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Três filósofos que saem do eixo Rio-São Paulo analisam o próximo pleito presidencial e garantem: a estabilidade político-econômica facilita a revalorização de conceitos fundamentais à conduta humana

17 ago

O que pensam das eleições, e do atual momento político brasileiro, os filósofos radicados em outras regiões do País, em contato com populações e realidades menos influenciadas (contaminadas?) pela opinião dominante no eixo Rio-São Paulo, da chamada “Grande Imprensa”?

O que eles consideram ser o ponto nevrálgico de nossa próxima escolha nas urnas? Como eles elaboram as expectativas das comunidades que os cercam?

A revista Filosofia convidou três filósofos – de formação intelectual e atuação profissional consideravelmente distintas, a apresentar uma reflexão sobre os aspectos centrais suscitados pelo pleito de outubro.
ANTONIO MORONI mora em Brasília e é um especialista no acompanhamento de políticas públicas e na ampliação dos espaços de manifestação social. No texto que preparou para a revista Filosofia, ele convida os leitores a refletir objetivamente sobre a seguinte questão: Teremos uma votação plebiscitária acerca do governo Lula?(Veja este e outros depoimentos que os três filósofos citados prepararam para a revista na íntegra em http://www.portalcienciaevida.com.br).
Mineiro do interior, JOÃO CALOS LINO concluiu o Mestrado em Filosofia com dissertação sobre Maquiavel – o ardiloso pensador e articulador político dos séculos XV e XVI – e agora pesquisa Ética e Política na visão de Hannah Arendt – a cientista política alemã que se deixou entusiasmar pelas teses do Nacional-Socialismo de Adolf Hitler. Nas observações que preparou para o público da revista, o filósofo mineiro alinha fatos sob as lentes rigorosas da Ética, Política e eleições.
Radicado no interior do Estado de Rondônia, NERI CARNEIRO levanta um conjunto de preocupações derivadas de sua múltipla formação de filósofo, historiador, teólogo e mestre em Educação. E chama a atenção para o que define como os Inéditos caminhos da sucessão.
Mas, afinal, serão eles verdadeiramente inéditos? O quanto há de originalidade no processo sucessório de 2010? E o quanto haverá dos erros de sempre? Campanhas eleitorais servem, no mínimo, para que possamos avaliar em que medida progredimos na nossa práxis política.
Cada um dos trabalhos produzidos pelos filósofos convidados traz visões particulares, de importância compatível com as suas realidades socioeconômicas, e também traços de comunalidade que evidenciam a relevância de certos problemas nacionais. Preocupações tão intensas – e extensas – que parecem recobrir o território do país-gigante da América do Sul. Não nos lamentemos. Afinal, isso só prova que, apesar das distâncias continentais, somos uma Nação.

A seguir, duas preocupações que figuram nas reflexões de diferentes filósofos:

SOBRE AS CANDIDATURAS PRESIDENCIAIS FEMININAS:
NERI CARNEIRO, DE RONDÔNIA
“O que nos resta, para vermos aquecida a disputa? Um fato inédito em nossa história: duas mulheres disputando a Presidência. E, neste momento, ambas têm reais chances de eleição. O que isso significa? Vários níveis de avanços.
Um avanço democrático: duas candidaturas originárias de movimentos populares; um avanço cultural: desmoronamento do machismo; ampliação de perspectivas: duas mulheres representando partidos de origem popular; avanço político: partidos considerados grandes e históricos não são os únicos, e nem os atores principais; avanço nos eixos temáticos: a perspectiva dos debates é deixar de lado as grandes empresas para absorver questões cotidianas, voltadas às expectativas das periferias; avanço das periferias: atores e questões sociais com a chance de ganhar maior realce”. (Em Inéditos caminhos da sucessão.)

