmos em estudos de neurociência que mostram que os eleitores fazem inferências a partir da aparência dos candidatos. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que os homens, ao escolher um candidato homem, dão ênfase à competência, enquanto as mulheres analisam o nível de proximidade – ou simpatia – e depois a competência.

Na hora de escolher uma candidata do sexo feminino ambos olham em primeiro lugar a atratividade e depois a competência. Por isso, o esforço de Dilma para ficar mais atraente faz sentido.

Quando ela capricha na aparência, com plástica, tratamento ortodôntico e se mostra elegante ao usar colar de pérolas, há um esforço para atrair os dois [eleitores e eleitoras]. E isso tem a ver com o imaginário das pessoas de que mulheres poderosas são belas e atraentes.

No caso de José Serra, o esforço é para deixá-lo simpático…

Esse mesmo estudo mostra que para o eleitorado feminino é importante que o candidato homem tenha proximidade com as pessoas e isso está diretamente ligado à simpatia. Essa naturalidade na mudança, no caso do Serra, foi incorporada de outras disputas eleitorais e é um ponto positivo para ele, especialmente para o relacionamento com o eleitorado do sexo feminino. Para o eleitor homem, o Serra não precisa ser bonito e sim ter a imagem de competente.

Não há o risco de as campanhas parecerem artificiais?

Isso dá margem aos mais variados raciocínios, especialmente no caso de Dilma, que nunca participou de uma campanha eleitoral. Não sabemos quem é a Dilma candidata, que surge aos poucos, durante a campanha. É precipitado definir agora quais são as características da personagem Dilma candidata, pois ela ainda está se construindo. OSerra candidato não é novidade.

Uma mudança muito radical não pode ser arriscada?

É importante mostrar os políticos como pessoas que mudam porque, no geral, todas as pessoas mudam. Um exemplo é o próprio Lula, que nas campanhas de 2002 e 2006 era uma pessoa totalmente diferente do Lula das campanhas de 1989, 1994 e 1998. O candidato em campanha é a pessoa jurídica. Claro que essa pessoa não pode ser o oposto da pessoa física. Se houver muita discrepância entre o cidadão e o candidato isso pode prejudicar a campanha.

No caso de Marina Silva, do PV, o que se vê é o contrário?

Sim, e é justamente disso que os analistas reclamam. A imagem de Marina é muito associada à tranquilidade e para muitos a demonstração de mais energia é necessária para qualquer um que queira disputar a presidência. No caso de Marina, a pessoa é parecida demais com a candidata e ser presidenciável exige que se mostre uma capacidade de liderança, pois tranquilidade em demasia pode transmitir uma imagem de insegurança e de falta de comando.

Neste momento, já é possível saber qual será o tom e o perfil de cada um dos candidatos?

A pré-campanha já está se consolidando, mas a campanha em si só vai começar efetivamente em julho e se estabelecer de forma definitiva somente depois da Copa do Mundo. Será nesse momento que os personagens dos candidatos se apresentarão de forma mais consistente e concreta ao eleitorado, especialmente nos programas de TV.

O senhor diria que a campanha à Presidência ainda está em fase de testes e experimentos?

Pode-se dizer que sim, essa é uma boa definição. O que está sendo feito hoje são pré-testes dos argumentos e das imagens. Os candidatos estão testando estilos, propostas e corrigindo o que precisa ser corrigido. E isso tem de ser feito agora.

Quais são os principais desafios de cada um dos candidatos?

O desafio do Serra e também da Marina, por serem candidatos da oposição, é construir um posicionamento dentro de uma circunstância adversa – que são o estado positivo da economia e a popularidade do presidente Lula – para conquistar o eleitor.

E qual o desafio de Dilma?

No caso da Dilma, que conta com as circunstâncias a seu favor, o desafio é se mostrar capaz de substituir Lula dos pontos de vista objetivo – respondendo aos desafios que virão pela frente – e subjetivo, que busca um vínculo psicológico com a população para ser a sucessora de alguém que se tornou um ídolo.

Esse é um desafio difícil…

Eu diria que quase impossível não só para a Dilma, como para todos os candidatos. O presidente Lula alcançou um nível de popularidade no país e fora dificílimo de se igualar.

Essa será uma eleição de disputa das biografias?

A biografia é sempre muito importante em qualquer eleição porque é a parte irretocável de uma campanha. Quem tenta mudar a própria biografia corre o risco de dar com os ‘burros n’água’. É a biografia que mostra a possibilidade de um candidato vir a ser ou não bom governante. Há elementos cognitivos que se fazem presentes quando se analisa a biografia de alguém e que são extremamente importantes. Um candidato não pode substituir a sua biografia. Ele pode mudar propostas, programa de governo, mas a biografia é insubstituível e pode ser usada para o bem ou contra ele numa disputa eleitoral.

No caso de Marina Silva, a associação de sua biografia à defesa do meio ambiente – apesar de muito positiva – pode criar a imagem de candidata com um único tema?

A Marina, na verdade, ainda não teve muita oportunidade de se mostrar e de apresentar o seu programa de governo. Ela ainda é muito pouco conhecida do eleitorado de uma maneira geral. O seu grande desafio daqui para a frente é o programa de TV que será veiculado durante a campanha eleitoral. Será quando ela realmente irá se formar como candidata, apesar de seu espaço ser muito inferior ao dos dois outros candidatos que estão à frente nas pesquisas. E ela parece estar ciente disso.

Anúncios
 
Comentários desativados em O eleitor olha para a aparência física do candidato na hora de decidir, especialmente quando a candidata é mulher”

Publicado por em 18/05/2010 em Uncategorized

 

Tags: ,

Os comentários estão desativados.

 
%d blogueiros gostam disto: