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Arquivo diário: 06/11/2010

IBGE estuda indústria da comunicação com perspectiva 2.0

São Paulo – Informação é produto básico na indústria da comunicação. Mas o trade formado por agências de publicidade, produtoras de audiovisual, canais de mídia, institutos de pesquisa, serviços especializados e entidades corporativas, por exemplo, quer se olhar melhor para imprimir modelo de gestão mais eficaz, observar deficiências, tendências e antecipar movimentos.

O instrumento para materializar esse comportamento é a pesquisa. A Abap (Associação Nacional das Agências de Publicidade) sabe disso e já solicitou ao IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que dê uma turbinada na pesquisa sobre a Indústria Nacional da Comunicação que teve início em 2007, mas com dados consolidados de 2005. Os números que estão em fase final de apuração, como detalha o publicitário Marcelo Diniz, responsável pelo trabalho da Abap com o instituto de pesquisa ligado ao Ministério do Planejamento, foram turbinados com o CNAE (Classificação Nacional de Atividades Econômicas) 2.0.

Diniz enfatiza que o primeiro trabalho foi estruturado pelo CNAE 1.1. Em 2005 a indústria da comunicação contabilizou R$ 57,434 bilhões, porém, com estornos, a Abap trabalhou com R$ 43,2 bilhões já que o IBGE incluiu vendas de livros, CDs e serviços gráficos não relacionados à publicidade. O número de 2007 subiu para R$ 65,5 bilhões e com os estornos chegou a R$ 47,1 bilhões. Como o PIB cresceu cerca de 5% em 2008, base da nova pesquisa, deve refletir essa performance postiva.

“Não dá para fazer qualquer previsão de como será o desempenho da indústria nesse novo relatório. Mas os números estão sendo analisados e acredito que até dezembro tenhamos um relatório final que poderá ser divulgado na reunião de final de ano da Abap”, destacou Diniz ao lado de Luiz Lara, presidente da Abap e entusiasta da pesquisa iniciada na gestão de Dalton Pastore. “O mercado não é formado só por agências, anunciantes e meios de mídia. Nosso setor é pujante e envolve uma cadeia representativa no PIB (Produto Interno Bruto)”, acrescentou Lara. O PIB do País neste ano deve alcançar os US$ 2 trilhões, equivalente a 9ª posição do ranking das maiores economias do mundo.

A versão 2.0 da pesquisa envolve cruzamentos da PIA (Pesquisa Industrial Anual), PAS (Pesquisa Anual de Serviços), Cadastro Geral de Empresas a partir de inscrições no CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas) e banco de dados da Rais (Relação Anual das Informações Sociais). Diniz explica que a diferença do relatório deste ano é que o IBGE faz ação ad hoc (sob encomenda) para Abap. Pelo convênio firmado com a entidade que representa 70% do PIB da publicidade brasileira, pesquisadores estão realizando entrevistas com empresas com no mínimo 15 funcionários registrados com o objetivo de identificar receitas (e não apenas o faturamento bruto) e o volume de share de cada segmento. Diniz explica que foram selecionados oito tipos de negócios para a pesquisa do IBGE: agências de publicidade, consultoria em publicidade, marketing direto, merchandising (ponto de venda), marketing promocional, concepção e montagem de estandes, promoção de feiras e eventos, e marketing cultural/esportivo.

“O detalhamento vai ser muito maior, sobretudo pelo critério de identificar quem está estruturado com 15 pessoas. O Brasil está cada vez competitivo e nossa indústria precisa estar com seus dados bem tabulados para mostrarmos nossa força”, ponderou Diniz. “Temos a certeza de que o estudo vai ser útil aos processos de governança das agências e também fortalecer o modelo brasileiro de publicidade. Olhar para nós mesmos também significa ver que estamos trabalhando com margens muito exíguas e que o talento precisa ser remunerado na medida certa. Todos reconhecem o talento da publicidade brasileira e o papel didático que exerce na difusão de novos e serviços e consumo de produtos. Temos que usar cada vez mais o raciocínio do Sergio Valente da DM9DDB que diz que a propaganda movimenta as outras indústrias”, disse mais o presidente da Abap.

Lara acrescenta que as agências de publicidade têm garantido ROI (Retorno sobre Investimento) aos clientes. A Abap está promovendo workshops sob a liderança de Angelo Franzão, vice-presidente da Pointlogic para a América Latina e ex-presidente do Grupo de Mídia de São Paulo, sobre planejamento, negociação, execução, pesquisa e avaliação de mídia. “O objetivo é buscar maior rentabilidade e preparar os profissionais para atuar em uma realidade econômica mais sólida e descentralizada como sinaliza o cenário econômico nacional”, afirmou.

A versão 2.0 da Classificação Nacional das Atividades Econômicas do IBGE pode atravessar fronteiras. Diniz explica que “há um esforço internacional para que as classificações de países e blocos econômicos tenham uniformidade na metodologia”. Efeitos das globalização.

Sustentabilidade

O presidente da Abap também está empenhado em desenvolver sistemáticas para a produção de campanhas relacionadas ao desenvolvimento sustentável, pauta que ganhou robustez no País, sobretudo depois do volume de votos da candidata Marina Silva (20%) no primeiro turno da eleição presidencial.

A Abap contratou a consultoria de Marcelo Diniz que vai fazer pesquisa com ongs, anunciantes, agências e outras fontes para traçar um retrato desse tipo de comunicação. Ele trabalha ao lado dos professores Ricardo Zagallo, diretor de Centro de Altos Estudos da Escola Superior de Propaganda & Marketing, e Maurício Turra, também da ESPM. O coordenador do projeto, o publicitário Hiran Castelo Branco, deu início à busca de critérios para comunicação de projetos de sustentabilidade no IV Congresso Brasileiro de Propaganda.

“Estamos reunindo o maior número de informações possíveis para organizar um relatório que será apresentado ao Hiran. Há uma demanda muito grande por esse tipo de comunicação, mas precisamos organizar as principais necessidades”, disse Diniz. “A sustentabilidade é um artigo de grande necessidade, mas precisa de disciplina e de conhecimento. Temos que entender que a sustentabilidade é passível de monetização e que não deve ser encarada apenas como ação voluntária. Os indicadores mostram que o tema da sustentabilidade vai exigir das agências cultura específica. Por esta razão, a Abap está contratando a consultoria do Diniz para ajudar a ESPM nessa missão dirigida pelo Hiram”, justificou Lara. “A pesquisa do Ibope divulgada pelo Nelsom Marangoni no Ebap (Encontro Brasileiro das Agências de Publicidade) deste ano no Rio de Janeiro mostra que 67% da população brasileira elogiam e aprovam as campanhas de utilidade pública. Esse volume mostra que o papel da publicidade é informar, educar e entreter”, ele acrescentou.

Na avaliação de Lara, os anunciantes querem mais conteúdo para aprovar campanhas ligadas à sustentabilidade. As ongs já deram passo positivo nessa área, mas normalmente são projetos cooperados, sem verba de mídia. “Nosso papel é estar preparado para atender o cliente e ele sabe que pode contar conosco”, declarou Lara.

Governo

Sem posicionamento partidário, a Abap quer manter canal aberto com a estrutura de comunicação do novo governo, ainda em formação. Lara acredita que a presidente eleita Dilma Rousseff vai manter o nível de investimento do governo em publicidade, agora amparada pela lei 12.232, de autoria do deputado José Eduardo Cardozo (PT/SP), um dos articuladores do projeto de governo.

“O discurso da presidente sobre a liberdade é bem claro. E a mídia é a indústria da liberdade graças aos investimentos dos anunciantes nos meios de comunicação. Também acreditamos que em um País que vem ampliando suas taxas de consumo, a publicidade é uma aliada incontestável. Sabemos fazer a nossa parte e estamos preparados. O governo tem uma lei específica para contratação de agência e esse instrumento vai tornar os processos mais transparentes”, disse o presidente da Abap, lembrando ainda que a entidade vem colaborando com todas as questões relacionadas à comunicação comercial, sobretudo as restritivas. “Estabelecemos uma parceria desde a gestão do Dalton e o importante é intensificá-la”.

A reeleição do deputado Milton Monti (PR/SP) foi aplaudida pela Abap. O político é o presidente da FreCom (Frente Parlamentar de Comunicação) que conta com mais de 150 deputados e senadores. “O Congresso Nacional é palco de inúmeras discussões sobre propaganda. Hoje temos a frente, que vai ser rearticulada em 2011, sempre sob o comando do deputado Monti”, finalizou Lara.
Por Exame

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Publicado por em 06/11/2010 em Uncategorized

 

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Serra ganha 50% mais eleitores de Marina do que Dilma, diz Ibope

Segundo o Ibope, metade dos eleitores que votaram em Marina Silva (PV) mudou seu voto para José Serra (PSDB) no segundo turno, um terço migrou para Dilma Rousseff (PT) e os demais 15% anularam ou votaram em branco (quase o triplo da média do total do eleitorado).
Serra se beneficiou do voto da terceira colocada do primeiro turno na proporção de 1,5 para 1 em relação a Dilma. Cooptou 50% de eleitores a mais do que a rival direta. Dilma foi eleita porque partiu de um patamar de votos, obtidos em 3 de outubro, 44% maior que o tucano.
Aplicando-se os porcentuais do Ibope sobre a votação da candidata verde no primeiro turno, estima-se que Serra incorporou 9,8 milhões de votos do eleitorado de Marina, contra 6,5 milhões que foram para Dilma, e pouco menos de 3 milhões que anularam ou votaram em branco.
Há uma diferença notável no perfil dos eleitores de Marina que migraram para um lado e para outro. As marinistas mulheres, os brancos, quem estudou até o Fundamental ou Médio, os cristãos (católicos ou evangélicos) e os mais ricos optaram majoritariamente por Serra.
Os homens, os que fizeram faculdade, os que se auto-declaram pardos (critério IBGE) e os de renda intermediária racharam meio a meio. Já os ateus, agnósticos e seguidores de outras religiões, os pobres e os que se auto-declaram pretos votaram mais em Dilma.
Os marinistas tiveram um impacto maior no crescimento de Serra no segundo turno. Seu peso foi de quase 95% dos novos votos do tucano. O restante é um misto de ex-eleitores de Dilma, de Plínio Sampaio (PSOL) e dos que haviam anulado ou votado em branco no primeiro turno.
Para Dilma, os marinistas tiveram peso um pouco menor, mas ainda grande: 85% do seu crescimento. Os outros 1,2 milhões de votos incorporados pela petista no segundo turno vieram, principalmente, da redução dos votos nulos e brancos de um turno para outro.
Contando-se a votação total dos dois candidatos finalistas, os eleitores de Marina foram responsáveis por 20% dos 44 milhões de votos de Serra no segundo turno, e apenas 10% dos 56 milhões votos de Dilma.
A pesquisa Ibope foi feita no dia do segundo turno, na casa dos entrevistados, tanto com eleitores que já haviam votado quanto com quem ainda iria votar. Foi uma pesquisa diferente da boca-de-urna, que é realizada apenas nos locais de votação.
O Ibope perguntou em quem os eleitores haviam votado no primeiro turno e em quem votaram ou pretendiam votar no turno final (nem todos já haviam ido votar quando foram abordados). Nesta análise, os poucos indecisos foram redistribuídos na mesma proporção das intenções de voto dos já decididos.
Serra cresceu mais do que Dilma no segundo turno em quase todas as regiões: de Norte (70% a mais do que ela) a Sul (198%), passando por Sudeste (28%) e Centro-Oeste (55%). A exceção foi o Nordeste, onde a petista aumentou 15% mais sua votação do que o tucano.
Na média do Brasil, os ganhos de eleitorado de Serra foram 30% maiores do que os de Dilma. Como separar o peso dos eleitores de Marina nesse total?
Os ganhos de Serra foram maiores onde Marina foi proporcionalmente pior. E mais significativos onde sua votação, no primeiro turno, ficou abaixo da média. Ou seja, inversamente proporcionais.
Uma hipótese para explicar isso é que Dilma já havia chegado muito perto de seu teto de votação no eleitorado das cidades menores, onde o eleitorado de Marina foi pequeno. Portanto, Serra poderia crescer mais nelas. E o oposto é verdadeiro: Dilma tinha mais chance de crescer nas cidades grandes, onde Marina lhe “roubara” votos.
Considerando-se apenas as cidades onde Marina teve pelo menos 15% dos votos válidos do primeiro turno, os ganhos de Serra caem para 23% além dos de Dilma. Já entre os municípios onde a verde teve mais de 25%, esse porcentual cai para 3%. E vira negativo (-6%) nas cidades onde ela obteve mais de 30%.
Mas isso varia de região para região. No Sudeste, é o contrário. Há uma forte correlação positiva entre o crescimento da votação de Serra e o tamanho do eleitorado marinista.

