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O debate na Band

09 ago

É possível medir com precisão o desempenho dos candidatos em um debate eleitoral? Enquetes, a régua tradicional, são contaminadas pela preferência dos eleitores por um presidenciável ou outro. Uma alternativa é contar quanto cada debatedor falou, o que disse, como disse e a quem se dirigiu.
Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB) falaram quase o dobro do que Marina Silva (PV) e Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) durante o debate da Band. Porque fizeram um embate particular: o tucano interpelou a petista três vezes, e foi indagado em duas oportunidades por ela. Marina e Plínio só responderam, cada um, a uma pergunta de seus rivais.
Dilma e Serra criaram mais chances para aparecer. Mas não de convencer. Como o sucesso do Twitter e seu limite de 140 caracteres demonstra, moderar o discurso é melhor do que falar pelos cotovelos. Plínio foi o que menos falou, mas acabou como o mais falado. Exposição demais para quem se expressa mal é castigo.
Mais do que qualquer outro presidenciável, Dilma respondeu a seis perguntas de adversários e a duas de jornalistas durante o debate, fora suas réplicas, tréplicas e considerações finais. Inexperiente, ela gaguejou, perdeu o fôlego, olhou para a câmera errada, estourou o tempo das respostas.
Dos quatro, foi quem mais empregou palavras longas (“oligopolizados”, “acessibilidade”, “prioritariamente”), usou termos técnicos (“bioma”, “política estruturante”) e abusou das siglas: UPPs, UPAs, SUS, SAMU. Teve uma recaída da mania por cifras: falou “milhões” 12 vezes, e 4 vezes “mil”, mais do que os seus três adversários somados.
Até as considerações finais, Dilma pronunciou 2.100 palavras, mas conseguiu a proeza de citar Lula apenas três vezes. E só a partir do terceiro bloco. Esquecimento ou tentativa de parecer independente? A primeira hipótese é mais lisonjeira para a petista.
Aplicada, Dilma abordou temas que as pesquisas mostram que os eleitores querem ouvir. Foi quem mais mencionou educação/ensino/escola. Também tentou falar de trabalho e emprego, um dos pontos altos do governo Lula, mas acabou arrastada por Serra para uma discussão interminável sobre mutirões, cirurgias e Apaes.
Saúde foi o assunto do tucano. Falou tanto que acabou tachado de hipocondríaco por Plínio.
Serra começou nervoso, a língua ressecada estalando no céu da boca. Acalmou-se vendo Dilma tropeçar. Confrontou a adversária (“você falou”, “você disse”, “você teve responsabilidade”) e ajudou-a a perder a concentração. Ele andava pra lá pra cá no estúdio da Band enquanto as câmeras miravam a petista.
Serra teria sido o menos pior da noite, não houvesse um Plínio no meio do caminho. Ele fez o tucano se embananar, levando o debate para uma área desconfortável para Serra: a rural. O candidato do PSDB acabou qualificando propriedades de 80 hectares (o mesmo que 80 quarteirões) de “chácara de fim-de-semana”.
Aos 80 anos, o presidenciável do PSOL debateu como quem não tem nada a perder, e ganhou. Atazanou os três rivais e conversou com o telespectador, a quem se dirigiu com frequência e tratou por “você”.
Plínio usou frases e palavras mais curtas que os adversários, e concentrou todo o seu discurso em uma ideia: combate à desigualdade. É certo que pela expropriação, socialização e tudo o que mandam os manuais marxistas.
Foi o oposto de Marina. A verde fez uma pergunta para cada adversário. Sorriu. Não levantou a voz. Declamou poema. Foi quem mais falou de meio ambiente. Fez as frases mais longas e desfiou o vocabulário mais amplo. Se a eleição fosse de candidato mais bem comportado, seria favorita disparada. Mas é para presidente.
O desempenho dos presidenciáveis na Band deu uma medida do que serão os próximos debates: UOL, RedeTV!, Record, Estado/Gazeta e Globo. Desgastes e eventuais fugas devem influir nas intenções de voto, num processo de acumulação.
Debate não é luta de boxe. A ideia de que um candidato só ganha quando leva o oponente à lona projeta o desejo mórbido de ver um deles deitado em uma poça de sangue. Ninguém vira eleição com um golpe só, nem aprende a debater do dia para a noite. A vitória de um candidato é sempre por votos, nunca por nocaute.

Por OESP/Jose Roberto Toledo

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Publicado por em 09/08/2010 em Uncategorized

 

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