RSS

Militância virtual no Brasil é redundante, diz especialista

20 ago

Barack Obama não foi o pioneiro no uso da internet como aliada na busca de votos e de apoio financeiro para a campanha eleitoral, mas, certamente, soube utilizá-la com eficiência nunca antes vista. O sucesso das táticas adotadas, em 2008, pela equipe de mídia digital do então candidato à presidência dos Estados Unidos foi tão arrebatador que associar o nome Obama à grande rede mundial de computadores se tornou quase uma obviedade.

As estratégias dele viraram modelo, estudo de caso e inspiração para candidatos políticos brasileiros, que, neste pleito, com a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de flexibilizar as regras para divulgação de campanhas na internet, decidiram surfar – alguns meio desequilibrados na prancha – para valer na onda virtual.

Especialista em mídia digital, o publicitário Pedro Sorrentino destaca que os mares daqui não são exatamente como os mares de lá. Portanto, é preciso se adaptar à realidade local. Em entrevista a Terra Magazine, ele comenta as diferenças entre os cenários norte-americano e o brasileiro, fala sobre doações de campanha pela internet e sobre o trabalho digital desenvolvido pelas equipes dos três presidenciáveis mais bem colocados nas pequisas.

Sorrentino, que é um dos autores do documentário Obama digital, afirma que, diferentemente do que ocorreu na última corrida presidencial dos Estados Unidos, a internet não terá tanto poder de decisão nestas eleições. O publicitário critica, ainda, a atuação da militância virtual no Brasil, que considera “redundante”.

– Nós que trabalhamos com internet vivemos em uma microbolha tecnológica, em especial, no Brasil. Para esses caras é a mesma coisa. Militantes devem se comunicar ou buscar engajar pessoas comuns, que usam a web, mas não estão envolvidas com a causa política. Repetir a mesma mensagem ou atacar a oposição não me parecem ser os melhores caminhos.

Confira a entrevista.

A campanha digital do presidente norte-americano Barack Obama, em 2008, acabou se transformando numa referência para políticos brasileiros. A questão é que são duas realidades distintas. O número de pessoas com acesso à internet nos Estados Unidos, por exemplo, é bem superior ao daqui. Quero que você comente essas diferenças de cenários.
Pedro Sorrentino – Acredito que o cenário é muito diferente. Não apenas por conta dos números. O comportamento do eleitor e a maturidade do processo democrático são muito importantes também. Hoje não temos nem 70% da população com acesso a internet em casa e o voto no Brasil é obrigatório.
Quem irá comandar essa eleição é a televisão e não a internet, em especial para a campanha presidencial. O que mudou é o fato de ser indispensável a presença digital de um candidato, quem não estiver na web em 2010 deixará de ganhar muito. O engajamento tem se mostrado diferente também. A maturidade da nossa democracia, com a soma das leis eleitorais e o tipo de participação online que tem acontecido no pleito também são aspectos bem diferentes. Aqui, temos uma bolha de pessoas que já estão com suas ideias formadas, os militantes digitais. Nos Estados Unidos, muitos indecisos formaram a sua opinião por conta dos meios digitais.

Quais as principais estratégias usadas na campanha de Obama, em 2008, e o que seria aplicável à realidade brasileira? O que não funcionaria, por exemplo?
O e-mail marketing foi usado de forma brilhante. Em tempo real e com mensagens muito relevantes, aliado a links para landing pages (páginas de destino) que eram customizadas para a mensagem específica, ao invés de mandar o usuário para a home do website do candidato. Contudo, o que fez da campanha de Obama algo brilhante foi mesmo a capacidade de adaptar as mensagens (valores e missão) para diferentes mídias. Não foi a web que o elegeu. A inteligência de mídia, que resultou em um movimento de base no mundo real, fez a grande diferença.
A web vai servir muito no Brasil para candidatos a Deputado Estadual,Federal e Senadores. Em especial, os desconhecidos ou que apoiam uma causa de nicho.
Mas há leis muito limitantes, como a campanha ter uma data específica para começar. Isso é um grande contra senso na era da informação que vivemos. Nenhum candidato começa uma campanha (em especial online) a partir da 12h01. Nos Estados Unidos, Obama começou seu trabalho online (junto com Hillary e John Edwards) dois anos antes. Isso muda tudo. Na web você não estoura de um dia para o outro sem um bom trabalho de base. Seja com conteúdo ou comprando mídia.