Por OESP/Jose Roberto Toledo

 
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Publicado por em 06/11/2010 em Uncategorized

 

Para a socióloga, a presidente eleita está preparada para comandar o País, mas deve esperar dupla cobrança por ser mulher

MACHISMO
Maria Victoria acredita que a eleição da primeira
mulher para a Presidência é benéfica para o País

Aos 68 anos, Maria Victoria Benevides é uma das mais importantes e independentes sociólogas do País. Professora titular da Escola de Educação da Universidade de São Paulo, ela estudou na França e nos Estados Unidos. Observadora atenta do cenário político brasileiro, Maria Victória tem dez livros publicados, entre eles “O Governo Kubitschek”, “A UDN e o Udenismo” e o “PTB e o Trabalhismo”. É uma das pioneiras do estudo dos direitos humanos e, em 1986, recebeu do Conselho Nacional de Mulheres o título de Mulher do Ano na área de ciência política. Tem participado dos debates públicos sobre a reforma política, com ênfase nos instrumentos de democracia direta. Participou dos debates de fundação do PT, mas se afastou do partido em 2005, e nunca perdeu sua independência intelectual e acadêmica. Em entrevista exclusiva à ISTOÉ, Maria Victoria fez críticas ao processo eleitoral e enumerou os desafios que deverão ser enfrentados pela presidente eleita, Dilma Rousseff. “Num país ainda dominado por uma política machista e personalista, ter pela primeira vez uma mulher como presidente da República é uma grande novidade”, disse. O maior desafio, entretanto, ainda está por vir. “Haverá sobre Dilma uma dupla cobrança. Assim como Lula dizia que não podia errar por ser um operário de origem pobre, ela não poderá errar exatamente pelo fato de ser mulher”, explica a socióloga.

“Para conseguir encaminhar as reformas ao Congresso,
Dilma deverá fugir do estilo de conciliação do presidente Lula”

“Aécio é o nome natural para 2014. Ele é um político jovem que vai
se dedicar daqui para a frente a assumir um papel de oposição”

ISTOÉ -O que representa a vitória da Dilma Rousseff?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -A primeira observação é bastante óbvia. A eleição de Dilma significa o apoio à continuidade do governo Lula. Ela foi a candidata de uma coligação partidária que é a base de apoio do governo e pessoalmente indicada pelo presidente como sua sucessora. Mas há uma especificidade nessa vitória: o fato de ser a primeira mulher presidente do Brasil, embora já tenha ocorrido em outros países europeus e latino-americanos, para nós é uma grande novidade. Ela terá um peso muito grande sobre si. Será cobrada como presidente e como mulher.

ISTOÉ – O fato de Dilma ser mulher embute uma cobrança maior?
MARIA VICTORIA BENEVIDES – Sim. A política brasileira não é apenas muito machista, mas também personalista. A própria Dilma, quando candidata, sempre se referiu a isso. Lula dizia que não podia errar por ser um operário, pau-de-arara, um nordestino de origem pobre que chegou a presidente do Brasil. Não podia errar e trair a confiança de todos que votaram nele e se identificaram com ele. Dilma, por sua vez, não poderá errar pelo fato de ser a primeira mulher

ISTOÉ -Mesmo representando o continuísmo, Dilma terá luz própria?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -Como já tem há muito tempo. É bom lembrar que Dilma não tem um passado na história do PT, por exemplo. Ela era do PDT de Leonel Brizola. Foi graças a sua luz própria, e não a uma rede de apoio partidário, que ela chegou à posição importante de ministra de Minas e Energia e depois à Casa Civil. Sua capacidade de ação e reação também foi demonstrada no enfrentamento de uma grave doença. O fato de ter chegado até aqui com essa garra e disposição, com excelente desempenho nos debates, é extremamente promissor. Mesmo substituindo uma liderança tão forte como a de Lula.

ISTOÉ -A sra. acha que o presidente, assim que passar a faixa presidencial, deve se retirar da cena política?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -Acho que Lula deve ser retirar sim, inclusive por respeito à presidente eleita e às regras republicanas e democráticas. Ele não pode ser uma sombra para a presidente. Lula terá ainda algum tempo na Presidência para fazer a transição da melhor maneira e, evidentemente, discutir com ela temas cruciais que serão herdados naturalmente. Há uma lista grande: reformas política, tributária, fundiária e agrária, toda a problemática do desenvolvimento sustentável e o agronegócio, assim como a revisão do processo de nomeação de novos membros do Supremo Tribunal Federal e o enfrentamento do poder hegemônico e sem controle dos meios de comunicação de massa.

ISTOÉ -Dilma terá condições de aglutinar os partidos para a aprovação das reformas?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -As reformas não foram feitas porque o presidente Lula fosse contra seu conteúdo, mas porque eram mais difíceis na correlação de forças. O Lula não tinha a maioria que o novo governo terá no Congresso. Sua personalidade também é diferente, baseada na negociação e conciliação. Dilma deverá fugir do estilo de conciliação do presidente Lula, será mais favorável ao encaminhamento das reformas. Ela tem uma excelente relação com o PT. Não tem ligações com grupos envolvidos em disputas políticas. O papel dela será extremamente importante. Mas a sua equipe, o ministério e seu conselho político deverão ter um peso especial para redirecionar, de certa forma, a relação do Executivo com o Legislativo.

ISTOÉ -O PT, que agora é maioria na Câmara, terá mais responsabilidade nessa tarefa?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -O partido certamente tem a obrigação de dividir com o presidente essa responsabilidade. Mas temos de lembrar que programa de um partido é uma coisa e programa de governo, outra. E isso terá que ser muito bem avaliado. Mas confio que o partido terá esse bom-senso, ainda mais porque as lideranças partidárias sabem perfeitamente que não ganharam sozinhas a eleição. Fizeram alianças e coligações. Vale lembrar que o Brasil é uma federação, em que o peso dos Estados conta e o resultado eleitoral mostra um mapa diferenciado de adesão à candidatura vitoriosa.

ISTOÉ -Diante do resultado fraco nas eleições, qual o caminho para a oposição? PSDB e DEM devem ficar unidos?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -Durante os oito anos do governo FHC, eles estiveram unidos. Essa aliança se repetiu agora, e é muito forte em São Paulo, Minas e alguns Estados do Nordeste e do Sul. Então, vejo PSDB-DEM como uma unidade, o que lamento. Acho que seria importante para o Brasil ter uma oposição crítica, que fiscalize e controle, e uma social-democracia autêntica, o que infelizmente não temos. A oposição vai partir para uma linha mais aguerrida e vai dar muito trabalho dentro e fora do Congresso. Essa oposição pode ter perdido as eleições, mas não perdeu necessariamente seu espaço na sociedade. Com raríssimas exceções, toda a chamada grande imprensa apoiou a candidatura PSDB-DEM.

ISTOÉ -Aécio Neves tem a capacidade de circular não só na oposição, mas também entre os partidos governistas Qual será o papel dele a partir de agora?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -Aécio é um nome natural para 2014. É um candidato que já demonstrou que tem em primeiríssimo lugar a sua carreira pes soal. Haja visto seu comportamento durante todo o primeiro turno das eleições presidenciais, quando não participou da campanha de José Serra. Tanto por sua própria vontade como por seus desacertos com o Serra e a cúpula paulista do PSDB. Vejo o ex-governador Aécio como um político jovem que vai se dedicar daqui para a frente a assumir um papel de oposição a outro político jovem que se destacou muito nessas últimas eleições, que é o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Quer dizer, temos de um lado o neto de Miguel Arraes e de outro o neto de Tancredo Neves, como jovens políticos que têm o objetivo legítimo de se candidatar aos cargos mais elevados.

ISTOÉ -Eles representam uma nova forma de fazer política ou reproduzem a tradição de seus avós?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -Isso eu não saberia dizer. Pelo que conheço de Arraes e Tancredo, nenhum de seus netos tem o mesmo estilo de fazer política, simplesmente porque o Brasil e o mundo mudaram muito. É claro que o nome da família continua forte, mas o aproveitamento é só dessa tradição.

ISTOÉ -Aécio, Eduardo Campos e a própria Dilma se destacam pela boa gestão. Estamos diante de uma nova geração de políticos com perfil mais técnico?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -Se for isso, eu lamentarei muito. Porque um político, ainda mais num cargo executivo elevado, como presidente da República ou governador de Estado, não é principalmente um gestor. Ele tem que ter uma equipe que seja competente, eficiente e moderna, para melhor aproveitar os recursos materiais e humanos disponíveis. Mas o político, acima de tudo, é político. Tem o compromisso com o interesse público em torno de princípios e principalmente na definição de prioridades. Costumo dizer a meus alunos que se votar para presidente, para governador, para prefeito se resumisse na escolha do melhor gerente, não precisaríamos de uma eleição, mas de um concurso público.

ISTOÉ -Com os 20 milhões de votos obtidos no primeiro turno, Marina Silva se consolida como alternativa política para o futuro?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -Não. Política é muito mais do que um nicho eleitoral. Ela tem uma história de vida maravilhosa, tem compromisso ético e agregou muito ao debate com a questão ambiental. Mas em termos de grande política, seu programa é claramente insuficiente, assim como sua agilidade política para perceber quando e como agir. Considero, por exemplo, bastante ruim, do ponto de vista político, ela não ter definido uma posição para o segundo turno. Fica muito difícil entender essa posição de neutralidade. Isso não existe na política.

ISTOÉ -É viável o retorno do presidente Lula em 2014?
MARIA VICTORIA BENEVIDES – Nenhum presidente saiu do governo com um apoio de 80% da população. Então, é perfeitamente legítimo que haja a proposta de uma volta. Mas a nova presidente tem o direito de tentar a reeleição. E seria uma falta de respeito com Dilma extirpar radicalmente essa hipótese.

ISTOÉ -Considerando a guerra suja travada especialmente no segundo turno e as confusões em torno da Lei da Ficha Limpa, que lições se pode tirar da campanha?
MARIA VICTORIA BENEVIDES -No Brasil ainda há um subdesenvolvimento político muito grande, especialmente em termos de conscientização e entendimento do que é participar politicamente. Nossa democracia participativa ainda é muito incipiente, embora tenha dado um exemplo eloquente com a campanha da Ficha Limpa. Além disso, temos de entender o peso da religiosidade na mentalidade do brasileiro. PSDB e DEM se aproveitaram sordidamente dessa religiosidade do povo brasileiro e uma parte da Igreja Católica se comportou de maneira ignóbil. Temas de foro íntimo, de moral privada e de religião não podem ser explorados politicamente nas campanhas eleitorais. O aborto, por exemplo, é uma questão de saúde pública.

Por Istoé

 
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A sociedade da informação, que poderia facilitar o convívio entre grupos sociais, é também a sociedade do medo e do afastamento. como isso aconteceu?

Após estacionar, Pedro aciona o alarme com travas automáticas de seu carro. Antes de iniciar a caminhada, contudo, checa cuidadosamente se todas as portas realmente estão fechadas. Do outro lado da cidade, sua esposa, Mariana, dirige com os vidros fechados, apesar do calor e do sol forte que elevam a temperatura interna do carro e derrubam sua pressão arterial. No veículo ao lado, também no trânsito, Fernanda pensa em um novo trajeto para retornar do trabalho para casa, pois não utiliza o mesmo caminho por três dias seguidos. No mesmo horário, durante uma das poucas oportunidades em que decide sair de casa para uma caminhada, seu vizinho Paulo atravessa para o outro lado da rua ao perceber que atrás dele vem um rapaz de mochila e pele morena, em passos apressados. Fábio nota que o morador local mudou de calçada porque percebeu sua aproximação e sente algo como uma mistura de chateação e revolta, mas segue o caminho de cabeça baixa. Apenas até notar a presença de uma viatura na próxima esquina. Apesar de não ter cometido qualquer infração, Fábio sente-se incomodado e acredita que os policiais vigiam todos os seus passos. Na realidade, porém, Adilson e Roberto estão preocupados com suas famílias, pois sentem que deixam esposas e filhos à mercê da sociedade para atender os chamados do trabalho como PM e os bicos como segurança particular.
As descrições acima podem parecer o roteiro para uma epidemia de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) ou de síndrome do pânico, mas são relatos factíveis de cenas cotidianas em grandes cidades brasileiras. Mais do que um tema presente e dominante em palanques e veículos de imprensa, a segurança pública é uma preocupação importante para a sociedade, chegando ao nível de influenciar condutas e costumes sociais, além de gerar implicações em outras áreas e ampliar problemas como a segregação social e o preconceito.

Apesar dos discursos políticos e da preocupação (ou paranoia) social relacionada ao assunto, os dados sobre segurança pública mostram que as condições têm piorado ao longo dos anos. Segundo a pesquisa IDS 2010 (Indicadores de Desenvolvimento Sustentável), divulgada no início de setembro pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de homicídios no Brasil cresceu 32%, em 15 anos. Assim, o índice de mortes por 100 mil habitantes subiu de 19,2, em 1992, para 25,4, em 2007.

Esse é o tipo de tendência confirmada por números, mas percebida com antecedência no dia a dia pela população em todas as faixas de renda e classes sociais. A percepção coletiva de um sentimento de medo é compartilhada por todos, com mudanças relacionadas ao objeto causador desse sentimento, de acordo com o grupo social em que o indivíduo está inserido. Assim, dentro do cenário proposto no início desse texto, enquanto um personagem como Paulo, morador de um bairro de classe média, sente-se acuado pela simples presença de uma pessoa mais pobre, o trabalhador que mora em um bairro de periferia, como Fábio, está socialmente condicionado a manter distância dos policiais, que por sua vez temem pela segurança da família e do emprego.

Violência: Preocupação e problema social.

Pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP, a socióloga Cristina Neme apresenta uma avaliação sobre a tendência de aumento na “preocupação coletiva” relacionada à segurança. “No Brasil, a criminalidade violenta encontrase no centro do debate público, dados os patamares elevados atingidos devido a uma tendência de crescimento que atravessou duas décadas. Os crimes contra a pessoa são o grande fator de insegurança da população e representam o ápice das violências que afetam a sociedade em um contexto de grandes desigualdades sociais”, afirma em trabalho sobre o assunto.

Dentro dessa concepção, a cientista social Maria Stela Grossi Porto, professora da Universidade de Brasília com pós-doutorado em sociologia, destaca as representações sociais da violência. “A violência é entendida por meio dos fatos da violência, exemplo, um homicídio, um corpo no chão, o sangue na calçada, mas são também as representações sociais dessa violência. Além disso, representações sociais não são racionais ou irracionais, embora respondam, certamente, por uma lógica e uma racionalidade que as constituem em objeto do conhecimento”.

“No Brasil, a criminalidade violenta encontra-se no centro do debate público, dados os patamares elevados atingidos devido a uma tendência de crescimento que atravessou duas décadas. Os crimes contra a pessoa são o grande fator de insegurança da população e representam o ápice das violências que afetam a sociedade em um contexto de grandes desigualdades sociais”
Cristina Neme, socióloga e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP
Essas representações também são relevantes, historicamente, para a construção do modelo de combate à violência instalado na sociedade. Segundo o cientista político Álvaro Oxley Rocha, o Brasil sempre foi carente de políticas públicas para segurança. “Nossa formação social se deu pela construção dos interesses das nossas elites sociais, que se preocupavam, no máximo, em proteger seu patrimônio.

Segurança coletiva nunca foi uma preocupação, quanto mais uma prioridade”, avalia Rocha, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Na mesma linha, André Gaio, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora com mestrado em ciência política e doutorado em História do Brasil critica a falta de fundamentação teórica para o planejamento de ações na área de segurança pública. “Quando as ‘políticas públicas’ procuram se fundamentar em alguma escola criminológica, como no caso de Minas Gerais, escolhem os princípios conservadores da teoria das atividades de rotina, que culpa em grande parte a vítima por ter sido agredida, além de achar uma bobagem procurar as causas da violência”, declara Gaio.

Repressão ou reinserção?
A partir da compreensão de que as políticas públicas de segurança no Brasil carecem de fundamentação e se voltam principalmente para a proteção do patrimônio, é mais fácil entender também a construção do sistema penal. Segundo Gaio, a estrutura das polícias e dos demais instrumentos de segurança está voltada para a repressão. “A ênfase, de fato, é no trabalho repressivo. Política alguma pode funcionar se, na ponta, onde estão os policiais, não houver uma renovação completa”.

Dentro dessa construção, as representações e a origem social das pessoas envolvidas em casos de violência são determinantes para seu encaminhamento, como avalia a socióloga e advogada Débora Pastana. “No Brasil, as respostas à criminalidade consistem, em sua grande maioria, em penas severas, traduzidas na ausência do respeito às garantias constitucionais e no recurso amplo ao encarceramento. Nessa linha, nossos governos democráticos contemporâneos frequentemente adotam uma posição punitiva que visa reafirmar a aptidão do Estado em punir e controlar a criminalidade”.

A opinião de Oxley Rocha reforça esse entendimento. Segundo ele, a atitude histórica das autoridades estatais não mudou. Por isso, o prognóstico do cientista político é pouco otimista com relação a uma possível mudança na postura de tratar apenas superficialmente a questão da segurança pública. “A tendência é atender cosmeticamente ao problema, especialmente porque soluções reais e duradouras demandam ações coerentes, interdisciplinares, e não apenas ações de guerra, como parecem tão fáceis a alguns. Se a truculência repressora resolvesse, o problema não mais existiria”, resume.

“A violência é entendida por meio dos fatos da violência: um homicídio, um corpo no chão, o sangue na calçada, mas são também as representações sociais dessa violência. Além disso, representações sociais não são racionais ou irracionais, embora respondam, certamente, por uma lógica e uma racionalidade que as constituem em objeto do conhecimento”

Sistema Carcerário
No clássico “Vigiar e Punir”, o filósofo Michel Foucault analisa as mudanças no tipo de punição aplicada às pessoas consideradas culpadas, com o progressivo desaparecimento dos suplícios entre o final do século 18 e início do 19. “Nessa transformação, misturaram-se dois processos. Não tiveram nem a mesma cronologia nem as mesmas razões de ser.
De um lado, a supressão do espetáculo punitivo. O cerimonial da pena vai sendo obliterado e passa a ser apenas um novo ato de procedimento ou de administração. […] O desaparecimento dos suplícios é, pois o espetáculo que se elimina; mas é também o domínio sobre o corpo que se extingue”.

Dessa forma, o autor chega a uma questão central de sua obra e cita o exemplo da guilhotina como máquina inventada para uniformizar as penas de morte em um procedimento sem dor. “Quase sem tocar o corpo, a guilhotina suprime a vida, tal como a prisão suprime a liberdade, ou uma multa tira os bens. Ela aplica a lei não tanto a um corpo real e susceptível de dor quanto a um sujeito jurídico, detentor, entre outros direitos, do de existir. Ela devia ter a abstração da própria lei”.

Para ele, a descoberta do corpo como objeto e alvo do poder, no século XVIII, deu início às tentativas de manipulação, treinamento e adequação, que possibilitaram o fortalecimento das instituições disciplinares, chamadas por Erving Goffman de “instituições totais” e definidas como “um local de residência e trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separado da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, leva uma vida fechada e formalmente administrada”.

Segundo Goffman, qualquer grupo de pessoas enclausuradas nesses lugares desenvolve regras próprias que permitem o convívio. “Acreditava, e continuo a acreditar, que qualquer grupo de pessoas – prisioneiros, primitivos, pilotos ou pacientes – desenvolve uma vida própria que se torna significativa, razoável, e normal, desde que você se aproxime dela”.

Assim, as prisões são entendidas, ao menos teoricamente, tanto como locais de punição quanto de adequação e reinserção, de controle do corpo. Contudo, há que se pensar sobre as regras próprias criadas dentro dessas instituições para evidenciar se estão conseguindo o efeito esperado.

Questão de saúde?
Além das questões sociais ligadas a desigualdade, pobreza e exclusão, a problemática da violência passa também por um aspecto normalmente associado apenas às ciências da saúde: o consumo e a dependência de substâncias psicoativas, que podem ser consideradas um fator que, se não é o único responsável, facilita ou desencadeia comportamentos violentos que redundam em crimes como agressões e homicídios, entre outros. Divulgada em agosto de 2010, uma pesquisa coordenada pelo professor de Sociologia da PUC-MG, Luis Flavio Sapori, mostrou que, dez anos após a chegada do crack em Belo Horizonte, a proporção de homicídios motivados por questões ligadas a drogas ilícitas quadruplicou. Se até 1996, quando a droga era dificilmente encontrada na cidade, as mortes provocadas por conflitos que envolviam drogas representavam 8,3% do total, em 2006 esse número foi para 33,3%. Assim, apesar da redução nos números gerais de homicídios, houve crescimento absoluto do número de mortes motivadas pelo crack. Outra experiência com dados interessantes sobre a relação entre violência e consumo de substâncias que afetam o sistema nervoso central aconteceu na cidade de Diadema, na Grande São Paulo. Conhecido por altos índices de violência e criminalidade, o município implantou em julho de 2002 uma lei que regulou a abertura de bares entre 23h e 6h. Desde então, foram evitados 11 homicídios por mês, segundo levantamento da Universidade Federal de São Paulo. O caso foi apresentado como exemplo positivo em um congresso da ONU em 2005. Segundo os especialistas da área, todas as drogas podem gerar dependência química, doença que se instala no sistema nervoso central e que precisa de tratamento especializado. Caso contrário, a pessoa que desenvolveu a patologia perde progressivamente a possibilidade de autodeterminação e fica exposta a um comportamento mais agressivo do que o habitualmente apresentado.

“Em um primeiro momento, a aproximação das forças policiais da comunidade, funciona como paliativo, como forma de promover a cidadania, ao integrar comunidades abandonadas, na verdade nunca assumidas, como parte do Estado. É uma iniciativa válida e, começando por ela, pode-se ir muito longe”
Álvaro Oxley Rocha, cientista político e professor da PUCRS

Entrevista exclusiva
Berenice Gianella é presidente da Fundação CASA, criada em São Paulo para atendimento dos adolescentes menores de 18 anos em conflito com a lei, no lugar da antiga FEBEM (Fundação para o Bem-Estar do Menor), que estava mais próxima às prisões tradicionais do que a estabelecimentos focados no atendimento qualificado de crianças e adolescentes. Desde 2006, a reestruturação, que se baseou na descentralização, parcerias com sociedade civil e capacitação dos pro ssionais, apresentou resultados promissores, como a redução na reincidência, que foi de 29% para 12,8%, e a redução do número de rebeliões, saindo das 53 de 2005 para apenas uma em 2009. Leia abaixo entrevista exclusiva concedida por Berenice.

Do ponto de vista teórico, como podem ser compreendidas as políticas públicas de segurança no Brasil? Nossa estrutura está organizada de forma repressora ou “educativa”?
É um modelo repressor, mas falho. O principal problema das políticas de segurança é que falta uma articulação nacional em torno do tema. Hoje, pelas fronteiras brasileiras, armas e drogas entram com facilidade. Isso é a raiz de alguns problemas que atormentam a sociedade. Um deles é o tráfico de drogas, que cada vez mais tem penetrado em nossa juventude. O outro é a fácil aquisição de armas ilícitas, o que facilita a ação de criminosos. É necessário que o Governo Federal corrija estas distorções, fazendo com que as fronteiras sejam patrulhadas. Do ponto de vista dos Estados, como São Paulo, hoje o modelo caminha para uma integração maior das políticas com a comunidade e a sociedade civil, como tem acontecido aqui, especificamente na Fundação CASA. É necessária também a criação de políticas e diretrizes nacionais de prevenção, para impedir que as crianças e jovens sejam cooptados pelo crime.
Qual sua avaliação sobre as propostas de aproximar as forças policiais do dia a dia da comunidade em que ela está inserida?
A aproximação com a comunidade e a sociedade civil é fundamental tanto para a prevenção da violência quanto para o fortalecimento do papel do Estado. No campo sócio-educativo, que trata da reinserção social de adolescentes em conflito com a lei, isso é fundamental para possibilitar que os jovens, ao saírem das instituições, consigam oportunidade de trabalho e de educação. Atualmente, temos exemplos de vários adolescentes que conseguiram inserção o mercado de trabalho depois de deixarem as unidades da Fundação CASA. E isso graças a um trabalho conjunto da Fundação com parceiros da sociedade civil e empresas.

Quais mudanças, promovidas desde o início da Fundação Casa, ocupando o espaço da antiga FEBEM, merecem maior destaque?
As principais mudanças podem ser resumidas em três fatores, que são interdependentes: descentralização do atendimento, com a construção de unidades pequenas (com capacidade para 56 adolescentes); atendimento do jovem próximo da família, em sua cidade ou região de origem, o que foi possível graças à descentralização; e capacitação dos funcionários da Fundação CASA para uma nova filosofia de trabalho, que contempla um atendimento individualizado e humanizado. Estes são os conceitos que têm norteado a mudança institucional nestes últimos cinco anos. Além do trinômio, outro fator importante foi a adoção de uma política de parcerias com entidades da sociedade civil, que hoje administram 28 unidades da Fundação CASA e desenvolvem uma série de projetos nas áreas esportivas, culturais e de educação profissional. Foi a soma destes fatores que possibilitou uma redução drástica nas taxas de reincidência, que eram de 29% em 2006 e estão hoje na casa de 12,8%. As rebeliões também caíram significativamente foram 80 em 2003, na época da antiga FEBEM, contra uma no ano passado.

A senhora acredita que a formação e capacitação dos profissionais da Fundação Casa são adequadas às funções desempenhadas no cotidiano de trabalho?
Sim, em que pese sempre seja necessário inovar, porque as demandas apresentadas pelos jovens em atendimento têm características culturais que estão sempre em alteração.

O mesmo acontece com as polícias no estado de SP?
Embora eu não seja da área policial, no que tange às polícias paulistas, é notória a melhoria de qualidade no trabalho nos últimos anos e os investimentos feitos pelo Governo do Estado em treinamento e capacitação.

Em sua avaliação, quais pontos ainda precisam ser melhorados e podem ser considerados como vulnerabilidades na constituição atual da Fundação?
As questões estruturais, que estão no trinômio: descentralização, atendimento próximo da família e capacitação dos funcionários estão postas. O que precisamos avançar agora é no enraizamento destas mudanças, aprofundando, sempre, os trabalhos de capacitação dos funcionários. É necessário, também, começar a pensar o problema do adolescente em conflito com a lei na ótica da prevenção. Hoje, no Brasil, investe-se quase nada em programas que impeçam que os jovens entrem para a criminalidade. Seria mais produtivo que o País aplicasse dinheiro público em ações concretas de prevenção do que em unidades de internação de adolescentes. Embora nosso trabalho aqui em São Paulo seja referência nacional hoje no atendimento sócio-educativo, posso dizer que é muito mais difícil trabalhar com um adolescente que já infracionou do que com uma criança que pode ser resgatada antes de entrar para o mundo do crime.

Um Caso dramático
Todos os anos, no Estado de São Paulo, o segundo fim de semana do mês de maio é marcado por movimentação intensa nas ruas. Desde o fim de tarde de sexta-feira até a noite de sábado, os centros comerciais recebem um número de pessoas consideravelmente superior à movimentação normal. No domingo, cada família procura seguir uma tradição: almoço preparado pelo homem da casa ou em algum restaurante, como forma de privar as matriarcas de seu trabalho rotineiro na cozinha. O dia das mães costuma representar um momento de tranquilidade e alegria.

No ano de 2006, contudo, o que se viu no Estado mais rico do País foi um cenário bastante diferente. Foi no fim de semana do dia das mães que começou a movimentação organizada pelo grupo criminoso conhecido como PCC – Primeiro Comando da Capital. Na tarde da sexta-feira, dia 12 de maio de 2006, detentos das penitenciárias de Avaré e Iaras se rebelaram e deram início a processos semelhantes em outros locais. No domingo, 14 de maio de 2006, durante o dia das mães, 24 presídios estavam sob controle de seus internos e uma série de ataques acontecia fora das cadeias. Segundo balanço divulgado pelo governo de São Paulo, 82 ataques a ônibus, 56 a casas de policiais e 17 a agências bancárias ou caixas eletrônicos foram registrados, totalizando 293 ocorrências. No dia seguinte, alguns boatos sobre atentados contra universidades, escolas e centros de compras desencadearam uma reação coletiva de pânico que paralisou toda a Grande São Paulo. Empresas e repartições públicas dispensaram seus funcionários mais cedo e escolas liberaram alunos. As principais ruas e avenidas da capital, que normalmente têm horário de pico a partir das 17h, já estavam intransitáveis às 16h. A rede de telefones celulares ficou congestionada, o que também gerou boatos sobre uma ação do PCC contra as operadoras de telefonia móvel. Ao escurecer, as ruas de São Paulo, conhecida como a cidade que não para, estavam desertas.

No dia 15 de maio de 2006, quem precisou se deslocar após as 20h na grande São Paulo sentiu-se em um ambiente de guerra. Além das ruas vazias, o contingente policial ostentava, à frente das delegacias e demais unidades da corporação, armas de grosso calibre, usadas para intimidar e “responder” aos ataques contra policiais ocorridos durante o final de semana. Mas o “contra-ataque” foi além da ostentação de armamento. A reação da polícia entre os dias 12 e 21 rendeu um saldo de 493 mortes, na soma de civis e policiais.

Segundo um levantamento do jornal Folha de S. Paulo, com base nos documentos da Ouvidoria da Polícia, que fiscaliza as polícias Civil e Militar, aconteceram 102 casos em que policiais foram suspeitos de matar 170 pessoas. Do total, 89 foram vítimas de 54 atentados com “características de execução” (sem chance de defesa para a vítima). Contudo, em 2009, três anos após os ataques e a reação da polícia, 61% desses casos foram arquivados sem atribuição de autoria. No balanço, a quantidade de casos esclarecidos foi maior quando a vítima era Policial. Das 24 ocorrências, foram apontados autores em 16 e nenhuma foi arquivada.

Propostas e mudanças
Como formas de qualificar a gestão e deixar a atuação apenas repressora das polícias, duas propostas são amplamente discutidas pela sociedade, mas talvez sem análises suficientemente aprofundadas sobre suas possibilidades práticas nas diversas realidades do Brasil. Para melhorar a gestão, fala-se em unificação das polícias civil e militar; para sair da postura de repressão e proteção patrimonial, algumas ideias são reunidas sob o conceito genérico de “polícia comunitária”, que inclui estratégias de aproximação entre as forças policiais e as classes sociais tradicionalmente condicionadas a sentir-se ameaçadas por elas.

Esse tipo e ação é elogiado pelo professor da PUCRS. “Em um primeiro momento, a aproximação das forças policiais da comunidade, funciona como paliativo para promover a cidadania, ao integrar comunidades abandonadas, na verdade nunca assumidas, como parte do Estado. É uma iniciativa válida e, começando por ela, pode-se ir muito longe”, analisa Álvaro Oxley Rocha.

Por sua vez, o professor André Gaio é cético com relação ao tema. “A polícia comunitária não existe. Dificilmente haverá polícia próxima da comunidade. A lei de responsabilidade fiscal, inclusive, está determinando que as cidades pequenas tenham que arcar com os custos do policiamento. Em futuro próximo apenas haverá efetivo policial (civil e militar) para cidades médias e grandes”.

De certa forma, a opinião de Rocha é complementar ao pessimismo do colega. “A população precisa ser educada para conviver com os agentes do Estado, mas os agentes do Estado, no Brasil, também precisam ser educados para a realização do bem comum, a que se destina o dinheiro público. Se for abandonada à própria sorte, como costuma acontecer entre nós, mesmo iniciativas louváveis como essa serão tragadas pela corrupção, que resulta da falta das políticas de educação e de renda”, declara.

Sobre a unificação das polícias, os especialistas têm avaliação parecida. Para Oxley Rocha, “a irracionalidade administrativa brasileira se manifesta de muitas maneiras, uma delas é a sobreposição de funções públicas, como no caso de duas polícias, além das Polícias internas das Forças Armadas, e Polícias Municipais”. Por sua vez, André Gaio acredita que a proposta tem motivações de ordem técnicoadministrativa e operacional, “mas dificilmente encontramos lugares em que funcione um trabalho coordenado entre as duas polícias. As rivalidades entre as mesmas ainda são insuperáveis e o trabalho de ambas, com raras exceções, são muito ruins”, comenta.

“No Brasil, as respostas à criminalidade consistem, em sua grande maioria, em penas severas, traduzidas na ausência do respeito às garantias constitucionais e no recurso amplo ao encarceramento. Nessa linha, nossos governos democráticos contemporâneos frequentemente adotam uma posição punitiva que visa reafirmar a aptidão do Estado em punir e controlar a criminalidade”
Débora Pastana, socióloga e advogada

Referências
CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em Ssão Ppaulo. São Paulo: Editora 24, 2000.
COSTA, Ivone Freire. Polícia e Sociedade – Gestão de Segurança Pública: Violência e Controle Ssocial. Salvador: Edufba, 2007.
FAUSTO, Boris. Crime e cotidiano. São Paulo: Edusp, 2001.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes. 36 ed., 2007.
GOFFMAN, Erving. Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Perspectiva, 2003.
Por Revista de Sociologia

 
Comentários desativados em A sociedade da informação, que poderia facilitar o convívio entre grupos sociais, é também a sociedade do medo e do afastamento. como isso aconteceu?

Publicado por em 06/11/2010 em Uncategorized

 

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