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Consumidor brasileiro

02 dez

No livro Raízes do Brasil, Sergio Buarque de Holanda dedicou o capítulo “O Homem Cordial” a esmiuçar a alma do brasileiro. O texto é claro mas pouco compreendido por muitos leitores, que deram ao título um sentido mais profundo. Mais do que bom, o brasileiro cordial é na verdade movido pela emoção, sentido presente no significado latino de cordial: cordis, ou coração.
Essa característica não nos trouxe necessariamente bons ventos e muitas vezes tornou tênues as fronteiras entre o público e o privado, entre o pessoal e o profissional, já que a afetividade mistura sintonias que deveriam seguir separadas. O ensaio, escrito em 1936, ainda reflete muito da identidade brasileira e inclui a faceta hospitaleira de um povo que prioriza as relações pessoais. Essa afetividade definiu a intimidade como uma característica brasileira por excelência, com nuances diferentes em cada região brasileira, podendo ser percebida como invasiva e inconveniente, dependendo do interlocutor.
Nos últimos anos o brasileiro mudou muito. Porém, em sua faceta cordial, está ainda mais emocional, pressionado pela insegurança da violência dos grandes centros e dos eventos ambientais, como as enchentes. Sensíveis ao que está acontecendo, algumas empresas deflagraram campanhas para melhorar as relações no trânsito e condomínios residenciais, espaços em que a tensão e a queda da amistosidade têm se mostrado mais freqüentes. Todo processo de mudança tem diferentes perspectivas, estimulantes ou desafiantes, mas em todas elas o brasileiro torna-se cada vez mais multifacetado.
Pluralidade reflete a realidade brasileira em todos os seus aspectos e consequências. É um país de grandes proporções territoriais e populacionais, porém apresenta baixa densidade demográfica, com 22 hab/km2, enquanto países como o Japão com 337 hab/km2. Algumas regiões são habitadas no limite da boa convivência, como o Sudeste, com 42,3% da população brasileira distribuídos em 10,6% do território nacional; e outras como o Norte, com 8% da população habitando 45,2% do solo brasileiro. De um lado o excesso de moradias e a intimidade que já caracteriza a população são exacerbados, tornando as relações mais emocionais e tensas. De outro, a solidão de quilômetros desabitados provoca isolamento e abandono.
As mudanças da sociedade brasileira são substanciais e refletem um povo que encontra-se em plena transformação estrutural no que se refere às relações familiares, de acesso e consumo. Uma dessas mudanças refere-se à movimentação de riqueza entre as regiões. A segunda posição no quadro econômico brasileiro, alcançada recentemente pela região Nordeste, capitalizada pelo crescimento da classe C e benefícios governamentais, terá ainda maiores desdobramentos nos próximos anos. No estudo Brasil Sustentável, da consultoria Ernst & Young, a Fundação Getulio Vargas estima que essa região irá liderar o crescimento nacional até 2030, atraindo ainda mais riqueza, ampliando o acesso ao consumo e estimulando novos movimentos migratórios rumo à região.
Um paradoxo brasileiro interessante é que, apesar do país ter um déficit habitacional de 7,8 milhões de domicílios, o número de famílias cresceu menos que o de domicílios brasileiros a partir de 1970. Essa defasagem mostra que o problema afeta com mais gravidade as famílias com menores rendimentos e que nos segmentos mais afluentes o país apresenta um contingente importante de pessoas morando sozinhas, famílias menores e casais sem filhos.
As transformações na sociedade ocasionadas pelas mulheres, por sinal, são pungentes, à medida que capitaneiam US$ 700 bilhões do total de US$ 1,1 trilhão do consumo direto e indireto brasileiro. Isso mostra que as mulheres não consomem as categorias estereotipadas como femininas e influenciam o consumo como um todo. Em especial na base da pirâmide, em que a participação feminina chega a 41% do total da renda familiar, contra os 25% da classe A. O estereotipo do que é consumo feminino tem levado à insatisfação das mulheres com alguns segmentos que ainda não se conscientizaram da importância da mulher na decisão de compra dos produtos. Talvez porque a participação da mulher no nível executivo das empresas ainda seja um desafio a ser vencido.
Os 7,2 milhões de pessoas que moram sozinhas no Brasil representam 12% dos domicílios brasileiros. Mas a primeira coisa que temos que notar é que não se trata de um grande grupo homogêneo. Ao contrário, há perfis muitos diferentes, como os jovens que saem de casa para estudar em outra cidade; os separados; a terceira idade; e, em comum, as mulheres são maioria. Há outros aspectos interessantes sobre as pessoas que moram sozinhas: são mais da classe A/B, estão mais concentradas nos grandes centros urbanos e São Paulo é a cidade que mais abriga pessoas que moram sozinhas. Esse grupo também apresenta grande oportunidade para serviços que facilitem a vida de pessoas que pela idade ou pela falta de tempo precisam suporte ou horários alternativos para reparos residenciais já que não tem ninguém em casa durante o horário comercial.
Os casais sem filhos totalizam 8,6% dos domicílios brasileiros e tornaram-se um segmento dos mais interessantes do ponto de vista de consumo. Nos Estados Unidos eles são identificados pela sigla DINK (Double Income No Kids), ou Rendimento Duplo Sem Filhos. Esses casais gastam mais dinheiro em lazer, entretenimento, indulgência, viagens e consumo pessoal, pois não possuem os compromissos gerados pelos filhos com educação e saúde.
Os jovens brasileiros também vivenciam um processo de mudança importante e, sob muitos aspectos, preocupante. Essa geração tem sido, de certa forma, superprotegida de um contexto social ameaçador pelos seus familiares e, ao mesmo tempo, relegada pela falta de tempo dos pais. O resultado identificado pelo Estudo MTV4 mostra um jovem que vê sua geração como vaidosa, consumista, acomodada, individualista, impaciente e estressada. Com isso, os jovens brasileiros permanecem jovens por mais tempo, adiando ao máximo a saída do ninho.
Além de permanecer jovem por mais tempo, o brasileiro agora vive mais e o envelhecimento da população brasileira oferece perspectivas enormes. Em 1950 existiam 14,5 milhões de pessoas acima de 80 anos no mundo. Em 2050 serão 394,7 milhões no mundo e o Brasil terá mais pessoas acima dos 80 anos do que entre 20 e 24 anos, além de mais de 54 milhões de pessoas acima de 50 anos. Não é um nicho. O Brasil é um país jovem, porém da mesma forma que nos demais continentes, está envelhecendo, nesse processo ignorando que é necessário preparar uma infra-estrutura para tornar a vida mais fácil para esta população.
Temos agora não apenas a Terceira Idade, mas a Quarta Idade, que compreende os que estão entre os 80 e 100 anos, e os Centenários, que dispensam apresentações. É preciso conhecer mais as necessidades desses segmentos, já que esse é de certa forma um grupo ainda invisível do ponto de vista do consumo. Precisamos enxergar que há enormes contingentes de excluídos. Todos que não integram a média da população, termo que, quando associado a públicos-alvo, deveria ser excluído do universo de negócios.
Uma outra transformação brasileira, e tida como a maior, trouxe não apenas dinamicidade ao consumo, mas perspectivas de uma realidade próspera e, principalmente, dignidade. No início do Plano Real, em meados de 1994, o frango e o iogurte tornaram-se símbolo de acesso dos segmentos populares ao consumo. A chegada de 30 milhões de brasileiros à classe C nos últimos anos deflagrou a evolução do acesso, agora incluindo cartão de crédito, viagens de avião, planos de saúde, computador, casa própria, reforma da casa e automóvel.
A faceta plural da população brasileira leva a uma boa convivência com os paradoxos. De um lado o preço é um atributo relevante que orienta não apenas a dinâmica do segmento popular, mas toda a sociedade. De outro, o desempenho do segmento premium no Brasil é comparável e, sob muitos aspectos, supera países europeus. Superação e acesso são palavras chave na transformação do cenário brasileiro.
E acesso ao que irá mudar o Brasil de fato: educação. Esse é o passe de chegada ao “país do futuro”, à medida que a maioria dos jovens brasileiros está nas classes C, D e E. Com o surgimento de universidades privadas com baixas mensalidades, cada vez mais a educação será valorizada como o principal instrumento de ascensão social e melhoria da qualidade de vida.
Vivemos um novo Brasil, mais próspero, em que é possível um assalariado de nível executivo obter rendimentos anuais superiores a R$ 1 milhão e famílias de classe A e C terem acesso ao mesmo modelo de eletrodoméstico. E é estimulante saber que anos ainda mais prósperos deverão vir. Sob todos os aspectos e em todas as classes, haverá uma sofisticação do consumo brasileiro nos próximos anos. No final das contas, descobrimos que a chegada do homem cordial ao consumo é o que tornou o futuro um presente para o país.

Por Mundo Marketing/Beth Furtado

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Publicado por em 02/12/2010 em Uncategorized

 

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