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Mais do que uma questão meramente biológica, as emoções podem ser analisadas sob o ponto de vista socioantropológico

17 ago

O sentimento como fenômeno resultante de processos sociais

Por EMERSON SENA DA SILVEIRA é antropólogo, doutor em Ciência da Religião (Univ. Fed. de Juiz de Fora – MG) e pós-doutorando em Antropologia (CNPq-PPCIR-UFJF). Autor do livro Corpo, emoção e rito: Antropologia dos carismáticos católicos (Porto Alegre: Armazém, 2008). Contato: emerson.pesquisa@gmail.com
As emoções entre as mulheres e os homens despontam nas revistas científicas e não científicas como objeto da Psicologia, da Biologia, da Neurologia e da Psiquiatria. Há muitos escritos abordando a natureza inata das emoções, o caráter genético de certos comportamentos emocionais (ódio, amor, inveja) ou, ainda, a profundidade, a manipulação ou a perversão do sentimento.

Alguns livros, oriundos da literatura erudita de autoajuda (Por que os homens mentem e as mulheres choram?), apresentam argumentos das ciências biológicas e da saúde sem o necessário debate e confronto com outras pesquisas e com as ciências sociais/humanas, repetindo, assim, ideias batidas e sem criatividade.

Paralelamente, o senso comum consagra esta divisão de tarefas emocionais: aos homens caberia a razão prática e o controle emocional, e às mulheres a emoção expandida e a paixão. Nada mais falso do que essa imagem, apesar das afirmações recentes da Psiquiatria e das ciências médicas ao “descobrirem” o poder dos hormônios ou a diferença das estruturas cerebrais.

Infelizmente, os sentimentos têm sido reduzidos a uma questão pessoal ou meramente biológica quando, na verdade, é possível falar de emoção entre classes sociais, gerações e outros agrupamentos sociais.

O sociólogo Norbert Elias (1897-1920), nos livros O processo civilizador e Sociedade de Corte, apesar de não construir uma Sociologia das emoções como campo científico, propõe no âmbito de uma “educação civilizatória”, reflexões em que os sentimentos estão associados às formas civilizacionais assumidas pelas sociedades ao longo da história.

Assim, se pudéssemos transportar pessoas que viveram em outras épocas e civilizações para uma viagem no tempo, perceberíamos toda uma gama de sentimentos muito diferentes, mas intensos. Tomemos, por exemplo, o hábito, no Brasil Império, de colocar escarradeiras na sala para recolher o pigarro dos moradores e visitantes. Isso causaria nojo aos homens e mulheres contemporâneos, da mesma forma que certos hábitos atuais suscitariam horror, vergonha e ódio nos homens e mulheres do Brasil naquela época.

Dessa forma, para Norbert Elias, o desenvolvimento da noção de civilização na Europa, com toda sua sustentação social e econômica, correspondeu, simultaneamente, ao aumento do sentimento de vergonha e do nojo e da tendência de esconder, nos bastidores da vida social, a causa desses sentimentos.

A ideia de refinamento dos costumes, do autocontrole emocional e da higiene pessoal e pública surge como ideal da civilização ocidental, ampliando a fronteira entre privado e público, bem diferente dos costumes, e óbvio, dos sentimentos vividos na Idade Média.

Por isso, é possível, sem menosprezar as investigações das ciências médicas sobre o peso das estruturas biológicas e genéticas, afirmar que os sentimentos e suas formas de se manifestar são também elementos sociais, estruturantes da forma como interagimos, presentes na virulência dos preconceitos sociais ou na suavidade da ternura a dois.

Porém, a sisuda Sociologia continental ou europeia quase não deu atenção direta a esse aspecto fundamental da vida em sociedade. Não era a preocupação central de Durkheim (1858-1917), Weber (1864-1920) e Marx (1818-1883) (consagrada “trilogia” das Ciências Sociais), mas é importante notar que, apesar de não haver uma preocupação direta com as emoções, é possível ler, nas entrelinhas de seus escritos, ou até mesmo em textos “menores”, reflexões bastante expressivas.

É possível perguntar, a partir das questões suscitadas por uma Sociologia das emoções, como os autores “clássicos” resolveram a questão da subjetividade no arcabouço teórico que construíram.

