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93% dos deputados se elegem com votos “emprestados”

08 out

Dos 513 deputados federais eleitos para a próxima legislatura, apenas 35 chegaram lá exclusivamente pelo desejo de seus eleitores. Olhando-se o copo meio vazio: 93% da nova Câmara será composta por parlamentares que precisaram de votos alheios para se eleger.

É fruto do sistema eleitoral brasileiro: os candidatos derrotados e os votos na legenda do partido são canalizados para a eleição dos mais bem colocados na chapa partidária ou da coligação. O eleitor vota em fulano, mas ajuda a eleger sicrano -às vezes do partido rival.

Em 11 estados, nenhum deputado se elegeu às próprias custas. No Amapá, apesar de um dos quocientes eleitorais mais baixos do país, ninguém alcançou o mínimo de 39,4 mil votos. Os 8 eleitos precisaram “emprestar” votos de seus companheiros de chapa. Resultado: 60% dos eleitores amapaenses ficaram sem representante na Câmara dos Deputados.

Em São Paulo, apenas dois deputados federais, Tiririca (PR) e Gabriel Chalita (PSB), ultrapassaram o quociente eleitoral de 304 mil votos e ajudaram outros a se eleger com suas sobras. Os outros 68 representantes paulistas irão a Brasília na garupa.

Outra consequência desse sistema é que 38 milhões de eleitores brasileiros ficaram sem representação direta no Congresso. Ou seja, os eleitos representam apenas 61% do eleitorado que foi às urnas e votou em um candidato a deputado ou na legenda de um partido.

Os defensores do sistema de listas dizem que assim é melhor, pois todos os eleitores de coligações ou partidos que conseguiram eleger deputados estão, mesmo que indiretamente, representados na Câmara. Na prática, a teoria é outra.

O eleitor de Adamantina (SP), por exemplo, não deve concordar com a tese. Afinal, nenhum dos três deputados federais mais votados no município foi eleito. O prefeito terá que apelar a um parlamentar que teve mais votos em outras cidades para ter suas reivindicações ouvidas em Brasília.


O que os dez maiores colégios eleitorais paulistas têm em comum? Além de Tiririca entre os cinco deputados federais mais votados, essas cidades elegeram “vereadores federais”. São ex-prefeitos (ou candidatos a prefeito derrotados), seus parentes ou lideranças locais que concentram sua votação num município e adjacências.

A regra se aplica a todos os partidos. São os casos do tucano Emanuel Fernandes em São José dos Campos e da petista Janete Pietá em Guarulhos; ou de Vicentinho (PT) e Dib (PSDB) em São Bernardo do Campo. E ainda de Jonas Donizete (PSB) e Carlos Sampaio (PSDB) em Campinas.

Cada vez há menos puxadores de votos que se destacam pela defesa de um tema ou que atravessam as barreiras geográficas por sua celebridade e conquistam grandes quantidades de eleitores em lugares distantes e diferenciados. Na próxima bancada paulista, com esse perfil, há Tiririca e Chalita.

O problema dessa distritalização de facto do voto é que largas áreas de território ficam sem representação na Câmara. Em países que adotam o voto distrital isso não ocorre, porque as disputas se dão entre candidatos do mesmo distrito. E os distritos cobrem todo o País.

Oitavo maior colégio eleitoral paulista, Sorocaba dispersou seus eleitores entre vários candidatos regionais, com os ex-prefeitos Renato Amary e Pannunzio (ambos do PSDB) e um filho de ex-prefeito (Crespo, do DEM). Acabou não elegendo nenhum deles. Vai ter que contar com Tiririca, o quarto mais votado no município, para ter voz em Brasília.


Por OESP/Jose Roberto Toledo

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Publicado por em 08/10/2010 em Uncategorized

 

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