RSS

Questões fechadas vs. questões abertas: ‘abrir’ o questionário

11 ago

Henrique Freitas (PPGA/EA/UFRGS e CNPq)
Jean Moscarola (Université de Savoie)

Quando se constrói um questionário, fabrica-se um captador, um instrumento que vai nos colocar em contato com aquele que responde. Essa interação é condicionada pelo que permitiu
fabricar o questionário, o que nos dá o modelo, a imagem. Esta imagem é uma aproximação do fenômeno que depende do equipamento de interpretação. Este equipamento é o que chamamos de teorias, conceitos ou hipóteses, ou seja, tudo o que já se conhece antes de iniciar a observação. A observação consiste apenas em ajustar a realidade ao que já se sabe. O ajuste vai depender da
qualidade das informações que se possui previamente. É, portanto, a pré-concepção que condiciona o resultado. Normalmente, quando se fecha uma questão, quando se fabrica e se estrutura um questionário, dá-se apenas uma pequena escolha para que os respondentes dêem a sua opinião sobre determinado assunto.
Ao invés de oferecer apenas algumas alternativas de opinião, podería-se entregar às pessoas uma folha em branco e solicitar-lhes que discorram sobre o assunto ‘X’. Este exercício, contudo, é um tanto difícil, tomando tempo e podendo aborrecer os respondentes, a menos que lhes fossem dadas condições muito favoráveis. Se essas condições tivessem sido oferecidas, eles teriam escrito uma ou duas páginas com seu estilo próprio e suas idéias particulares. Estaríamos, então, frente a
um embaraço para analisar todos estes textos. É por isso que se oferecem questões fechadas: porque são mais simples para se obter uma resposta e porque é mais simples analisar as respostas. Contudo,
ao adotá-las, corre-se um risco de simplesmente ficar-se cego (ou muito limitado) com o que já se sabe.

Vamos buscar suporte na Figura 1 (MOSCAROLA, 1990, p.48). O céu tem a forma da janela. Imaginemos que fechamos alguém no início de sua vida em uma casa onde lhe é ensinado a geometria, a ciência e a geografia e que se diz a ele: “quando você tiver doze anos, poderá conhecer o mundo”.

E no dia em que ele chega aos doze anos, abre-se a janela e se pergunta: qual é a forma do céu? Conhecendo a geometria e vendo o céu através de uma janela vai se dizer que ele é oval ou retangular. O que dá a forma do céu é a arquitetura da casa, neste exemplo. O que dá a resposta ao questionário é a concepção desse questionário. Ele é como uma janela que se abre sobre o mundo e quando se olha através desta janela, se tem a forma dos conhecimentos adquiridos reviamente.
É por isso que muitas vezes é útil não fechar a janela; deixá-la bem aberta, ou deixar pelo menos algumas aberturas. Deixar algumas aberturas é introduzir no questionário questões abertas, tentando captar alguns dados mais espontâneos, menos previsíveis, enfim.
Pode-se acrescentar uma pergunta aberta no final de um questionário estruturado: finalmente, o respondente teria algo mais a dizer; ou então oferecer uma folha em branco e deixar que ele se expressasse em total liberdade. Ou ainda perguntar, no início da enquête: “quais são as
palavras que lhe vêm espontaneamente à mente quando se fala sobre o assunto ‘X’?”, sem influenciá-lo pelas palavras que foram escolhidas para definir as escalas.

Em resumo, acaba-se de definir três protocolos, ou seja, três maneiras de abrir o questionário. Tomando-se, por exemplo, o assunto ‘casamento’, pode-se fazer perguntas sob a seguinte forma: “que palavras lhe vêm à mente quando o assunto é casamento”? ou ainda solicitar: “defina o casamento em algumas frases”.

Em terceiro nível, podemos pedir uma dissertação, uma argumentação sobre o casamento, um pequeno romance. Neste caso colocaremos o respondente em uma dificuldade ainda maior. Tentando coletar palavras, estamos apenas ao nível do léxico; tentando coletar frases, se acrescenta a sintaxe: as palavras terão seu sentido afetado pela maneira como se constrói a frase. Em um nível mais complexo está a produção de um discurso: junto à sintaxe se apresentará a argumentação, a retórica, toda uma construção. A maneira mais simples de se “abrir” uma pergunta é um método que consiste em coletar
apenas palavras.

Referências:
FREITAS, H. e JANISSEK, R. – Análise léxica e Análise de conteúdo: técnicas complementares, seqüenciais e recorrentes para análise de dados qualitativos. Porto Alegre: Sphinx, 2000, 176 p.
MOSCAROLA, J. Enquêtes et analyse de données. Paris: Vuibert, Gestion, 1990.

Por Portal Quanti&Quali

Anúncios
 
Comentários desativados em Questões fechadas vs. questões abertas: ‘abrir’ o questionário

Publicado por em 11/08/2010 em Uncategorized

 

Tags: ,

Os comentários estão desativados.

 
%d blogueiros gostam disto: