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Arquivo diário: 11/08/2010

Questões fechadas vs. questões abertas: ‘abrir’ o questionário

Henrique Freitas (PPGA/EA/UFRGS e CNPq)
Jean Moscarola (Université de Savoie)

Quando se constrói um questionário, fabrica-se um captador, um instrumento que vai nos colocar em contato com aquele que responde. Essa interação é condicionada pelo que permitiu
fabricar o questionário, o que nos dá o modelo, a imagem. Esta imagem é uma aproximação do fenômeno que depende do equipamento de interpretação. Este equipamento é o que chamamos de teorias, conceitos ou hipóteses, ou seja, tudo o que já se conhece antes de iniciar a observação. A observação consiste apenas em ajustar a realidade ao que já se sabe. O ajuste vai depender da
qualidade das informações que se possui previamente. É, portanto, a pré-concepção que condiciona o resultado. Normalmente, quando se fecha uma questão, quando se fabrica e se estrutura um questionário, dá-se apenas uma pequena escolha para que os respondentes dêem a sua opinião sobre determinado assunto.
Ao invés de oferecer apenas algumas alternativas de opinião, podería-se entregar às pessoas uma folha em branco e solicitar-lhes que discorram sobre o assunto ‘X’. Este exercício, contudo, é um tanto difícil, tomando tempo e podendo aborrecer os respondentes, a menos que lhes fossem dadas condições muito favoráveis. Se essas condições tivessem sido oferecidas, eles teriam escrito uma ou duas páginas com seu estilo próprio e suas idéias particulares. Estaríamos, então, frente a
um embaraço para analisar todos estes textos. É por isso que se oferecem questões fechadas: porque são mais simples para se obter uma resposta e porque é mais simples analisar as respostas. Contudo,
ao adotá-las, corre-se um risco de simplesmente ficar-se cego (ou muito limitado) com o que já se sabe.

Vamos buscar suporte na Figura 1 (MOSCAROLA, 1990, p.48). O céu tem a forma da janela. Imaginemos que fechamos alguém no início de sua vida em uma casa onde lhe é ensinado a geometria, a ciência e a geografia e que se diz a ele: “quando você tiver doze anos, poderá conhecer o mundo”.

E no dia em que ele chega aos doze anos, abre-se a janela e se pergunta: qual é a forma do céu? Conhecendo a geometria e vendo o céu através de uma janela vai se dizer que ele é oval ou retangular. O que dá a forma do céu é a arquitetura da casa, neste exemplo. O que dá a resposta ao questionário é a concepção desse questionário. Ele é como uma janela que se abre sobre o mundo e quando se olha através desta janela, se tem a forma dos conhecimentos adquiridos reviamente.
É por isso que muitas vezes é útil não fechar a janela; deixá-la bem aberta, ou deixar pelo menos algumas aberturas. Deixar algumas aberturas é introduzir no questionário questões abertas, tentando captar alguns dados mais espontâneos, menos previsíveis, enfim.
Pode-se acrescentar uma pergunta aberta no final de um questionário estruturado: finalmente, o respondente teria algo mais a dizer; ou então oferecer uma folha em branco e deixar que ele se expressasse em total liberdade. Ou ainda perguntar, no início da enquête: “quais são as
palavras que lhe vêm espontaneamente à mente quando se fala sobre o assunto ‘X’?”, sem influenciá-lo pelas palavras que foram escolhidas para definir as escalas.

Em resumo, acaba-se de definir três protocolos, ou seja, três maneiras de abrir o questionário. Tomando-se, por exemplo, o assunto ‘casamento’, pode-se fazer perguntas sob a seguinte forma: “que palavras lhe vêm à mente quando o assunto é casamento”? ou ainda solicitar: “defina o casamento em algumas frases”.

Em terceiro nível, podemos pedir uma dissertação, uma argumentação sobre o casamento, um pequeno romance. Neste caso colocaremos o respondente em uma dificuldade ainda maior. Tentando coletar palavras, estamos apenas ao nível do léxico; tentando coletar frases, se acrescenta a sintaxe: as palavras terão seu sentido afetado pela maneira como se constrói a frase. Em um nível mais complexo está a produção de um discurso: junto à sintaxe se apresentará a argumentação, a retórica, toda uma construção. A maneira mais simples de se “abrir” uma pergunta é um método que consiste em coletar
apenas palavras.

Referências:
FREITAS, H. e JANISSEK, R. – Análise léxica e Análise de conteúdo: técnicas complementares, seqüenciais e recorrentes para análise de dados qualitativos. Porto Alegre: Sphinx, 2000, 176 p.
MOSCAROLA, J. Enquêtes et analyse de données. Paris: Vuibert, Gestion, 1990.

Por Portal Quanti&Quali

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Sobre a escolha da amostra: a questão da representatividade

Henrique Freitas (PPGA/EA/UFRGS e CNPq)
Jean Moscarola (Université de Savoie)
O passo que segue a definição dos objetivos de uma investigação diz respeito à escolha da amostra junto à população-alvo que se deseja investigar, bem como os meios disponíveis para se chegar a essas pessoas ou organizações ou, enfim, elementos integrantes da amostra, e, a partir daí, definir que tipo de enquête será elaborada (tamanho e forma de aplicação, entre outros).

É também necessário refletir sobre como obter um contato com o público-alvo da investigação, ou seja, como chegar àqueles indivíduos que detêm as respostas das questões que desejamos investigar. A pergunta que se faz então é: como chegar até essas pessoas ou organizações ou outro? Elas serão interrogadas por telefone ou por entrevistadores? O envio pelo correio irá depender do grau de precisão das questões formuladas; já se for por telefone estas devem ser mais
objetivas. Com entrevistadores, ao contrário, se tem a certeza de trazer informações úteis. Ao mesmo tempo, o entrevistador é alguém que poderá perturbar, exercendo pressão. É uma reflexão
complexa, exigindo dedicação para se organizar corretamente a coleta das informações (MOSCAROLA, 1990).

Em se tratando de pesquisa de mercado, deve-se interrogar o maior número possível de clientes potenciais, e, na empresa, deve-se interrogar todos os funcionários de todos os níveis, ou então contentar-se com uma simples sondagem, escolhendo apenas uma parte da população. A estatística permite economizar as interrogações exaustivas. O mesmo se poderia pensar para um estudo interno tipo survey ou mesmo outro, envolvendo os recursos humanos, a satisfação com a política da empresa, ou ainda para medir o impacto da adoção de novas tecnologias, enfim. A seguir serão abordadas, resumidamente, algumas indicações sobre os princípios a serem seguidos para
implementar uma sondagem, a partir da observação de uma parte da população. Elas estão ilustradas na Figura 1.

Começa-se pela forma mais conhecida de amostragem: a aleatória (FOWLER, 1993; MATTAR, 1994). Uma sondagem aleatória é uma sondagem na qual cada pessoa da população total tem teoricamente a mesma probabilidade de ser interrogada. Teoricamente é fácil fazer esta
colocação. Na prática, é quase impossível se realizar. Vejamos por exemplo: o “homem” da rua não é um homem, é uma mulher nos países onde os homens trabalham mais e onde as mulheres cuidam
do lar. Essa expressão “homem da rua”, utilizada nas sondagens que são feitas a campo, é uma expressão na realidade falsa, pois o homem da rua não representa o caráter aleatório. Somos então, levados a proceder de outra maneira, interrogando quem se puder interrogar e onde for possível fazê-lo. Desse modo, serão obtidas amostras que não são modelos reduzidos da população total, compostos por estratos de indivíduos jovens ou menos jovens, em proporções diferentes da
proporção da população total.

Será necessário então, desejando-se raciocinar com a população em seu conjunto, realizar o que se chama de ‘retificação’ ou ajuste, ou seja, reestabelecer as proporções da amostra em harmonia com a proporção da população total. Se essas condições forem reunidas, seria possível então, analisando-se a estatística da amostra, conhecer as propriedades da população total. Estas propriedades serão conhecidas com uma precisão maior ou menor de acordo com o tamanho da
amostra. Este é o segundo ponto a ser observado.

Ainda quanto ao número de pessoas ou organizações que serão interrogadas, segundo a chamada “Lei dos Grandes Números”, não é razoável interrogar poucas. Este é um importante passo no contexto destas argumentações. Considera-se que, se não se questionou no mínimo 30% das pessoas, o que foi levantado é muito particular para que possa servir como referência para estimar o comportamento da população total. Raramente se escuta ou entrevista 30% da população-alvo. Mas, estatisticamente, a partir de uma amostra de somente 30 pessoas, SE formos indulgentes (ou indolentes), pode-se fazer uma estimativa e prever, ainda que de forma grosseira, a partir do que se
observa na amostra, o que se passa na população total desconhecida). FRANKFORT-NACHMIAS e NACHMIAS (1996), e também PERRIEN, CHÉRON e ZINS (1984, cap. 7) desenvolvem este tema sobre amostragem.

Esta estimativa, contudo, tem algumas armadilhas e erros. Quanto maior o número de pessoas interrogadas, melhor será a precisão dos dados coletados. Se passarmos de 50 para 300 pessoas, o índice de erros dos dados coletados cai e ganha-se muito. Por outro lado, passando-se de 1000 para 2000 pessoas, ganha-se bem menos. Cabe realizar cálculos econômicos sobre o custo da interrogação, por um lado, e o custo do erro resultante de informações que podem levar a decisões errôneas, por outro lado. Quando se trata, por exemplo, de fazer uma sondagem sobre audiência da mídia publicitária, sobretudo na TV, é importante estar atento, pois são estas informações que irão
fornecer cálculos de tarifas e de preços da publicidade. A precisão é fundamental neste caso. O que está em jogo é o valor da informação que se deseja obter.

Estas considerações irão levar a tomada de decisões razoáveis relativas
à escolha da amostra: quem interrogar? Como? Quantas pessoas interrogar? Essa fase é muito importante e apresenta dificuldades, pois requer um certo trabalho para o qual a estatística dá indicações algumas vezes insuficientes. Entretanto, é interessante ter noções fundamentais para realizar esta etapa da melhor maneira possível.
Uma vez determinada a amostra, passa-se ao próximo ponto, que é saber exatamente o que será perguntado, tendo em vista os objetivos traçados no início da investigação.

Referências:
FOWLER Jr., F.J. Survey research methods. Sage Publ, Applied Social Research, v. 1, 1993. 156p.
FRANKFORT-NACHMIAS, C. e NACHMIAS, D. Research methods in the social sciences. St. Martin’s Press, 1996. 600p.
MATTAR, F.N. Pesquisa de Marketing. SP: Atlas, 1994
MOSCAROLA, J. Enquêtes et analyse de données. Paris: Vuibert, Gestion, 1990.
PERRIEN, J., CHÉRON, E.J., e ZINS, M. Recherche en marketing: méthodes et décisions. Québec: Gaetan Morin ed., 1984.
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