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Jornais resistem, no papel

25 ago

A morte anunciada dos jornais não deu em nada. Não que tudo tenha voltado a ser como antes. Há mudanças no negócio de se fazer jornal. Mas a catástrofe prevista, nas considerações de Ricardo Pedreira, diretor executivo da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), entrou para o rol das profecias que não se cumprem. Os sinais estão por toda a parte. No Brasil, assim como nos países emergentes, a leitura e os títulos disponíveis no mercado crescem. Nos EUA, um dos maiores mercados, parou de cair. Na Alemanha e no Japão seguem sendo um bom investimento. Mas a melhor notícia, em termos de futuro, está nas perspectivas do veículo. E elas são boas. Há jovens lendo jornais. E, em papel.

Da França vem uma das sinalizações mais otimistas. A Editora La Play Bac, dedicada a um público entre 6 e 18 anos, mantém três títulos específicos para esse target com 150 mil exemplares diários, para assinantes, de segunda a sábado. No Japão, o mais conectado dos países entre os absorvidos pelo potencial da era digital, detém cinco dos dez maiores jornais em circulação no mundo. Vende cerca de 28 milhões de exemplares impressos todos os dias _ e não são apenas os vetustos senhores que lêem.

Na agência de propaganda Talent, uma pesquisa encomendada para entender o que desperta o interesse de homens na faixa etária de 28 a 35 anos, solteiros, sem filhos e que haviam decidido por comprar um modelo de carro sedan (tido como desejo de tiozinho), revelou que eles cultivam símbolos de maturidade. Entre os hábitos que passam a desenvolver está a leitura de jornais. “Eles apontam que o impresso oferece uma curadoria que lhes dá a segurança de ter as informações que as pessoas com mais experiência têm”, explica a responsável pelo estudo, Mari Zampol, diretora de planejamento da agência. “A rede social desse jovem, a dinâmica da busca da informação na web, não necessariamente cumpre esse papel de curadoria das informações”.

O reconhecimento do valor do jornal impresso e a sua resistência acima dos prognósticos iniciais, na opinião de Pedreira, tornam evidentes que o seu poder é muito maior do que se imaginava. “Trata-se de algo intangível, que fica claro na necessidade dos leitores por contextualização, edição e também pela linha editorial da marca jornalística que adotam. Ouço pessoas falarem dos seus jornais como se fossem um amigo e companheiro diário, com quem gostam compartilhar o dia”.

Júlio Ribeiro, presidente do Grupo Talent, insiste que a experiência física proporcionada pelo jornal não é substituível, nem mesmo por um iPad, o tablet que o bilionário das comunicações Rupert Murdoch festejou como sendo o futuro nos jornais, ao apresentar os bons resultados semestrais se sua companhia para analistas na quinta-feira. “Nós vivemos de sensações e folhear o jornal é uma delas. Isso sem falar que ali está organizado um material que a internet oferece em quantidades que acabam estressando as pessoas”, diz Ribeiro ao lembrar ainda que “sempre que uma tecnologia chega, prenunciasse a morte de outra. Mas o mundo segue multimídia e todas acham seus espaços”.

Reconhecido frasista, o publicitário Nizan Guanaes, sócio do Grupo ABC, resume a atual fase se ressurreição do veículo: “Jornal é como uma instituição bancária. É crédito. O anúncio publicado no jornal ganha credibilidade. E isso não vai acabar, só porque as pessoas estão num momento de fascinação pela descoberta da internet”.

Os apocalípticos estipularam datas para o fim dos noticiários impressos. Entre eles, em 2006, figurou a revista britânica The Economist, respeitada por sua seriedade editorial. Há duas semanas a publicação se redimiu e publicou matéria em que reconhece que se precipitou. O negócio dos jornais tem bem mais saúde do que tinha avaliado. Diz, entretanto, que a sobrevivência de longo prazo não está garantida, uma vez que fortes ajustes foram feitos nos últimos três anos, como, por exemplo, a extinção de 13,5 mil empregos na área só nos EUA.

O professor Rosental Calmon Alves, diretor do Knight Center for Journalism in the Americas University of Texas at Austin, acho mesmo que o jornal impresso vai resistir por muito tempo. “Trata-se de uma ótima interface, portátil, flexível, etc. Algum dia, no entanto, ela poderá se tornar obsoleta. Mas não e pra já. Faz três anos, que fui um dos 23 especialistas consultados pela Associação Mundial de Jornais (WAN em inglês) para escrever sobre como víamos o jornal em 2020. Eu disse naquela ocasião, e continuo achando, que haverá jornal em papel em 2020, mas a edição em papel será secundaria na operação da empresa jornalística. Mais importante do que achar que o jornal impresso esta resistindo é observar o quanto as empresas de jornal estão mudando, transformando-se de monomídia em multimídia, adaptando-se ao novo ecossistema midiático da era digital, que é bem diferente daquele que tínhamos na era industrial”.

No Brasil, em particular menos afetado pela crise econômica mundial, de janeiro a junho de 2010, os investimentos publicitários no meio jornal Brasil cresceram para R$ 7,492 bilhões ante R$ 6,314 bilhões no mesmo período em 2009, segundo dados do Ibope Monitor. O meio jornal ocupa o segundo lugar na preferência dos anunciantes, após a televisão aberta, com participação de 21,4% no bolo publicitário. A oferta de produtos cresce com novos lançamentos e expansão de títulos. No domingo, chegou ao mercado o diário esportivo Campeão, do grupo português Ongoing, que havia lançado, no final do ano passado, o jornal Brasil Econômico. O seguimento de populares e gratuitos ganhou nos últimos meses as publicações: Mais, Exclusivo, MTV na Rua e a Grana.

A circulação também segue em curva ascendente. Houve aumento de 2% na circulação das publicações no primeiro semestre de 2010, de acordo com o Instituto Verificador de Circulação (IVC). E, entre as dez maiores publicações no mercado nacional, o jornal O Estado de S.Paulo obteve o melhor resultado com uma variação positiva de 7,69% quando comparado volume total de circulação no primeiro semestre deste ano em relação aos seis meses do mesmo período no ano anterior.

Por OESP/Marili Ribeiro

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Publicado por em 25/08/2010 em Uncategorized

 

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