Durkheim, acusado (ou elogiado) de ser o “pai” do positivismo nas Ciências Sociais, escreveu textos e livros nos quais aborda uma “Sociologia do simbólico”. Dentre eles está o relativamente pouco conhecido As formas elementares da vida religiosa, um dos últimos livros publicados. A leitura desse livro relativiza o rótulo de “pai do positivismo sociológico”. Durkheim, ao analisar os rituais das tribos australianas (sua dinamogenia), por meio de relatos de viajantes e missionários, coloca a emoção como parte indissociável da estrutura social. O ritual de celebração dos totens tribais teria como tarefa essencial perpetuar na memória dos homens a emoção original que os mobilizou e os fundou como sociedade. Em outras palavras, a emoção é resultante do estado de sociedade, condição sem a qual o homem não pode existir. Já no livro O suicídio, Durkheim apresenta os sentimentos, emoldurados por sua Sociologia, como fenômenos resultantes de processos sociais amplos de solidariedade e anomia, decorrentes da divisão social do trabalho.

Próximo a essa perspectiva “externalista” e estrutural, situa-se Karl Marx, para quem a individualidade psicológica e as emoções (raiva, inveja, ira) são frutos das relações de produção e das forças produtivas. As classes sociais e os conflitos decorrentes da guerra gerados entre as mesmas caracterizariam os sentimentos, determinados pela marcha histórica da “luta de classes”.

A emoção deveria ser tratada sob o aspecto das diferenças entre classes sociais, gerações e outros agrupamentos

Para Durkheim e Marx, o eu individual ou o self, não existem como expressão concreta, mas como expressão de estruturas e de coletividades abstratas.

Em Weber, o austero puritano, tipo ideal que emerge das páginas da Ética protestante e o Espírito do Capitalismo, é uma figura na qual o controle das emoções é o ápice de um processo psicossociológico. O senso de frugalidade e do dever está relacionado, intimamente, à emoção e às formas de contê-la. O desfrute emocional será obtido, paradoxalmente, do esforço de autocontrole. Alguns irão dizer: “nada é mais prazeroso do que a sensação do dever cumprido”. Isso é também uma forma emotiva.

Para Weber, a evolução das éticas religiosas que embasam as religiões mundiais resulta na multiplicidade de formas de explicação dos sofrimentos como o mal e a dor. Essas tentativas, chamadas de teodiceias, orientam as ações dos indivíduos. Por elas, é possível compreender, por exemplo, o porquê da serenidade de um budista diante da morte iminente, a sua extrema compaixão por qualquer forma de vida ou o orgulho triunfante do puritano ao trabalhar e buscar, na poupança e no seu reinvestimento em atividades “produtivas”, respostas às suas angústias.

Poucos foram os sociólogos que, na virada do século XIX e início do século XX, dedicaram-se às pesquisas sobre as complexidades do sentimento humano. Dentre eles, citamos George Simmel (1858-1918) e Marcel Mauss (1872-1950), sobrinho de Émile Durkheim.

De Simmel (2006), temos reflexões muito interessantes no livro Filosofia do amor, uma reunião de diversos ensaios em que é analisado o papel do dinheiro na relação entre os sexos e o amor, consagrado como o mais nobre sentimento que homens e mulheres podem expressar. Com rara sensibilidade, Simmel traça uma trama conceitual em que, Sociologia e Filosofia, dialogam entre si. Simmel (2006, p. 117), dentre outras coisas, analisa os paradoxos do amor: “o milagre do amor é justamente não abolir o ser-pa-ra-si nem do eu nem do tu, fazer dele inclusive a condição que permite essa supressão da distância, esse fechar-se egoísta em si mesmo do querer-viver. Isso é algo totalmente irracional, que se subtrai à lógica das categorias habitualmente válidas”.

DE MARCEL MAUSS (OLIVEIRA, 1979) temos estudos criativos, dentre os quais o pequeno texto A expressão obrigatória de sentimentos, publicado em 1921, que ajuda a compreender a emoção como uma totalidade em que aspectos fisiológicos, psicológicos e sociais estão fundidos numa só realidade ou totalidade. Analisando rituais orais funerários (choros, gritos, berros cantos, etc.) de populações tribais da Austrália, Mauss (OLIVEIRA, 1979, p.146) afirma: “Não só o choro, mas toda uma série de expressões orais de sentimentos não são fenômenos exclusivamente psicológicos ou fisiológicos, mas sim fenômenos sociais, marcados por manifestações não espontâneas e da mais perfeita obrigação”.

Ao analisar outras épocas e civilizações percebemos que os sentimentos se transformam

Nada mais falso do que atribuir aos homens sentimentos que levem apenas ao controle emocional, e às mulheres a emoção expandida e a paixão. os sentimentos não podem ser reduzidos a uma questão pessoal ou meramente biológica

Emoções enlatadas

O amar, o odiar, o invejar são atitudes e linguagens em que o social é construído. Esses sentimentos são linguagens “embrulhadas” pelos meios de comunicação (TV, rádio, internet), experimentadas nas extenuantes batalhas de vários atores sociais antagônicos e cruéis, contendores, são os meios que usamos para viver.

Do ato de louvar ao Deus da fé à compra de um produto de beleza; do empunhar uma faca à mão estendida ao mendigo, a emoção emerge como campo da intersubjetividade dos homens e mulheres dos tempos idos e dos tempos atuais. Na música ou na guerra, na lida diária ou nas celebrações esportivas, nas festas ou nos teatros, os sentimentos são eixos da convivência entre pessoas, famílias, grupos sociais, tribos pequenas e correntes planetárias de classes sociais.

Assim, segundo Mauss, alguns sentimentos, em especial os manifestados perante a morte e o funeral de uma pessoa, são “obrigações morais”, mais do que simples manifestações espontâneas de tristeza individual. Os gritos e cantos funerários são necessários porque só o grupo pode entendê-los. Conforme Mauss (OLIVEIRA, 1979, p. 151): “é mais do que uma manifestação dos próprios sentimentos, é um modo de manifestá-los aos outros, pois assim é preciso fazer. Manifestar-se a si, exprimindo aos outros, por conta dos outros. É essencialmente uma ação simbólica”.

Um destaque pode ser feito para a Sociologia norte-americana, especialmente em sua vertente microssociológica, por trazer novas abordagens ao estatuto do sentimento. Destaca-se Erving Goff man (1922-1982) e seus trabalhos sobre estigmatização social e vergonha. Num famoso estudo (Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar, 1982), Goff man analisa depoimentos de pessoas que tiveram a face dilacerada, por acidente ou por questões congênitas, e conclui que a face está intimamente ligada à própria dignidade. Perdê-la conduz as pessoas à humilhação, com todos os sentimentos associados: baixa autoestima, autorrejeição, dor moral intensa e vergonha.

Para Goff man, cada pessoa trava uma luta permanente para manter a sua face/dignidade ao empreender a “gerência da impressão” ou tentativa de controlar as impressões de si e do outro sobre si. Essas tentativas podem ser compreendidas como “representações do eu na vida cotidiana” ou dramaturgias interativas. Mas a “manipulação” das impressões falha com incômoda frequência, produzindo nas pessoas o embaraço (constrangimento) ou a humilhação, mesmo que esse controle das impressões esteja orientado para manter ou recuperar a face/ dignidade de outra pessoa.

A flexibilidade permitida pelos relacionamentos em rede afetou a capacidade das pessoas de cultivarem relacionamentos, comunitários e pessoais, de longo prazo e de aceitarem os fracassados socialmente
EMBORA O FOCO do trabalho não seja a emoção como objeto distinto, recortado e explícito, outra importante contribuição vem da Antropologia norte-americana, especialmente da chamawda Escola de Cultura e Personalidade. No interior das reflexões suscitadas por essa escola são formulados estudos que fornecem uma “agenda forte” ao importante estatuto do sentimento na vida social. Alguns pensadores, dentre os quais as antropólogas Ruth Benedict (1887-1948) e Margaret Mead (1901-1978), abordaram a interface entre os sistemas culturais e as personalidades.

A ideia de refinamento dos costumes e do autocontrole emocional surge como ideal da civilização ocidental

Os sentimentos se transformam com o tempo: se antes espartilhos apertados significavam beleza e status, hoje, tais vestimentas causariam riso e horror às mulheres
Ressaltamos dois estudos clássicos dessas antropólogas: O crisântemo e a espada, de Benedict, e Sexo e temperamento em três sociedades primitivas, de Mead. O primeiro trata da cultura japonesa e a forma como as emoções da honra e da vergonha são construídas. Nesse sentido, o próprio título do livro remete a símbolos extremamente importantes para os japoneses e, por isso mesmo, carregados de densidade emotiva: o crisântemo associa-se à apurada preocupação estética e a espada, à índole guerreira. O segundo aborda as noções de gênero (masculino e feminino) e os temperamentos associados, desconstruindo a atribuição ingênua de certos comportamentos a homens e a mulheres por conta de suas diferentes estruturas biológicas.

Outro famoso livro de Mead, Adolescência, sexo e cultura em Samoa, embora sofra sérias críticas metodológicas que o colocam em dúvida (os informantes e seus dados são questionados), propõe questões muito pertinentes para uma Sociologia e uma Antropologia das emoções.

Outros estudos de Benedict distinguem culturas dionisíacas (centradas no êxtase, na expansão dos sentimentos, na valorização da espontaneidade) e apolíneas (estruturadas no desejo de moderação, na extrema contenção e regulação).

Um dado interessante é que dentro das pesquisas dessa escola é perceptível o diálogo, às vezes tenso, com a Psicanálise freudiana que aprofundou a compreensão da dimensão psicológica do desejo e do afeto humano. Só para lembrar, um tema que acirrou debates, e ainda acirra: a suposta universalidade do complexo de Édipo, defendida pela Psicanálise e relativizada pela Antropologia.

O livro de Mead (Adolescência, sexo e cultura em Samoa), situado no quadro dos debates entre Psicanálise e Antropologia, parte da seguinte questão: a rebeldia e a angústia da repressão sexual entre os adolescentes norte-americanos são características da personalidade na cultura ou são elementos psicobiológicos universais válidos para qualquer adolescente, em qualquer cultura?

ANALISANDO AS PRÁTICAS sexuais de adolescentes de Samoa, Mead argumenta que as angústias da adolescência não são universais. Segundo a antropóloga, a passagem da infância à adolescência em Samoa era uma transição suave, sem as tensões, ansiedades e confusões observadas nos adolescentes norte-americanos.

Hoje, porém, muitos antropólogos pós-modernistas criticam o ocultamento das relações de poder e da política na Antropologia e nas ciências humanas e sociais. Dizem que a pesquisa de Benedict foi financiada pelo Ministério da Guerra dos EUA. Para essa corrente antropológica, a emoção, nesse sentido, é incorporada a uma agenda “política”. O sentir não poderia, portanto, ser dissociado das “estruturações” do poder, do colonialismo e de outras configurações do político.

Rituais de morte, como o funeral, são mais do que simples manifestações, são, para Marcel Mauss, “obrigações morais”
Mais recentemente, um estudo brilhante do sociólogo francês David Le Breton (2007) retoma tradições filosóficas como a fenomenologia de Merleau-Ponty e analisa a relação entre as formas de perceber/sentir e as estruturas sociais. Cada sociedade configura um modelo sensorial próprio, singularizado pelas e nas experiências e intervinculações dos indivíduos. Para Le Breton (2007), qualquer tipo de socialização é também a disciplina/domesticação da sensorialidade e de suas características biopsicológicas.

As percepções olfativas, visuais, auditivas ou gustativas são marcas na memória, feitas pela emoção e articuladas pelos indivíduos no mundo social. Os dados fornecidos pelos sentidos são registrados por eventos significativos na vivência do indivíduo e, assim, reconstituem e instituem a temporalidade. A rememoração ou evocação de diversas emoções possíveis atrela-se, portanto, à memória. Nesse sentido, é interessante perceber que memória, emoção e sentido (paladar, olfato, audição, etc.) são, visceralmente, interligados. Sentir um perfume e ouvir uma canção pode evocar lembranças e, com elas, sentimentos. Por isso, o nexo entre memória e emoção é importante.

Pode não ser intencional, mas atitudes repetitivas de atender ao telefone durante uma reunião ou um encontro, por exemplo, redundam em humilhação e aumentam a percepção desse sentimento por parte da pessoa “desprezada”
Mas há uma polêmica “no ar”. Hoje, sabe-se que é possível “plantar” memórias inexistentes nos indivíduos. Em 2009, um grupo de cientistas americanos conseguiu, a partir de técnicas de indução, que alguns indivíduos realmente acreditassem, piamente, em lembranças completamente impossíveis e falsas. No caso da experiência desses cientistas, os indivíduos alegaram que, durante a infância, foram lambidos pelo cachorro Pluto, do desenho animado de Walt Disney, em carne, pelo, osso e saliva. E as emoções? Corresponderam a essa memória? Não se sabe.

Para Le Breton, os caminhos da “sociabilidade sensória” variam de acordo com cada tipo de sociedade. Para provar a existência de modelos sensoriais distintos, Le Breton (2007) analisa como no Mundo Ocidental Moderno o olhar adquiriu supremacia ante outros sentidos.

Historicamente, a ideia de individualidade relaciona-se à visão (LE BRETON, 2007) e se consolida na Renascença. Por exemplo, pela difusão e ascensão, na pintura, dos retratos e autorretratos. Neste momento histórico, a sociedade ocidental celebra a visão e elege, simultaneamente, a cegueira como o pior estigma. É a visão o sentido eleito para ser o traço diferenciador dos indivíduos, ou seja, aquilo que separa o “eu”, do “nós”.

As percepções dos cinco sentidos são marcas na memória, feitas pela emoção dos indivíduos no mundo
O sentido da visão passa a ser associado, dessa forma, à verdade, e daí aos sentimentos. As lágrimas serão vistas como cristalizações da dor, do sofrimento, da revolta e da indignação do indivíduo em face do fardo da existência ou da opressão do sistema. Mas o amor e a solidariedade passam também pelo olhar. A paixão acontece no olhar-se. Aos outros sentidos, é reservado um papel secundário na estruturação das identidades sociais e individuais. Destaca-se aqui, o tato, ligado à sensualidade e ao erotismo, dissociados, ou domesticados, em muitas visões religiosas, do amor. A visão é percebida, então, como a “janela interior” (os olhos “revelam” a “interioridade”, as “verdadeiras” emoções) e eleita como o elemento mais nobre dos sentidos. Porém, muitos povos não ocidentais escolheram outros sentidos, o olfato e a audição, por exemplo, como os mais nobres, e conduziram suas relações sociais e identitárias com base nessa escolha.

No Brasil, antes mesmo da formação da Sociologia das emoções como campo disciplinar, emergiram reflexões que tratavam de temas, tangenciavam ou mesmo abordavam o estatuto do sentimento. Para citar dois autores, dentre muitos, Gilberto Freyre (1900-1987) e Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982).

Sociologia da Emoção no Brasil
O Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia da Emoção (GREM), da Universidade Federal da Paraíba é um dos raros núcleos de estudos e pesquisas brasileiros sobre emoção. Fundado em 1994, é liderado por Mauro Guilherme Pinheiro Koury e mantém um blog (http://gremsociologiaantropologia.blogspot.com/) e a Revista Brasileira de Sociologia das Emoções. Dentre as linhas de pesquisa do grupo estão os rituais da morte, luto e sociedade e medos urbanos, violência, ruínas e construção das cidades.
Por abordar os costumes, hábitos e o cotidiano na Casa Grande e na Senzala, nos Sobrados e Mucambos, e entre a Ordem e o Progresso, a dimensão do afeto e da sexualidade emergem com mais intensidade em Gilberto Freyre. Dentre muitos exemplos de como Freyre analisa as relações sociais, pode-se citar o sentido do olfato, atrelado a sentimentos de inferioridade, nojo, embaraço, alegria ou amor. Freyre (2003, p. 418) diz: “Nos perfumes é que se prolongou, até quase nossos dias, a hierarquia da sociedade patriarcal brasileira não só quanto ao tipo de mulher – certos perfumes só se compreendem em ‘cômicas’ ou atrizes, nunca a senhoras honestas, outros só em mulatas, nunca em brancas finas – como quanto a classes e, menos rigidamente, quanto ao sexo”. Em muitas outras análises saborosas, Freyre constrói um panorama cultural da identidade brasileira, emotiva por “nascimento” histórico-cultural.

A ideia de individualidade relaciona-se à visão e se consolida na renascença, na pintura dos retratos e autorretratos
Sérgio Buarque de Holanda, no famoso capítulo 4 do livro Raízes do Brasil, cujo título é O homem cordial constrói uma abordagem diferente, embasada num modelo em que, as estruturas sócio-históricas brasileiras são repensadas. Perdidos entre as formas tradicionais de dominação, patrimonialismo e patriarcalismo, os padrões civilizacionais modernos (cultura democrática) não vingaram no Brasil. Para Holanda, os padrões familiares contaminaram a estrutura social brasileira, fazendo da polidez uma tênue epiderme que disfarça a defesa dos interesses do clã ou do grupo ao qual se pertence por laços de intimidade ou por laços sanguíneos. As estruturas formalistas, racionais e burocráticas advindas com a modernidade, não conseguiram cortar esses laços de compadrio. Por isso, de alguns políticos se diz: “guardam mágoas em geladeira”. E surgem alianças políticas, as mais esquisitas possíveis, bem como “adversários” que não deveriam se odiar, por se situarem dentro de uma estrutura ideológica e racional similar.

Cabe citar Zygmunt Bauman e seu livro Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Bauman analisa a “flexibilidade” permitida pelos relacionamentos em rede ou na internet. Esses relacionamentos nascidos nas “entranhas” cibernéticas das tecnologias de comunicação são criados e desmanchados com extrema rapidez e facilidade. Isso afetou gravemente, para Bauman, a capacidade de cultivar relacionamentos de longo prazo e, por extensão, os vínculos familiares, comunitários, amorosos e até mesmo a capacidade de aceitar o estrangeiro e o estranho. O desenvolvimento gigantesco do consumo e dos sistemas de comunicação eletrônicos (Messenger, chats, comunidades virtuais, etc.), tornou frágil a capacidade social de cultivar emoções e sentimentos necessários aos vínculos de longo prazo (confiança, paciência, tolerância e outros).

Alguns padrões emotivos trazem uma tênue epiderme que disfarça interesses escusos de muitos grupos sociais

A PERDA DA CAPACIDADE de cultivo de longo prazo, substituída pela emoção da velocidade e da “adrenalina” de conectar/desconectar, traz frustração e amargura, intensifica a insegurança e, por decorrência, a sensação de medo e abandono.

Infelizmente, uma forma de domar a crescente emoção social do medo, defendida pelos governos e sociedade dos EUA, Europa e de outros países, é a de projetar, nos imigrantes e refugiados, sentimentos de pavor e rejeição. Isso contribui para o isolamento social e aprofundamento de comportamentos agressivos e reativos, com toda gama de sentimentos associada: ódio racial, surtos de ira, indignidade e injustiça, abandono e vergonha.

Governos e sociedades projetam nos imigrantes e refugiados, sentimentos de horror e pavor, o que contribui para o isolamento social e aumento do terrorismo
ALGUNS SOCIÓLOGOS criticam a severidade dos juízos de valor em Bauman (2004). Haveria, segundo eles, um pessimismo injusto em parte, a respeito da relação entre emoção, meios de comunicação eletrônicos e padrões democráticos de civilização.

Por fim, é preciso frisar que na produção sociológica antes da década de 1970, não havia um campo delimitado e com produção específica chamado de “Sociologia das emoções”. Koury e outros brasileiros serão praticamente os primeiros a realizar reflexões e pesquisas sobre a dor, o luto, a injustiça e o medo, dentro de uma “agenda de pesquisas” da Sociologia das emoções, emoldurada por abordagens e contribuições de inúmeros sociólogos e antropólogos, norte-americanos e europeus, dentre eles William Reddy.

Como se vê, há um “mundo” de autores e pesquisas a serem explorados no campo da Sociologia das emoções ou em autores que escreveram sobre temáticas próximas a esse campo. Mas isso é assunto para outros artigos.

REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

ELIAS, Norbert. O processo civilizador. 2 volumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos: decadência do patriarcado rural e desenvolvimento urbano. 14. ed. São Paulo: Global, 2003.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

KOURY, Mauro Guilherme. Introdução à Sociologia da emoção. João Pessoa: Manufatura/GREM, 2004.

LE BRETON, David. El sabor del mundo – Una Antropología de los sentidos. Buenos Aires, Ediciones Nueva Visión, 2007.

MEAD, Margaret. Sexo e temperamento. São Paulo: Perspectiva, 1989.

SIMMEL, George. Filosofia do amor. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

OLIVEIRA, Roberto Cardoso (org.). Marcel Mauss: Antropologia. São Paulo: Ática, 1979.

WEBER, Max. “Psicologia social das religiões mundiais”. In: WEBER, Max. Ensaios de Sociologia. Rio de janeiro: Guanabara, 1985.

______. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Pioneira, 1989.

Por Revista de Sociologia

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Publicado por em 17/08/2010 em Uncategorized

 

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