Neste pleito, os candidatos, especialmente os presidenciáveis, estão demonstrando uma notada preocupação com as mídias sociais, uma possível consequência do “efeito Obama”. O investimento tem sido alto. Qual análise você faz das campanhas dos presidenciáveis na internet?
O investimento tem sido alto e isso é bom para todos. Havia muita expectativa de todos os lados (candidatos e estrategistas) para que as coisas acontecessem como o que rolou com o Obama. Contudo, nossa realidade é diferente. Em várias esferas. Como a democracia, o perfil dos candidatos e adoção da população a causas políticas online. Acredito que o trabalho digital dos três principais presidenciáveis tem sido muito bom.
Alguns estão mais bem preparados do que outros, pois independente do estrategista que você tiver, o interessante das mídias sociais é que elas são uma porta aberta e honesta. Se o candidato não entender a dinâmica da rede, rodar scripts ou mostrar que é tudo engessado demais, o sucesso será pequeno. Apesar de que Obama nunca tuitou pelo seu perfil. O ideal é manter os candidatos usando as ferramentas e interagindo com um nível mínimo de moderação para afastar os trolls (no jargão da internet, pessoa que tenta provocar polêmica, desestabilizando uma discussão) e manter o debate saudável. Obama entendia a dinâmica da rede e aparecia publicamente usando seu Blackberry e MacbookPro.

Grande parte das doações de campanha recebidas por Obama veio por meio da internet. No Brasil, este tipo de artifício para arrecadar verba ainda é muito incipiente. Por que isso acontece?
Desde 2002, já havia a possibilidade de receber doações online no Estados Unidos. Howard Dean (pré-candidato pelo partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, nas eleições de 2004), que foi o primeiro candidato digital americano, arrecadou U$22 milhões com a web. Em uma época que não existia Social Media como hoje.
No Brasil, para você doar, precisa de cartão de crédito, o que limita muito o público alvo. Somado isso, você tem uma questão cultural. Poucas pessoas físicas acham interessante ou têm fé nesse tipo de atitude, tanto que um dos candidatos resolveu nem abrir essa possibilidade.
A equipe de Obama desenvolveu um ecossistema de doação competitiva muito interessante. Souberam explorar a cultura meritocrática e competitiva dos Estados Unidos. No Brasil, só há doações de quem precisa fazer lobby, além de alguns gato pingados que não farão a diferença como o que aconteceu por lá. Quem sabe em 2014 não veremos mais participação. É importante os canais continuarem abertos.

Com a decisão do TSE de flexibilizar as regras de uso da internet, esta é a primeira eleição em que a rede mundial de computadores está sendo usada de forma mais efetiva e regulamentada. Como você avalia a atuação da militância ,virtual brasileira? Quais os principais erros e acertos?
Acho que a militância virtual é importante, mas muitas vezes redundante. Nós que trabalhamos com internet vivemos em uma microbolha tecnológica, em especial, no Brasil. Para esses caras é a mesma coisa. Militantes devem se comunicar ou buscar engajar pessoas comuns, que usam a web, mas não estão envolvidas com a causa política. Repetir a mesma mensagem ou atacar a oposição não me parecem ser os melhores caminhos.

Quais as vantagens e desvantagens da campanha feita pela internet?
A vantagem é o baixo investimento inicial, em especial, se você comparar com os preços de mídia impressa ou televisiva. Você tem mais liberdade criativa, pois não se trata apenas do que acontece para quem está atrás de um computador ou celular, o jogo de sucesso é transferir a lógica da organização online para eventos e reuniões offline. Só que a realidade de qualquer empreitada digital é dura. Para ter sucesso, você precisa aliar conhecimento técnico com inteligência. Isso tem um preço, que acaba equivalendo com o valor das outras mídias.

Um dos recursos usados na campanha de Obama foi a comunicação via SMS. Quero que você fale um pouco mais sobre a estratégia.
O uso do SMS nos Estados Unidos é um pouco diferente, pois você paga para receber as mensagens, não só para enviar. Sendo assim, quem estava inscrito no Opt-In da lista de Obama eram pessoas altamente engajadas, interessadas, que reverberariam as mensagens. Ele entendeu quem era esse público-alvo especial e soube tratar isso. A divulgação de Joe Biden em primeira-mão para essas pessoas foi um ótimo exemplo. Tratar com prioridade os influenciadores de sua campanha. Mesmo a CNN furando a notícia, a iniciativa foi tão inovadora que teve ótima receptividade.

Anúncios
 
Comentários desativados em Militância virtual no Brasil é redundante, diz especialista

Publicado por em 20/08/2010 em Uncategorized

 

Tags:

Os comentários estão desativados.

 
%d blogueiros gostam disto: