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Para o sociólogo, eleições ficam marcadas por moderação da esquerda e indefinição da oposição em desempenhar seu papel

04 out

Aos 87 anos, o sociólogo Hélio Jaguaribe, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), mantém o olhar atento sobre a realidade política brasileira. Em entrevista à ISTOÉ, ele confessa que poucas vezes acompanhou com tamanha atenção uma eleição presidencial no Brasil. Em parte pela afinidade com os principais candidatos na luta contra o regime militar, mas também pela novidade do contexto. Na opinião de Jaguaribe, “o PT tende a consolidar-se como um grande partido de massa”, enquanto o PSDB, mesmo indo para o segundo turno, “demonstrou fragilidade ao não conseguir ocupar devidamente seu papel na oposição.” Acostumado a remar contra a maré, Jaguaribe rejeita a tese de que os radicais petistas são um perigo para a democracia. “No Brasil, já não há espaço para radicalismos, nem de esquerda nem de direita”, afirma. O sociólogo diz que não teme a fome do PMDB por cargos num provável governo do PT. Ele acredita na formação de uma frente ampla de centro-esquerda e aposta no desenvolvimentismo como caminho ideal para o País, “mas sem ideologismos.”

ISTOÉ – Com as vitórias que conseguiu nos Estados e no Senado, o PT se fortalece nessa eleição? Ou o segundo turno para presidente lhe tira esta força?

HÉLIO JAGUARIBE -Essas eleições mostraram a consolidação do PT como um grande partido de massa. Isso está cada vez mais claro. Já o PSDB demonstrou fragilidade ao não conseguir ocupar o espaço alternativo como partido popular.

ISTOÉ – Nesta eleição ficou clara a dificuldade da oposição de construir um discurso, de ter uma bandeira?
HÉLIO JAGUARIBE – Sem dúvida. O PSDB é um partido que precisa encontrar uma definição de sua posição de classe. É um partido de classe média? Um partido de massa? Ele é um partido de conciliação entre a classe média e a massa? A meu ver é o que ele representa. E não está sabendo assumir essa posição. É um partido de massa aberto à classe média ou de classe média aberto à massa, com predominância de uma ou outra alternativa conforme as circunstâncias?

ISTOÉ – O que se pode esperar da oposição daqui para a frente?
HÉLIO JAGUARIBE – Acho que ela vai se definir em função das opções do próximo governo. Dilma, se eleita, fará um governo de centro-esquerda e não de extrema esquerda. E, dentro dessa posição, ela vai conseguir uma importante adesão da classe média ilustrada.

ISTOÉ – Dilma tem um perfil mais desenvolvimentista do que pragmático?
HÉLIO JAGUARIBE -O desenvolvimentismo é uma exigência nacional. O novo ocupante da Presidência da República será compelido a optar por uma via desenvolvimentista porque essa é uma demanda geral do País.

ISTOÉ -Diz-se que esse desenvolvimentismo leva ao capitalismo de Estado. Esse é o modelo mais adequado para o Brasil?
HÉLIO JAGUARIBE – Ele pode se tornar tal. O desenvolvimentismo significa o esforço de aumentar a capacidade produtiva e, por outro lado, distribuir mais equitativamente o resultado dela. O desenvolvimentista distributivista é extremamente positivo. O Brasil é um país filho do Estado. Há países que são produto da massa, como acontece com os países britânicos, onde a massa gerou o Estado. No Brasil, o Estado gerou o povo, então esse papel é intrínseco à nossa realidade.

ISTOÉ – E quais são as áreas estratégicas em que o Estado deve atuar?
HÉLIO JAGUARIBE – Evidentemente, a orientação do Estado deve ser totalmente comandada pelo projeto de desenvolvimento. Então, aí entra o desenvolvimento tecnológico, científico, industrial, agrícola e, muito importante, o desenvolvimento social.

ISTOÉ -Quais são os principais gargalos que o País tem de enfrentar?
HÉLIO JAGUARIBE – Creio que, para qualquer exame do Brasil, o problema é a exagerada diferença entre as situações de cúpula e as situações de base. O que se reflete também regionalmente, com a importância do Centro-Sul e a desimportância do Norte-Nordeste. O Brasil até que conseguiu um nível de saneamento razoável, mas está longe de conseguir o saneamento em 100%. E esse a meu ver é um dos problemas: ampliar o saneamento dentro de uma concepção social do processo.

ISTOÉ – Considerando o contexto social, qual é a diferença fundamental mostrada pelo PT nesta eleição?
HÉLIO JAGUARIBE – A diferença é que a esquerda brasileira tornou-se mais moderada, mais centrista. A esquerda não é mais ameaçadora para o centro e, com isso, ela tem uma capacidade eleitoral aumentada. Isso torna a aceitação da esquerda mais fácil para a sociedade.

ISTOÉ – Mas tem gente dizendo que os radicais do PT, que foram domados lá atrás, podem voltar com mais força numa eventual vitória de Dilma. O sr. acredita nisso?
HÉLIO JAGUARIBE – Não tem espaço para radicais no Brasil de hoje, nem de esquerda nem de direita. Nosso país está claramente encaminhado para um nível centrista, que poderá ser um pouco centro-direita em alguns casos, mas que será predominantemente de centro-esquerda.

ISTOÉ – Se Dilma vencer, o que se pode esperar do PMDB nesse primeiro momento de negociação por espaço dentro do Estado?
HÉLIO JAGUARIBE – O PMDB, que teve uma história de resistência durante a ditadura na luta por mais liberdade, com o tempo virou um partido puramente clientelista. Hoje o PMDB não tem identidade política própria, não tem estrutura programática própria, apesar da tentativa de elaborar um programa de governo. De modo que vai depender das oportunidades de emprego que o governo oferecer. Não tem ideologia. Então o PT terá mais força e a Dilma, se for prudente, não dará muito espaço para uma agremiação de clientelismos. Não precisa temer o PMDB.

ISTOÉ – Numa vitória de Dilma, essa hegemonia da base aliada do PT, com a maioria que se desenha na Câmara e no Senado, facilitará a aprovação das reformas necessárias, como a política e a tributária?
HÉLIO JAGUARIBE – Não há a menor dúvida. Ela é muito importante para que a Casa parlamentar aprove as medidas propostas pelo governo. Não vai dar mais para o governo dar a desculpa de que o Congresso não quis aprovar as reformas. Com uma vitória do PT esse será um Congresso de acomodação, não rebelde, que dará espaço para que as políticas públicas sejam aprovadas. Mas é importante que também haja espaço para uma oposição saudável. Eu diria que o Brasil está num processo muito positivo de amadurecimento.

ISTOÉ – O PT tem articulado a criação de uma frente de partidos para, quando chegar ao governo, negociar em igualdade de condições com o PMDB. O PSDB pensa fazer o mesmo, com a liderança de Aécio Neves. Qual a sua expectativa?
HÉLIO JAGUARIBE – Está para surgir a ideia de uma grande frente nacional desenvolvimentista. Isso é muito positivo. E o papel do PSDB terá que ser de uma esquerda moderada, centrista, sem dogmatismo. O Brasil depende muito de que a oposição faça isso e o Aécio é um homem de muito boa qualidade. O papel dele será o de condicionar o governo a ter uma posição de centro-esquerda, que reconcilie a ideia de progresso com a de estabilidade.

ISTOÉ – Como o sr. acha que Serra sai dessa eleição?
HÉLIO JAGUARIBE – Sou muito favorável ao Serra e acho que ele representa a melhor opção, e continuará com muita força. O ideal para o Brasil seria uma aliança PT-PSDB. Por isso, será tão importante o diálogo do PT com a oposição. E encontrar aí uma modalidade de cooperação, pelo menos em áreas estratégicas, no sentido nacional.

ISTOÉ – É uma exigência cada vez mais crescente por parte da consciência contemporânea. O meio ambiente não é inesgotável e o homem precisa administrá-lo de maneira responsável.
HÉLIO JAGUARIBE -É uma exigência cada vez mais crescente por parte da consciência contemporânea. O meio ambiente não é inesgotável e o homem precisa administrá-lo de maneira responsável.

ISTOÉ – Com o fortalecimento do PT, há o risco de repetirmos no Brasil o fenômeno do PRI mexicano, que ficou no poder por mais de meio século?
HÉLIO JAGUARIBE -Evidentemente existe uma possibilidade de que isso ocorra, mas no caso brasileiro a diversidade parlamentar é suficiente para evitar que haja o monopólio institucionalizado de um partido só. Então, o risco é menor.

ISTOÉ – E o sr. acredita no eventual retorno de Lula em 2014?
HÉLIO JAGUARIBE -Isso é um pouco duvidoso. Minha tendência é achar que não. Todo presidente que saiu pensa no retorno quatro anos depois, mas essa possibilidade é reservada a bem poucos.

ISTOÉ -O sr. acha que o próximo governo deverá manter a atual política econômica? É preciso mudar alguma coisa?
HÉLIO JAGUARIBE -É necessário aumentar o esforço de crescimento, pois até agora ele foi meio tímido. Deve haver mais vigor nos esforços de desenvolvimento social, econômico e técnico.

ISTOÉ -Na política externa, o presidente Lula teve atuação marcante. Criticou muito a ONU, por exemplo. Isso ajuda ou atrapalha a ambição por um assento permanente no Conselho de Segurança?
HÉLIO JAGUARIBE – Creio que essas atitudes anti-ONU são fúteis e um governo sensato não vai adotá-las. Vai ser progressista, adotando uma posição de não excomunhão de determinados países e fazendo um esforço de diálogo com todos eles, mas tendo direção própria.

ISTOÉ -No caso, o sr. concorda que o Brasil mantenha esse diálogo com o Irã?
HÉLIO JAGUARIBE -Estou absolutamente de acordo. O contrário disso é sectarismo. O Brasil precisa ter uma linha clara, nem dogmática, nem estagnante, nem exacerbada, mas sim uma linha de centro-esquerda moderada.

ISTOÉ – O sr. acredita que a política externa brasileira deva ser conduzida de maneira menos personalista do que foi com Lula?
HÉLIO JAGUARIBE – Creio que teremos uma política externa muito equilibrada. É muito importante seguir as lições históricas da diplomacia tradicional, de cooperação com todos os países dentro de uma orientação do bloco ocidental. É preciso deixar que a burocracia do Itamaraty trabalhe mais, baixando um pouco esse perfil voluntarioso. O Itamaraty talvez seja a melhor agência pública do Brasil, tem gente de muita competência e um passado histórico brilhante.
Por Istoé

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Publicado por em 04/10/2010 em Uncategorized

 

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