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Arquivo diário: 17/08/2010

Três filósofos que saem do eixo Rio-São Paulo analisam o próximo pleito presidencial e garantem: a estabilidade político-econômica facilita a revalorização de conceitos fundamentais à conduta humana

O que pensam das eleições, e do atual momento político brasileiro, os filósofos radicados em outras regiões do País, em contato com populações e realidades menos influenciadas (contaminadas?) pela opinião dominante no eixo Rio-São Paulo, da chamada “Grande Imprensa”?

O que eles consideram ser o ponto nevrálgico de nossa próxima escolha nas urnas? Como eles elaboram as expectativas das comunidades que os cercam?

A revista Filosofia convidou três filósofos – de formação intelectual e atuação profissional consideravelmente distintas, a apresentar uma reflexão sobre os aspectos centrais suscitados pelo pleito de outubro.
ANTONIO MORONI mora em Brasília e é um especialista no acompanhamento de políticas públicas e na ampliação dos espaços de manifestação social. No texto que preparou para a revista Filosofia, ele convida os leitores a refletir objetivamente sobre a seguinte questão: Teremos uma votação plebiscitária acerca do governo Lula?(Veja este e outros depoimentos que os três filósofos citados prepararam para a revista na íntegra em http://www.portalcienciaevida.com.br).
Mineiro do interior, JOÃO CALOS LINO concluiu o Mestrado em Filosofia com dissertação sobre Maquiavel – o ardiloso pensador e articulador político dos séculos XV e XVI – e agora pesquisa Ética e Política na visão de Hannah Arendt – a cientista política alemã que se deixou entusiasmar pelas teses do Nacional-Socialismo de Adolf Hitler. Nas observações que preparou para o público da revista, o filósofo mineiro alinha fatos sob as lentes rigorosas da Ética, Política e eleições.
Radicado no interior do Estado de Rondônia, NERI CARNEIRO levanta um conjunto de preocupações derivadas de sua múltipla formação de filósofo, historiador, teólogo e mestre em Educação. E chama a atenção para o que define como os Inéditos caminhos da sucessão.
Mas, afinal, serão eles verdadeiramente inéditos? O quanto há de originalidade no processo sucessório de 2010? E o quanto haverá dos erros de sempre? Campanhas eleitorais servem, no mínimo, para que possamos avaliar em que medida progredimos na nossa práxis política.
Cada um dos trabalhos produzidos pelos filósofos convidados traz visões particulares, de importância compatível com as suas realidades socioeconômicas, e também traços de comunalidade que evidenciam a relevância de certos problemas nacionais. Preocupações tão intensas – e extensas – que parecem recobrir o território do país-gigante da América do Sul. Não nos lamentemos. Afinal, isso só prova que, apesar das distâncias continentais, somos uma Nação.

A seguir, duas preocupações que figuram nas reflexões de diferentes filósofos:

SOBRE AS CANDIDATURAS PRESIDENCIAIS FEMININAS:
NERI CARNEIRO, DE RONDÔNIA
“O que nos resta, para vermos aquecida a disputa? Um fato inédito em nossa história: duas mulheres disputando a Presidência. E, neste momento, ambas têm reais chances de eleição. O que isso significa? Vários níveis de avanços.
Um avanço democrático: duas candidaturas originárias de movimentos populares; um avanço cultural: desmoronamento do machismo; ampliação de perspectivas: duas mulheres representando partidos de origem popular; avanço político: partidos considerados grandes e históricos não são os únicos, e nem os atores principais; avanço nos eixos temáticos: a perspectiva dos debates é deixar de lado as grandes empresas para absorver questões cotidianas, voltadas às expectativas das periferias; avanço das periferias: atores e questões sociais com a chance de ganhar maior realce”. (Em Inéditos caminhos da sucessão.)

JOÃO CARLOS LINO, DE BELO HORIZONTE
“A possível vitória de uma mulher nestas mesmas eleições, em um país que ainda não aprendeu a respeitar devidamente as suas mulheres – mas finge que o faz – embora tenha o seu significado simbólico, não garante um aumento do status das mulheres na sociedade”. (Em Ética, Política e eleições.)

ANTONIO MORONI, DE BRASÍLIA
“O fato de termos duas mulheres disputando as eleições, não em papel de figurantes, é de uma importância histórica. Sentimos hoje a sub-representação de alguns segmentos nos espaços de Poder. Na Câmara dos Deputados temos apenas 8% de mulheres e, no Senado, 12%. Sem falar da quase não representação da população negra e na ausência total da população indígena. O fato de termos duas mulheres na disputa presidencial pode ajudar neste debate e em nosso avanço rumo à reforma política capaz de equacionar estas sub-representações”. (Em Teremos uma votação plebiscitária acerca do governo Lula?)

SOBRE O QUE IMPRESSIONA (E VENCE) UMA ELEIÇÃO: SE A FORMAÇÃO INTELECTUAL OU O CARISMA PESSOAL
ANTONIO MORONI, DE BRASÍLIA
“Teremos uma votação para restabelecer alguém de forte embasamento intelectual na Presidência, preterindo, dessa forma, o aspecto do carisma pessoal?
Acho complicado fazer esta diferenciação ou esta dicotomia entre embasamento intelectual e o carisma pessoal. O conhecimento não se dá apenas com a formação intelectual; precisamos romper com esta concepção de racionalidade. O conhecimento se verifica em todos os espaços da vida humana. Assim como podemos ter ‘intelectuais’ com carisma pessoal e vice-versa. O que ainda não foi rompido na nossa sociedade é o preconceito em relação aos que não cursaram bancos escolares ou as universidades. Precisamos ter outro olhar sobre isso. Acho que FHC [expresidente Fernando Henrique Cardoso] tem um embasamento intelectual, mas também tem carisma; o Lula tem carisma pessoal, mas também tem embasamento intelectual – que não foi conseguido nas universidades, mas sim na sua capacidade de ouvir e processar informações”. (Em Teremos uma votação plebiscitária acerca do governo Lula?)

Lula tem uma imagem carismática, mas de quem não possui embasamento intelectual. Dicotomia evidencia preconceito sobre as formas de se adquirir conhecimento
NERI CARNEIRO, DE RONDÔNIA
“Em toda a nossa história, anterior ao fenômeno Lula, a política havia sido feita pelas ‘elites’. Os mandantes nunca haviam nascido das bases populares. Portanto, sempre tivemos gente rica e estudada governando o País. Esse parece ter sido o elemento diferenciador na campanha que elegeu o atual presidente. E, nesse aspecto, sua eleição marcou a história: primeiro operário a governar o Brasil, a exemplo do que ocorrera, por exemplo, na Polônia.
Sabemos que o tucanato – conforme se divulgou recentemente (revista Isto É 14/4/10) – está preparando seus ‘cabos eleitorais’ para combater os ‘adeptos’ do PT. Pretendem jogar comparando os currículos acadêmicos dos candidatos. Neste ponto, voltamos ao que já foi dito antes: nossa história política é marcada pelas elites. E o que elas fizeram? Avanços e muita ‘maracutaia’. Caso olhemos desde a instauração da República, numa só página não caberiam todos os projetos, decretos, escândalos políticos, corrupção e tramoias produzidos pelos governos anteriores ao que está prestes a terminar. Isso considerando apenas os que apareceram na história; sabemos que nem tudo vem à tona ou entra na pauta da grande imprensa.
Portanto, o debate sobre este ou aquele possível candidato, com vasto currículo acadêmico, parece não ser o melhor caminho, no momento. Mesmo porque, alguém pode resgatar esta argumentação, e contra isso não há currículo que fale mais alto. Aliás, deste ponto de vista, quanto melhor o currículo pior é para o candidato, pois mais ele será identificado com as oligarquias – que produziram poucos avanços e muitos solavancos na vida do cidadão”. (Em Inéditos caminhos da sucessão.)

AS SINGULARIDADES NOS TEXTOS DE DOIS FILÓSOFOS:
MORONI DIZ QUE ELEIÇÕES TERÃO CARÁTER PLEBISCITÁRIO
“Acho que estas eleições terão, sim, um caráter plebiscitário, relativo a duas formas diferentes de administrar. A do governo FHC e a do governo Lula. Não que estas duas formas sejam radicalmente opostas; elas têm muitos elementos comuns. Mas há um elemento que as diferencia: o papel do Estado em relação às políticas sociais e o papel do Estado em relação à Economia.
Se no governo FHC as políticas sociais eram focalizadas, e com o discurso da parceria com a sociedade civil (desresponsabilização do Estado, terceirização…) – portanto, uma ausência do Estado -, o governo Lula fica no meio do caminho entre a focalização e a universalização; o Estado assume a primazia na formação das políticas sociais.
No campo econômico, saímos de um governo que entendia o Estado apenas como instrumento regulador do mercado (na maioria das vezes, regulamentação que só servia para fornecer as garantias exigidas pelo mercado) e também como fiador do mercado. O governo Lula, além destes elementos, encampa a concepção do Estado como indutor do desenvolvimento (não entro aqui no debate sobre o tipo do desenvolvimento, para quem etc.). Uso estes dois exemplos para explicitar a questão plebiscitária destas eleições, que também demonstra certo esvaziamento do debate político e da possibilidade da construção de outros projetos políticos”. (Em Teremos uma votação plebiscitária acerca do governo Lula?)

O povo começa a participar da política, interferindo na administração. O projeto “Ficha Limpa”, iniciativa popular que chegou ao Congresso, é um exemplo
JOÃO CARLOS LINO AFIRMA: A ESTABILIDADE PERMITE AOS CIDADÃOS PENSAR MELHOR SOBRE OS VALORES QUE DEVEM NORTEAR SEU COMPORTAMENTO
“Este ano, teremos eleições no Brasil e, acima de tudo, mais uma eleição para presidente da República em um país que, juntamente com vários outros da América Latina, amargou anos de uma ditadura virulenta.
Mas os tempos são outros e nos vemos em um país diferente, com uma economia em franco desenvolvimento, uma respeitabilidade internacional sem precedentes e a inclusão social de uma camada da população que vivia abaixo da linha de pobreza (embora ainda haja muito que fazer neste campo). O interessante destes tempos de maior estabilidade interna é que parece que neles as pessoas têm mais condições de deixar de se preocupar unicamente com a sobrevivência material e passam a pensar melhor sobre a sua própria existência. Assim, as perguntas pelo sentido do viver, pelos valores que devem nortear o nosso comportamento, deixam de ser um luxo para intelectuais entediados e se tornam instrumentos para a avaliação da realidade como um todo, até mesmo a da realidade política. O recrudescimento da luta dos aposentados por um aumento mais justo e pelo fim do fator previdenciário é o exemplo gritante de uma categoria que tem se negado a fazer o papel de refugo social, de algo que já foi usado pela sociedade e pode ser descartado. A pressão dos cidadãos pela aprovação do projeto ‘Ficha Limpa’, de iniciativa popular, é outro exemplo de como a população tende a deixar de ver os políticos como meros administradores (muitas vezes incompetentes) do espaço público. O povo passa a exigir atitudes que tornem a sociedade brasileira, mediante a criação de leis e a correta fiscalização de seu cumprimento, um ambiente desejável de se viver, um espaço onde os valores morais consigam criar um conjunto de expectativas de conduta. Isso nos permitirá o reconhecimento do outro como alguém que, com todas as suas peculiaridades, consegue participar de projetos comuns que estão além do nosso aproveitamento imediato das coisas do mundo.

Ganhe quem ganhar, dentre os candidatos que mais chances têm de uma vitória final nas eleições presidenciais, não acredito em uma mudança radical nos rumos da economia em tempos de globalização, em que um país não pode simplesmente desconhecer a existência das chamadas relações internacionais. Penso que os elementos que devem merecer a reflexão de todos nestas eleições são: 1º) Com todos os problemas políticos que temos, o Brasil tem se mantido firme na construção da democracia (e esta construção deve ser constante, pois o ideal democrático contempla a abertura para um futuro que sempre descortina a possibilidade para mudanças); 2º) Com a aprovação do projeto ‘Ficha Limpa’, a partir destas eleições, os próprios partidos políticos terão de fazer uma espécie de triagem para impedir a presença em seus quadros daqueles que pretendem usar o mandato para fugir às suas responsabilidades diante da lei, ou para revestir de certa respeitabilidade formal a sua imoralidade descarada; 3º) Com a estabilidade econômica do País, creio que as pessoas terão a oportunidade de ver, aos poucos, que a riqueza material – fundamental para uma melhor distribuição da renda entre a população – é pouco para que possamos pensar em uma sociedade efetivamente humana. Da mesma forma, pouco representarão candidatos ou partidos que deixem de lado, em sua agenda, propostas concretas para lidar com questões como o desmatamento da floresta amazônica, o sentimento de insegurança da população (muitas vezes causado pelas próprias forças de segurança), a poluição, o aumento da dificuldade da mobilidade urbana e um tratamento mais sério da reforma agrária”. (Em Ética, política e eleições.)

Quem são ELES

Antonio Moroni é membro do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos – Inesc, uma ONG sediada em Brasília que faz o monitoramento de políticas públicas. Formado em Filosofia, tem pós-graduação em História do Brasil, Fundamentos em Educação Especial e Métodos e Técnicas de Elaboração de Projetos Sociais. Atua há mais de 25 anos em organizações não governamentais.

João Carlos Lino Gomes nasceu em Ponte Nova (MG). Graduou-se em Filosofia na UFMG, onde também fez Mestrado, com dissertação sobre Maquiavel. Atualmente faz o Doutorado na Universidad Complutense de Madri. Leciona Filosofia há 21 anos na PUC-Minas. Tem textos publicados nos livros Filosofia e Política (Ed. Loyola), e Variações filosóficas entre Ética e Política (Ed. da Universidade Federal de Sergipe), entre outros.

Neri P. Carneiro é professor de Filosofia e Ética na Faculdade de Pimenta Bueno (FAP-RO) e na Faculdade São Paulo (FSP-Rolim de Moura- RO). Filósofo, Teólogo e Historiador, fez Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Além de Especialista em Didática do Ensino Superior, é também Especialista em Teologia e professor de Filosofia e História na rede pública do Estado de Rondônia.

Raio X DAS ELEIÇÕES DE OUTUBRO

Em 3 de outubro próximo, cerca de 132 milhões de eleitores escolherão, por meio de 415 mil seções eleitorais espalhadas pelos 5.568 municípios brasileiros, o presidente da República, 27 governadores, 54 senadores (dois terços do Senado), 513 deputados federais e 1.059 deputados estaduais ou distritais. É uma eleição sem igual no mundo, sustentada por um sistema totalmente informatizado, com tecnologia criada e desenvolvida no Brasil.
Mais de 1 milhão de brasileiros irão se identificar, na hora de votar, por meio da biometria. A novidade ocorrerá em 63 municípios, onde a Justiça Eleitoral promoveu o recadastramento de todo o eleitorado para coleta das impressões digitais. Essa forma de identificação traz ainda mais segurança para o processo, por tornar tecnicamente impossível que um eleitor vote no lugar de outro ou que utilize títulos de pessoas já falecidas.
Pesquisa efetuada pelo Instituto Nexus em 2008 apurou que 97% do eleitorado confia no sistema eletrônico de votação.

Por Revista de Filosofia

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Mais do que uma questão meramente biológica, as emoções podem ser analisadas sob o ponto de vista socioantropológico

O sentimento como fenômeno resultante de processos sociais

Por EMERSON SENA DA SILVEIRA é antropólogo, doutor em Ciência da Religião (Univ. Fed. de Juiz de Fora – MG) e pós-doutorando em Antropologia (CNPq-PPCIR-UFJF). Autor do livro Corpo, emoção e rito: Antropologia dos carismáticos católicos (Porto Alegre: Armazém, 2008). Contato: emerson.pesquisa@gmail.com
As emoções entre as mulheres e os homens despontam nas revistas científicas e não científicas como objeto da Psicologia, da Biologia, da Neurologia e da Psiquiatria. Há muitos escritos abordando a natureza inata das emoções, o caráter genético de certos comportamentos emocionais (ódio, amor, inveja) ou, ainda, a profundidade, a manipulação ou a perversão do sentimento.

Alguns livros, oriundos da literatura erudita de autoajuda (Por que os homens mentem e as mulheres choram?), apresentam argumentos das ciências biológicas e da saúde sem o necessário debate e confronto com outras pesquisas e com as ciências sociais/humanas, repetindo, assim, ideias batidas e sem criatividade.

Paralelamente, o senso comum consagra esta divisão de tarefas emocionais: aos homens caberia a razão prática e o controle emocional, e às mulheres a emoção expandida e a paixão. Nada mais falso do que essa imagem, apesar das afirmações recentes da Psiquiatria e das ciências médicas ao “descobrirem” o poder dos hormônios ou a diferença das estruturas cerebrais.

Infelizmente, os sentimentos têm sido reduzidos a uma questão pessoal ou meramente biológica quando, na verdade, é possível falar de emoção entre classes sociais, gerações e outros agrupamentos sociais.

O sociólogo Norbert Elias (1897-1920), nos livros O processo civilizador e Sociedade de Corte, apesar de não construir uma Sociologia das emoções como campo científico, propõe no âmbito de uma “educação civilizatória”, reflexões em que os sentimentos estão associados às formas civilizacionais assumidas pelas sociedades ao longo da história.

Assim, se pudéssemos transportar pessoas que viveram em outras épocas e civilizações para uma viagem no tempo, perceberíamos toda uma gama de sentimentos muito diferentes, mas intensos. Tomemos, por exemplo, o hábito, no Brasil Império, de colocar escarradeiras na sala para recolher o pigarro dos moradores e visitantes. Isso causaria nojo aos homens e mulheres contemporâneos, da mesma forma que certos hábitos atuais suscitariam horror, vergonha e ódio nos homens e mulheres do Brasil naquela época.

Dessa forma, para Norbert Elias, o desenvolvimento da noção de civilização na Europa, com toda sua sustentação social e econômica, correspondeu, simultaneamente, ao aumento do sentimento de vergonha e do nojo e da tendência de esconder, nos bastidores da vida social, a causa desses sentimentos.

A ideia de refinamento dos costumes, do autocontrole emocional e da higiene pessoal e pública surge como ideal da civilização ocidental, ampliando a fronteira entre privado e público, bem diferente dos costumes, e óbvio, dos sentimentos vividos na Idade Média.

Por isso, é possível, sem menosprezar as investigações das ciências médicas sobre o peso das estruturas biológicas e genéticas, afirmar que os sentimentos e suas formas de se manifestar são também elementos sociais, estruturantes da forma como interagimos, presentes na virulência dos preconceitos sociais ou na suavidade da ternura a dois.

Porém, a sisuda Sociologia continental ou europeia quase não deu atenção direta a esse aspecto fundamental da vida em sociedade. Não era a preocupação central de Durkheim (1858-1917), Weber (1864-1920) e Marx (1818-1883) (consagrada “trilogia” das Ciências Sociais), mas é importante notar que, apesar de não haver uma preocupação direta com as emoções, é possível ler, nas entrelinhas de seus escritos, ou até mesmo em textos “menores”, reflexões bastante expressivas.

É possível perguntar, a partir das questões suscitadas por uma Sociologia das emoções, como os autores “clássicos” resolveram a questão da subjetividade no arcabouço teórico que construíram.

Durkheim, acusado (ou elogiado) de ser o “pai” do positivismo nas Ciências Sociais, escreveu textos e livros nos quais aborda uma “Sociologia do simbólico”. Dentre eles está o relativamente pouco conhecido As formas elementares da vida religiosa, um dos últimos livros publicados. A leitura desse livro relativiza o rótulo de “pai do positivismo sociológico”. Durkheim, ao analisar os rituais das tribos australianas (sua dinamogenia), por meio de relatos de viajantes e missionários, coloca a emoção como parte indissociável da estrutura social. O ritual de celebração dos totens tribais teria como tarefa essencial perpetuar na memória dos homens a emoção original que os mobilizou e os fundou como sociedade. Em outras palavras, a emoção é resultante do estado de sociedade, condição sem a qual o homem não pode existir. Já no livro O suicídio, Durkheim apresenta os sentimentos, emoldurados por sua Sociologia, como fenômenos resultantes de processos sociais amplos de solidariedade e anomia, decorrentes da divisão social do trabalho.

Próximo a essa perspectiva “externalista” e estrutural, situa-se Karl Marx, para quem a individualidade psicológica e as emoções (raiva, inveja, ira) são frutos das relações de produção e das forças produtivas. As classes sociais e os conflitos decorrentes da guerra gerados entre as mesmas caracterizariam os sentimentos, determinados pela marcha histórica da “luta de classes”.

A emoção deveria ser tratada sob o aspecto das diferenças entre classes sociais, gerações e outros agrupamentos

Para Durkheim e Marx, o eu individual ou o self, não existem como expressão concreta, mas como expressão de estruturas e de coletividades abstratas.

Em Weber, o austero puritano, tipo ideal que emerge das páginas da Ética protestante e o Espírito do Capitalismo, é uma figura na qual o controle das emoções é o ápice de um processo psicossociológico. O senso de frugalidade e do dever está relacionado, intimamente, à emoção e às formas de contê-la. O desfrute emocional será obtido, paradoxalmente, do esforço de autocontrole. Alguns irão dizer: “nada é mais prazeroso do que a sensação do dever cumprido”. Isso é também uma forma emotiva.

Para Weber, a evolução das éticas religiosas que embasam as religiões mundiais resulta na multiplicidade de formas de explicação dos sofrimentos como o mal e a dor. Essas tentativas, chamadas de teodiceias, orientam as ações dos indivíduos. Por elas, é possível compreender, por exemplo, o porquê da serenidade de um budista diante da morte iminente, a sua extrema compaixão por qualquer forma de vida ou o orgulho triunfante do puritano ao trabalhar e buscar, na poupança e no seu reinvestimento em atividades “produtivas”, respostas às suas angústias.

Poucos foram os sociólogos que, na virada do século XIX e início do século XX, dedicaram-se às pesquisas sobre as complexidades do sentimento humano. Dentre eles, citamos George Simmel (1858-1918) e Marcel Mauss (1872-1950), sobrinho de Émile Durkheim.

De Simmel (2006), temos reflexões muito interessantes no livro Filosofia do amor, uma reunião de diversos ensaios em que é analisado o papel do dinheiro na relação entre os sexos e o amor, consagrado como o mais nobre sentimento que homens e mulheres podem expressar. Com rara sensibilidade, Simmel traça uma trama conceitual em que, Sociologia e Filosofia, dialogam entre si. Simmel (2006, p. 117), dentre outras coisas, analisa os paradoxos do amor: “o milagre do amor é justamente não abolir o ser-pa-ra-si nem do eu nem do tu, fazer dele inclusive a condição que permite essa supressão da distância, esse fechar-se egoísta em si mesmo do querer-viver. Isso é algo totalmente irracional, que se subtrai à lógica das categorias habitualmente válidas”.

DE MARCEL MAUSS (OLIVEIRA, 1979) temos estudos criativos, dentre os quais o pequeno texto A expressão obrigatória de sentimentos, publicado em 1921, que ajuda a compreender a emoção como uma totalidade em que aspectos fisiológicos, psicológicos e sociais estão fundidos numa só realidade ou totalidade. Analisando rituais orais funerários (choros, gritos, berros cantos, etc.) de populações tribais da Austrália, Mauss (OLIVEIRA, 1979, p.146) afirma: “Não só o choro, mas toda uma série de expressões orais de sentimentos não são fenômenos exclusivamente psicológicos ou fisiológicos, mas sim fenômenos sociais, marcados por manifestações não espontâneas e da mais perfeita obrigação”.

Ao analisar outras épocas e civilizações percebemos que os sentimentos se transformam

Nada mais falso do que atribuir aos homens sentimentos que levem apenas ao controle emocional, e às mulheres a emoção expandida e a paixão. os sentimentos não podem ser reduzidos a uma questão pessoal ou meramente biológica

Emoções enlatadas

O amar, o odiar, o invejar são atitudes e linguagens em que o social é construído. Esses sentimentos são linguagens “embrulhadas” pelos meios de comunicação (TV, rádio, internet), experimentadas nas extenuantes batalhas de vários atores sociais antagônicos e cruéis, contendores, são os meios que usamos para viver.

Do ato de louvar ao Deus da fé à compra de um produto de beleza; do empunhar uma faca à mão estendida ao mendigo, a emoção emerge como campo da intersubjetividade dos homens e mulheres dos tempos idos e dos tempos atuais. Na música ou na guerra, na lida diária ou nas celebrações esportivas, nas festas ou nos teatros, os sentimentos são eixos da convivência entre pessoas, famílias, grupos sociais, tribos pequenas e correntes planetárias de classes sociais.

Assim, segundo Mauss, alguns sentimentos, em especial os manifestados perante a morte e o funeral de uma pessoa, são “obrigações morais”, mais do que simples manifestações espontâneas de tristeza individual. Os gritos e cantos funerários são necessários porque só o grupo pode entendê-los. Conforme Mauss (OLIVEIRA, 1979, p. 151): “é mais do que uma manifestação dos próprios sentimentos, é um modo de manifestá-los aos outros, pois assim é preciso fazer. Manifestar-se a si, exprimindo aos outros, por conta dos outros. É essencialmente uma ação simbólica”.

Um destaque pode ser feito para a Sociologia norte-americana, especialmente em sua vertente microssociológica, por trazer novas abordagens ao estatuto do sentimento. Destaca-se Erving Goff man (1922-1982) e seus trabalhos sobre estigmatização social e vergonha. Num famoso estudo (Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1982), Goff man analisa depoimentos de pessoas que tiveram a face dilacerada, por acidente ou por questões congênitas, e conclui que a face está intimamente ligada à própria dignidade. Perdê-la conduz as pessoas à humilhação, com todos os sentimentos associados: baixa autoestima, autorrejeição, dor moral intensa e vergonha.

Para Goff man, cada pessoa trava uma luta permanente para manter a sua face/dignidade ao empreender a “gerência da impressão” ou tentativa de controlar as impressões de si e do outro sobre si. Essas tentativas podem ser compreendidas como “representações do eu na vida cotidiana” ou dramaturgias interativas. Mas a “manipulação” das impressões falha com incômoda frequência, produzindo nas pessoas o embaraço (constrangimento) ou a humilhação, mesmo que esse controle das impressões esteja orientado para manter ou recuperar a face/ dignidade de outra pessoa.

A flexibilidade permitida pelos relacionamentos em rede afetou a capacidade das pessoas de cultivarem relacionamentos, comunitários e pessoais, de longo prazo e de aceitarem os fracassados socialmente
EMBORA O FOCO do trabalho não seja a emoção como objeto distinto, recortado e explícito, outra importante contribuição vem da Antropologia norte-americana, especialmente da chamawda Escola de Cultura e Personalidade. No interior das reflexões suscitadas por essa escola são formulados estudos que fornecem uma “agenda forte” ao importante estatuto do sentimento na vida social. Alguns pensadores, dentre os quais as antropólogas Ruth Benedict (1887-1948) e Margaret Mead (1901-1978), abordaram a interface entre os sistemas culturais e as personalidades.

A ideia de refinamento dos costumes e do autocontrole emocional surge como ideal da civilização ocidental

Os sentimentos se transformam com o tempo: se antes espartilhos apertados significavam beleza e status, hoje, tais vestimentas causariam riso e horror às mulheres
Ressaltamos dois estudos clássicos dessas antropólogas: O crisântemo e a espada, de Benedict, e Sexo e temperamento em três sociedades primitivas, de Mead. O primeiro trata da cultura japonesa e a forma como as emoções da honra e da vergonha são construídas. Nesse sentido, o próprio título do livro remete a símbolos extremamente importantes para os japoneses e, por isso mesmo, carregados de densidade emotiva: o crisântemo associa-se à apurada preocupação estética e a espada, à índole guerreira. O segundo aborda as noções de gênero (masculino e feminino) e os temperamentos associados, desconstruindo a atribuição ingênua de certos comportamentos a homens e a mulheres por conta de suas diferentes estruturas biológicas.

Outro famoso livro de Mead, Adolescência, sexo e cultura em Samoa, embora sofra sérias críticas metodológicas que o colocam em dúvida (os informantes e seus dados são questionados), propõe questões muito pertinentes para uma Sociologia e uma Antropologia das emoções.

Outros estudos de Benedict distinguem culturas dionisíacas (centradas no êxtase, na expansão dos sentimentos, na valorização da espontaneidade) e apolíneas (estruturadas no desejo de moderação, na extrema contenção e regulação).

Um dado interessante é que dentro das pesquisas dessa escola é perceptível o diálogo, às vezes tenso, com a Psicanálise freudiana que aprofundou a compreensão da dimensão psicológica do desejo e do afeto humano. Só para lembrar, um tema que acirrou debates, e ainda acirra: a suposta universalidade do complexo de Édipo, defendida pela Psicanálise e relativizada pela Antropologia.

O livro de Mead (Adolescência, sexo e cultura em Samoa), situado no quadro dos debates entre Psicanálise e Antropologia, parte da seguinte questão: a rebeldia e a angústia da repressão sexual entre os adolescentes norte-americanos são características da personalidade na cultura ou são elementos psicobiológicos universais válidos para qualquer adolescente, em qualquer cultura?

ANALISANDO AS PRÁTICAS sexuais de adolescentes de Samoa, Mead argumenta que as angústias da adolescência não são universais. Segundo a antropóloga, a passagem da infância à adolescência em Samoa era uma transição suave, sem as tensões, ansiedades e confusões observadas nos adolescentes norte-americanos.

Hoje, porém, muitos antropólogos pós-modernistas criticam o ocultamento das relações de poder e da política na Antropologia e nas ciências humanas e sociais. Dizem que a pesquisa de Benedict foi financiada pelo Ministério da Guerra dos EUA. Para essa corrente antropológica, a emoção, nesse sentido, é incorporada a uma agenda “política”. O sentir não poderia, portanto, ser dissociado das “estruturações” do poder, do colonialismo e de outras configurações do político.

Rituais de morte, como o funeral, são mais do que simples manifestações, são, para Marcel Mauss, “obrigações morais”
Mais recentemente, um estudo brilhante do sociólogo francês David Le Breton (2007) retoma tradições filosóficas como a fenomenologia de Merleau-Ponty e analisa a relação entre as formas de perceber/sentir e as estruturas sociais. Cada sociedade configura um modelo sensorial próprio, singularizado pelas e nas experiências e intervinculações dos indivíduos. Para Le Breton (2007), qualquer tipo de socialização é também a disciplina/domesticação da sensorialidade e de suas características biopsicológicas.

As percepções olfativas, visuais, auditivas ou gustativas são marcas na memória, feitas pela emoção e articuladas pelos indivíduos no mundo social. Os dados fornecidos pelos sentidos são registrados por eventos significativos na vivência do indivíduo e, assim, reconstituem e instituem a temporalidade. A rememoração ou evocação de diversas emoções possíveis atrela-se, portanto, à memória. Nesse sentido, é interessante perceber que memória, emoção e sentido (paladar, olfato, audição, etc.) são, visceralmente, interligados. Sentir um perfume e ouvir uma canção pode evocar lembranças e, com elas, sentimentos. Por isso, o nexo entre memória e emoção é importante.

Pode não ser intencional, mas atitudes repetitivas de atender ao telefone durante uma reunião ou um encontro, por exemplo, redundam em humilhação e aumentam a percepção desse sentimento por parte da pessoa “desprezada”
Mas há uma polêmica “no ar”. Hoje, sabe-se que é possível “plantar” memórias inexistentes nos indivíduos. Em 2009, um grupo de cientistas americanos conseguiu, a partir de técnicas de indução, que alguns indivíduos realmente acreditassem, piamente, em lembranças completamente impossíveis e falsas. No caso da experiência desses cientistas, os indivíduos alegaram que, durante a infância, foram lambidos pelo cachorro Pluto, do desenho animado de Walt Disney, em carne, pelo, osso e saliva. E as emoções? Corresponderam a essa memória? Não se sabe.

Para Le Breton, os caminhos da “sociabilidade sensória” variam de acordo com cada tipo de sociedade. Para provar a existência de modelos sensoriais distintos, Le Breton (2007) analisa como no Mundo Ocidental Moderno o olhar adquiriu supremacia ante outros sentidos.

Historicamente, a ideia de individualidade relaciona-se à visão (LE BRETON, 2007) e se consolida na Renascença. Por exemplo, pela difusão e ascensão, na pintura, dos retratos e autorretratos. Neste momento histórico, a sociedade ocidental celebra a visão e elege, simultaneamente, a cegueira como o pior estigma. É a visão o sentido eleito para ser o traço diferenciador dos indivíduos, ou seja, aquilo que separa o “eu”, do “nós”.

As percepções dos cinco sentidos são marcas na memória, feitas pela emoção dos indivíduos no mundo
O sentido da visão passa a ser associado, dessa forma, à verdade, e daí aos sentimentos. As lágrimas serão vistas como cristalizações da dor, do sofrimento, da revolta e da indignação do indivíduo em face do fardo da existência ou da opressão do sistema. Mas o amor e a solidariedade passam também pelo olhar. A paixão acontece no olhar-se. Aos outros sentidos, é reservado um papel secundário na estruturação das identidades sociais e individuais. Destaca-se aqui, o tato, ligado à sensualidade e ao erotismo, dissociados, ou domesticados, em muitas visões religiosas, do amor. A visão é percebida, então, como a “janela interior” (os olhos “revelam” a “interioridade”, as “verdadeiras” emoções) e eleita como o elemento mais nobre dos sentidos. Porém, muitos povos não ocidentais escolheram outros sentidos, o olfato e a audição, por exemplo, como os mais nobres, e conduziram suas relações sociais e identitárias com base nessa escolha.

No Brasil, antes mesmo da formação da Sociologia das emoções como campo disciplinar, emergiram reflexões que tratavam de temas, tangenciavam ou mesmo abordavam o estatuto do sentimento. Para citar dois autores, dentre muitos, Gilberto Freyre (1900-1987) e Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982).

Sociologia da Emoção no Brasil
O Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia da Emoção (GREM), da Universidade Federal da Paraíba é um dos raros núcleos de estudos e pesquisas brasileiros sobre emoção. Fundado em 1994, é liderado por Mauro Guilherme Pinheiro Koury e mantém um blog (http://gremsociologiaantropologia.blogspot.com/) e a Revista Brasileira de Sociologia das Emoções. Dentre as linhas de pesquisa do grupo estão os rituais da morte, luto e sociedade e medos urbanos, violência, ruínas e construção das cidades.
Por abordar os costumes, hábitos e o cotidiano na Casa Grande e na Senzala, nos Sobrados e Mucambos, e entre a Ordem e o Progresso, a dimensão do afeto e da sexualidade emergem com mais intensidade em Gilberto Freyre. Dentre muitos exemplos de como Freyre analisa as relações sociais, pode-se citar o sentido do olfato, atrelado a sentimentos de inferioridade, nojo, embaraço, alegria ou amor. Freyre (2003, p. 418) diz: “Nos perfumes é que se prolongou, até quase nossos dias, a hierarquia da sociedade patriarcal brasileira não só quanto ao tipo de mulher – certos perfumes só se compreendem em ‘cômicas’ ou atrizes, nunca a senhoras honestas, outros só em mulatas, nunca em brancas finas – como quanto a classes e, menos rigidamente, quanto ao sexo”. Em muitas outras análises saborosas, Freyre constrói um panorama cultural da identidade brasileira, emotiva por “nascimento” histórico-cultural.

A ideia de individualidade relaciona-se à visão e se consolida na renascença, na pintura dos retratos e autorretratos
Sérgio Buarque de Holanda, no famoso capítulo 4 do livro Raízes do Brasil, cujo título é O homem cordial constrói uma abordagem diferente, embasada num modelo em que, as estruturas sócio-históricas brasileiras são repensadas. Perdidos entre as formas tradicionais de dominação, patrimonialismo e patriarcalismo, os padrões civilizacionais modernos (cultura democrática) não vingaram no Brasil. Para Holanda, os padrões familiares contaminaram a estrutura social brasileira, fazendo da polidez uma tênue epiderme que disfarça a defesa dos interesses do clã ou do grupo ao qual se pertence por laços de intimidade ou por laços sanguíneos. As estruturas formalistas, racionais e burocráticas advindas com a modernidade, não conseguiram cortar esses laços de compadrio. Por isso, de alguns políticos se diz: “guardam mágoas em geladeira”. E surgem alianças políticas, as mais esquisitas possíveis, bem como “adversários” que não deveriam se odiar, por se situarem dentro de uma estrutura ideológica e racional similar.

Cabe citar Zygmunt Bauman e seu livro Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Bauman analisa a “flexibilidade” permitida pelos relacionamentos em rede ou na internet. Esses relacionamentos nascidos nas “entranhas” cibernéticas das tecnologias de comunicação são criados e desmanchados com extrema rapidez e facilidade. Isso afetou gravemente, para Bauman, a capacidade de cultivar relacionamentos de longo prazo e, por extensão, os vínculos familiares, comunitários, amorosos e até mesmo a capacidade de aceitar o estrangeiro e o estranho. O desenvolvimento gigantesco do consumo e dos sistemas de comunicação eletrônicos (Messenger, chats, comunidades virtuais, etc.), tornou frágil a capacidade social de cultivar emoções e sentimentos necessários aos vínculos de longo prazo (confiança, paciência, tolerância e outros).

Alguns padrões emotivos trazem uma tênue epiderme que disfarça interesses escusos de muitos grupos sociais

A PERDA DA CAPACIDADE de cultivo de longo prazo, substituída pela emoção da velocidade e da “adrenalina” de conectar/desconectar, traz frustração e amargura, intensifica a insegurança e, por decorrência, a sensação de medo e abandono.

Infelizmente, uma forma de domar a crescente emoção social do medo, defendida pelos governos e sociedade dos EUA, Europa e de outros países, é a de projetar, nos imigrantes e refugiados, sentimentos de pavor e rejeição. Isso contribui para o isolamento social e aprofundamento de comportamentos agressivos e reativos, com toda gama de sentimentos associada: ódio racial, surtos de ira, indignidade e injustiça, abandono e vergonha.

Governos e sociedades projetam nos imigrantes e refugiados, sentimentos de horror e pavor, o que contribui para o isolamento social e aumento do terrorismo
ALGUNS SOCIÓLOGOS criticam a severidade dos juízos de valor em Bauman (2004). Haveria, segundo eles, um pessimismo injusto em parte, a respeito da relação entre emoção, meios de comunicação eletrônicos e padrões democráticos de civilização.

Por fim, é preciso frisar que na produção sociológica antes da década de 1970, não havia um campo delimitado e com produção específica chamado de “Sociologia das emoções”. Koury e outros brasileiros serão praticamente os primeiros a realizar reflexões e pesquisas sobre a dor, o luto, a injustiça e o medo, dentro de uma “agenda de pesquisas” da Sociologia das emoções, emoldurada por abordagens e contribuições de inúmeros sociólogos e antropólogos, norte-americanos e europeus, dentre eles William Reddy.

Como se vê, há um “mundo” de autores e pesquisas a serem explorados no campo da Sociologia das emoções ou em autores que escreveram sobre temáticas próximas a esse campo. Mas isso é assunto para outros artigos.

REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. 2 volumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 14. ed. São Paulo: Global, 2003.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

KOURY, Mauro Guilherme. Introdução à Sociologia da emoção. João Pessoa: Manufatura/GREM, 2004.

LE BRETON, David. El sabor del mundo – Una Antropología de los sentidos. Buenos Aires, Ediciones Nueva Visión, 2007.

MEAD, Margaret. Sexo e temperamento. São Paulo: Perspectiva, 1989.

SIMMEL, George. Filosofia do amor. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

OLIVEIRA, Roberto Cardoso (org.). Marcel Mauss: Antropologia. São Paulo: Ática, 1979.

WEBER, Max. “Psicologia social das religiões mundiais”. In: WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de janeiro: Guanabara, 1985.

______. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1989.

Por Revista de Sociologia

 
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Publicado por em 17/08/2010 em Uncategorized

 

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Ibope: Dilma vira no Sudeste e amplia vantagem no Nordeste

Dilma Rousseff (PT) virou no Sudeste. A petista lidera na região que é o maior colégio eleitoral do país por 41% a 32%. Na pesquisa anterior do Ibope, há menos de 10 dias, ela estava empatada em 35% com José Serra (PSDB) na região. E, no final de junho, estava cinco pontos atrás do tucano.
A despeito das margens de erro maiores (porque a amostra regional é menor que a nacional), a tendência de evolução das intenções de voto no Sudeste é consistente. E surpreendente. No primeiro turno de 2006, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perdeu para Geraldo Alckmin (PSDB) por 820 mil votos de diferença na região.
Essa virada de Dilma deve-se ao aumento da vantagem da petista no Rio de Janeiro, à manutenção de uma pequena margem em Minas Gerais e a um surpreendente empate em São Paulo, onde Serra era governador até abril.
Como as margens de erro são grandes, esses resultados devem ser vistos com cautela, mas a sua repetição e intensificação a cada pesquisa são um sinal de que o tucano tem um problema grande a resolver.
O Sudeste e o Nordeste (onde Dilma ampliou a vantagem de 19 para 29 pontos em pouco mais de uma semana) são os locais onde Serra mais fez campanha nos últimos meses e semanas.
Soma-se a isso o fato de que os dois candidatos foram vistos por cerca de um quarto dos eleitores em suas entrevistas ao Jornal Nacional da TV Globo. E que, na avaliação dos eleitores, o desempenho de Dilma não foi superior (23% de ótimo/bom, contra 20% do tucano) a ponto de justificar o crescimento tão agudo da sua vantagem.
Uma hipótese que parece cada vez mais consistente é que o aumento da exposição de Serra, via eventos de campanha e em debates e entrevistas na TV, faz aumentar o contingente de eleitores que o vê como candidato de oposição. E ele perde votos com isso, porque 78% acham o governo ótimo ou bom.
Essa hipótese ganha força ao se notar o perfil dos eleitores que trocaram o tucano pela petista: são principalmente mulheres e eleitores de baixa renda e pouca escolaridade, que provavelmente aumentaram seu grau de informação sobre a disputa após os debates e entrevistas na TV.
Outro indicador: Dilma só ganha de Serra entre os que dão nota 8, 9 ou 10 ao governo. Só que estes são 68% do eleitorado, e a vantagem da petista entre eles é cada vez maior.
Resta ao tucano olhar para a história recente da sucessão presidencial. Em 2006, Lula tinha 55% dos votos válidos antes de começar o horário eleitoral na TV e rádio. Acabou com menos de 49% e precisou disputar o segundo turno. Mas Lula tinha menos tempo de propaganda que Alckmin, e a avaliação de seu governo não era tão positiva quanto hoje.

Por OESP/José Roberto Toledo

 
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Publicado por em 17/08/2010 em Uncategorized

 

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petista vence em MG, RJ e BA, vitais para chegar ao Planalto

A pesquisa Datafolha que mostrou Dilma Rousseff (PT) com 41% contra 33% de José Serra (PSDB) tem dados reveladores nos 5 maiores Estados brasileiros, que concentram 54,5% dos eleitores do país.

O blog compilou os resultados de eleições anteriores e o que o Datafolha mostra agora.

Pela primeira vez na atual disputa, Dilma Rousseff lidera em 3 dos 5 principais Estados: Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. Já José Serra está na frente em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Coincidentemente, esse foi exatamente o quadro da eleição de 2006 (entre Lula e Geraldo Alckmin).

Até meados de julho, Serra ganhava de 3 a 2 nesses Estados. Agora, a conta virou. Na Folha de hoje (16.ago.2010), para assinantes, uma análise sobre essa nova situação.

Eis os dados:

Por Uol/Fernando Rodrigues

 
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Publicado por em 17/08/2010 em Uncategorized

 

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Avaliar seu impacto, assim como seu volume, ajudará as empresas a tirar maior vantagem desse burburinho, segundo estudo McKinsey

Os profissionais de Marketing podem gastar milhões de dólares em campanhas publicitárias sofisticadas, mas geralmente o que faz a cabeça doconsumidor é algo simples e também gratuito: o buzz de fontes confiáveis. O boca a boca é o fator primordial por trás de 20% a 50% de todas as decisões de compra e sua influência é ainda maior quando os consumidores estão comprando um produto pela primeira vez ou quando o produto é relativamente caro. Identificamos três origens de buzz que os profissionais de marketing devem compreender.

Espontâneo. Esse é o tipo mais comum e mais forte, respondendo em geral por 50% a 80% de todo o buzz em relação a determinada categoria de produto. Surge da experiência direta de um consumidor com um produto ou serviço, principalmente quando essa experiência se desvia do que era esperado. Os consumidores dificilmente reclamam de uma empresa, ou a elogiam, quando recebem o que esperavam.

Consequente. A atividade de marketing dispara o buzz, estimulando os consumidores expostos a campanhas de marketing tradicionais a passar à frente mensagens sobre o produto ou marca.

Intencional. Ocorre, por exemplo, quando o marketing usa testemunhais de celebridades para dar início a um burburinho positivo sobre o lançamento de um produto.

Os profissionais de marketing precisam medir o impacto e as ramificações financeiras dessas três formas de buzz. Um ponto de partida tem sido contar o número de recomendações e críticas a determinado produto. A simplicidade e a força dessa abordagem são atraentes, mas é difícil dar conta da variabilidade da força dos diferentes tipos de buzz. Para citar apenas um exemplo, quando a recomendação vem de um amigo confiável, há 50 vezes mais chance de disparar uma decisão de compra do que uma recomendação de um desconhecido.

A fim de medir os efeitos dos diferentes tipos de recomendação, desenvolvemos uma forma de calcular o “valor” do buzz, que representa o impacto médio em vendas de uma mensagem de marca multiplicado por uma estimativa do número de mensagens que circulam boca a boca. Ao se deter no impacto –assim como no volume– dessas mensagens, esse indicador permite que se avaliem os efeitos sobre as vendas e sobre o market share das marcas, de campanhas específicas e de empresas como um todo. O impacto reflete o que é dito, quem diz e onde é dito.

O que é dito: o conteúdo da mensagem deve tratar de características relevantes do produto ou serviço se quiser influenciar as decisões do consumidor. No setor de telefonia móvel, por exemplo, o design é mais importante do que a duração da bateria. Na área de cosméticos, a embalagem e a composição do produto geram mais buzz do que as mensagens emocionais sobre como o produto faz as pessoas se sentir.

Quem diz: deve-se ter em mente que o receptor da mensagem buzz precisa confiar no emissor, crer que ele realmente conhece o produto ou serviço em questão. Familiares e amigos são mais confiáveis do que estranhos.

Onde é dito: em geral, as mensagens que circulam em redes fechadas e confiáveis conseguem alcance menor, porém maior impacto, do que aquelas que circulam em comunidades dispersas. Os equivalentes online das recomendações da hora do jantar continuam importantes.

* Esta reportagem foi publicada pela Revista HSM Management (Julho/Agosto de 2010 br.hsmglobal.com) e agora no Mundo do Marketing por meio de parceria que os dois veículos mantêm.

 
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Publicado por em 17/08/2010 em Uncategorized

 

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