JOÃO CARLOS LINO, DE BELO HORIZONTE
“A possível vitória de uma mulher nestas mesmas eleições, em um país que ainda não aprendeu a respeitar devidamente as suas mulheres – mas finge que o faz – embora tenha o seu significado simbólico, não garante um aumento do status das mulheres na sociedade”. (Em Ética, Política e eleições.)

ANTONIO MORONI, DE BRASÍLIA
“O fato de termos duas mulheres disputando as eleições, não em papel de figurantes, é de uma importância histórica. Sentimos hoje a sub-representação de alguns segmentos nos espaços de Poder. Na Câmara dos Deputados temos apenas 8% de mulheres e, no Senado, 12%. Sem falar da quase não representação da população negra e na ausência total da população indígena. O fato de termos duas mulheres na disputa presidencial pode ajudar neste debate e em nosso avanço rumo à reforma política capaz de equacionar estas sub-representações”. (Em Teremos uma votação plebiscitária acerca do governo Lula?)

SOBRE O QUE IMPRESSIONA (E VENCE) UMA ELEIÇÃO: SE A FORMAÇÃO INTELECTUAL OU O CARISMA PESSOAL
ANTONIO MORONI, DE BRASÍLIA
“Teremos uma votação para restabelecer alguém de forte embasamento intelectual na Presidência, preterindo, dessa forma, o aspecto do carisma pessoal?
Acho complicado fazer esta diferenciação ou esta dicotomia entre embasamento intelectual e o carisma pessoal. O conhecimento não se dá apenas com a formação intelectual; precisamos romper com esta concepção de racionalidade. O conhecimento se verifica em todos os espaços da vida humana. Assim como podemos ter ‘intelectuais’ com carisma pessoal e vice-versa. O que ainda não foi rompido na nossa sociedade é o preconceito em relação aos que não cursaram bancos escolares ou as universidades. Precisamos ter outro olhar sobre isso. Acho que FHC [expresidente Fernando Henrique Cardoso] tem um embasamento intelectual, mas também tem carisma; o Lula tem carisma pessoal, mas também tem embasamento intelectual – que não foi conseguido nas universidades, mas sim na sua capacidade de ouvir e processar informações”. (Em Teremos uma votação plebiscitária acerca do governo Lula?)

Lula tem uma imagem carismática, mas de quem não possui embasamento intelectual. Dicotomia evidencia preconceito sobre as formas de se adquirir conhecimento
NERI CARNEIRO, DE RONDÔNIA
“Em toda a nossa história, anterior ao fenômeno Lula, a política havia sido feita pelas ‘elites’. Os mandantes nunca haviam nascido das bases populares. Portanto, sempre tivemos gente rica e estudada governando o País. Esse parece ter sido o elemento diferenciador na campanha que elegeu o atual presidente. E, nesse aspecto, sua eleição marcou a história: primeiro operário a governar o Brasil, a exemplo do que ocorrera, por exemplo, na Polônia.
Sabemos que o tucanato – conforme se divulgou recentemente (revista Isto É 14/4/10) – está preparando seus ‘cabos eleitorais’ para combater os ‘adeptos’ do PT. Pretendem jogar comparando os currículos acadêmicos dos candidatos. Neste ponto, voltamos ao que já foi dito antes: nossa história política é marcada pelas elites. E o que elas fizeram? Avanços e muita ‘maracutaia’. Caso olhemos desde a instauração da República, numa só página não caberiam todos os projetos, decretos, escândalos políticos, corrupção e tramoias produzidos pelos governos anteriores ao que está prestes a terminar. Isso considerando apenas os que apareceram na história; sabemos que nem tudo vem à tona ou entra na pauta da grande imprensa.
Portanto, o debate sobre este ou aquele possível candidato, com vasto currículo acadêmico, parece não ser o melhor caminho, no momento. Mesmo porque, alguém pode resgatar esta argumentação, e contra isso não há currículo que fale mais alto. Aliás, deste ponto de vista, quanto melhor o currículo pior é para o candidato, pois mais ele será identificado com as oligarquias – que produziram poucos avanços e muitos solavancos na vida do cidadão”. (Em Inéditos caminhos da sucessão.)

AS SINGULARIDADES NOS TEXTOS DE DOIS FILÓSOFOS:
MORONI DIZ QUE ELEIÇÕES TERÃO CARÁTER PLEBISCITÁRIO
“Acho que estas eleições terão, sim, um caráter plebiscitário, relativo a duas formas diferentes de administrar. A do governo FHC e a do governo Lula. Não que estas duas formas sejam radicalmente opostas; elas têm muitos elementos comuns. Mas há um elemento que as diferencia: o papel do Estado em relação às políticas sociais e o papel do Estado em relação à Economia.
Se no governo FHC as políticas sociais eram focalizadas, e com o discurso da parceria com a sociedade civil (desresponsabilização do Estado, terceirização…) – portanto, uma ausência do Estado -, o governo Lula fica no meio do caminho entre a focalização e a universalização; o Estado assume a primazia na formação das políticas sociais.
No campo econômico, saímos de um governo que entendia o Estado apenas como instrumento regulador do mercado (na maioria das vezes, regulamentação que só servia para fornecer as garantias exigidas pelo mercado) e também como fiador do mercado. O governo Lula, além destes elementos, encampa a concepção do Estado como indutor do desenvolvimento (não entro aqui no debate sobre o tipo do desenvolvimento, para quem etc.). Uso estes dois exemplos para explicitar a questão plebiscitária destas eleições, que também demonstra certo esvaziamento do debate político e da possibilidade da construção de outros projetos políticos”. (Em Teremos uma votação plebiscitária acerca do governo Lula?)

O povo começa a participar da política, interferindo na administração. O projeto “Ficha Limpa”, iniciativa popular que chegou ao Congresso, é um exemplo
JOÃO CARLOS LINO AFIRMA: A ESTABILIDADE PERMITE AOS CIDADÃOS PENSAR MELHOR SOBRE OS VALORES QUE DEVEM NORTEAR SEU COMPORTAMENTO
“Este ano, teremos eleições no Brasil e, acima de tudo, mais uma eleição para presidente da República em um país que, juntamente com vários outros da América Latina, amargou anos de uma ditadura virulenta.
Mas os tempos são outros e nos vemos em um país diferente, com uma economia em franco desenvolvimento, uma respeitabilidade internacional sem precedentes e a inclusão social de uma camada da população que vivia abaixo da linha de pobreza (embora ainda haja muito que fazer neste campo). O interessante destes tempos de maior estabilidade interna é que parece que neles as pessoas têm mais condições de deixar de se preocupar unicamente com a sobrevivência material e passam a pensar melhor sobre a sua própria existência. Assim, as perguntas pelo sentido do viver, pelos valores que devem nortear o nosso comportamento, deixam de ser um luxo para intelectuais entediados e se tornam instrumentos para a avaliação da realidade como um todo, até mesmo a da realidade política. O recrudescimento da luta dos aposentados por um aumento mais justo e pelo fim do fator previdenciário é o exemplo gritante de uma categoria que tem se negado a fazer o papel de refugo social, de algo que já foi usado pela sociedade e pode ser descartado. A pressão dos cidadãos pela aprovação do projeto ‘Ficha Limpa’, de iniciativa popular, é outro exemplo de como a população tende a deixar de ver os políticos como meros administradores (muitas vezes incompetentes) do espaço público. O povo passa a exigir atitudes que tornem a sociedade brasileira, mediante a criação de leis e a correta fiscalização de seu cumprimento, um ambiente desejável de se viver, um espaço onde os valores morais consigam criar um conjunto de expectativas de conduta. Isso nos permitirá o reconhecimento do outro como alguém que, com todas as suas peculiaridades, consegue participar de projetos comuns que estão além do nosso aproveitamento imediato das coisas do mundo.

Ganhe quem ganhar, dentre os candidatos que mais chances têm de uma vitória final nas eleições presidenciais, não acredito em uma mudança radical nos rumos da economia em tempos de globalização, em que um país não pode simplesmente desconhecer a existência das chamadas relações internacionais. Penso que os elementos que devem merecer a reflexão de todos nestas eleições são: 1º) Com todos os problemas políticos que temos, o Brasil tem se mantido firme na construção da democracia (e esta construção deve ser constante, pois o ideal democrático contempla a abertura para um futuro que sempre descortina a possibilidade para mudanças); 2º) Com a aprovação do projeto ‘Ficha Limpa’, a partir destas eleições, os próprios partidos políticos terão de fazer uma espécie de triagem para impedir a presença em seus quadros daqueles que pretendem usar o mandato para fugir às suas responsabilidades diante da lei, ou para revestir de certa respeitabilidade formal a sua imoralidade descarada; 3º) Com a estabilidade econômica do País, creio que as pessoas terão a oportunidade de ver, aos poucos, que a riqueza material – fundamental para uma melhor distribuição da renda entre a população – é pouco para que possamos pensar em uma sociedade efetivamente humana. Da mesma forma, pouco representarão candidatos ou partidos que deixem de lado, em sua agenda, propostas concretas para lidar com questões como o desmatamento da floresta amazônica, o sentimento de insegurança da população (muitas vezes causado pelas próprias forças de segurança), a poluição, o aumento da dificuldade da mobilidade urbana e um tratamento mais sério da reforma agrária”. (Em Ética, política e eleições.)

Quem são ELES

Antonio Moroni é membro do Colegiado de Gestão do Instituto de Estudos Socioeconômicos – Inesc, uma ONG sediada em Brasília que faz o monitoramento de políticas públicas. Formado em Filosofia, tem pós-graduação em História do Brasil, Fundamentos em Educação Especial e Métodos e Técnicas de Elaboração de Projetos Sociais. Atua há mais de 25 anos em organizações não governamentais.

João Carlos Lino Gomes nasceu em Ponte Nova (MG). Graduou-se em Filosofia na UFMG, onde também fez Mestrado, com dissertação sobre Maquiavel. Atualmente faz o Doutorado na Universidad Complutense de Madri. Leciona Filosofia há 21 anos na PUC-Minas. Tem textos publicados nos livros Filosofia e Política (Ed. Loyola), e Variações filosóficas entre Ética e Política (Ed. da Universidade Federal de Sergipe), entre outros.

Neri P. Carneiro é professor de Filosofia e Ética na Faculdade de Pimenta Bueno (FAP-RO) e na Faculdade São Paulo (FSP-Rolim de Moura- RO). Filósofo, Teólogo e Historiador, fez Mestrado em Educação pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Além de Especialista em Didática do Ensino Superior, é também Especialista em Teologia e professor de Filosofia e História na rede pública do Estado de Rondônia.

Raio X DAS ELEIÇÕES DE OUTUBRO

Em 3 de outubro próximo, cerca de 132 milhões de eleitores escolherão, por meio de 415 mil seções eleitorais espalhadas pelos 5.568 municípios brasileiros, o presidente da República, 27 governadores, 54 senadores (dois terços do Senado), 513 deputados federais e 1.059 deputados estaduais ou distritais. É uma eleição sem igual no mundo, sustentada por um sistema totalmente informatizado, com tecnologia criada e desenvolvida no Brasil.
Mais de 1 milhão de brasileiros irão se identificar, na hora de votar, por meio da biometria. A novidade ocorrerá em 63 municípios, onde a Justiça Eleitoral promoveu o recadastramento de todo o eleitorado para coleta das impressões digitais. Essa forma de identificação traz ainda mais segurança para o processo, por tornar tecnicamente impossível que um eleitor vote no lugar de outro ou que utilize títulos de pessoas já falecidas.
Pesquisa efetuada pelo Instituto Nexus em 2008 apurou que 97% do eleitorado confia no sistema eletrônico de votação.

Por Revista de Filosofia

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