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O Brasil entra numa fase, já vivida por países como Japão e Coréia, em que a demografia favorece a economia — mas governo e empresas precisam ajudar

03 dez

A melhoria consistente de alguns indicadores econômicos tem gerado prognósticos de que o Brasil finalmente estaria deixando para trás um longo período de marasmo para entrar numa nova fase de crescimento. Entre esses fatores positivos estão o controle da inflação e o equilíbrio das contas externas. Um estudo que acaba de ser finalizado pelo Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (NAE), ao qual EXAME teve acesso com exclusividade, mostra que o Brasil poderá contar também nas próximas décadas com um impulso para o desenvolvimento que normalmente não é considerado nas análises da economia. Trata-se de uma conjunção demográfica excepcionalmente favorável: até 2040, os brasileiros na faixa de idade mais ativa — entre 15 e 64 anos — alcançarão uma participação na população total e um número absoluto nunca antes vistos. Ao mesmo tempo, a proporção de jovens até 14 anos vai se reduzir e a quantidade de idosos com mais de 65 anos, que tende a aumentar progressivamente, ainda não será tão grande. Esse momento especial, que já foi desfrutado por países desenvolvidos, constitui uma janela de oportunidade que poderá ser aproveitada para avanços não só pelo governo como também pelas empresas — desde que se mexam para isso. “A importância dessa janela é que a força de trabalho crescerá mais rapidamente que a população dependente dela — as crianças e os idosos — e com isso haverá mais recursos para investimentos na economia e no bem-estar das famílias, elevando o consumo e a produção”, diz Oswaldo Oliva Neto, que até meados de junho chefiou o NAE.

Em qualquer país do mundo, é a população adulta que mais produz, poupa, investe, contribui com impostos e sustenta a Previdência. Jovens e idosos, ao contrário, tendem a consumir mais do que produzir. O Brasil está colhendo agora os frutos da queda de natalidade e do aumento da expectativa de vida, acelerados a partir dos anos 80. A isso se somam indicadores econômico-sociais bem superiores àqueles das décadas de 50 a 70, quando o país cresceu em padrões invejáveis, engatando a fase dos anos dourados do governo Juscelino Kubitschek à do milagre do início do regime militar. O Brasil de hoje é mais urbanizado, tem nível de alfabetização — embora de baixa qualidade — bem superior e melhores indicadores de saúde. Também conta com mais capacidade de trabalho. Em 1960, para cada 100 brasileiros em idade ativa existiam 83 crianças e velhos. Essa relação foi caindo ao longo dos anos e atravessará os próximos 30 anos nos menores níveis de todos os tempos. Em 2020, cada 100 brasileiros ativos deverão sustentar 48 pessoas fora da produção. Será uma vantagem e tanto para enfrentar de vez o problema do déficit da Previdência e prevenir-se para a década de 2040, quando, com o amadurecimento progressivo da população, a curva dos dependentes voltará a subir. Mas até nisso os demógrafos enxergam uma oportunidade. “Com a população cada vez mais envelhecida, haverá mais incentivo para os adultos acumularem poupança privada como forma de assegurar uma aposentadoria tranqüila”, diz o professor José Eustáquio Diniz Alves, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Isso também ajudará a sustentar o consumo de forma permanente.”

PARA QUE O POTENCIAL de benefícios se concretize, porém, serão necessárias políticas públicas adequadas. O NAE encomendou a um grupo de demógrafos um diagnóstico sobre as oportunidades e os desafios que a transição do perfil demográfico impõe. O principal desafio apontado é o país incorporar ao mercado de trabalho uma parcela considerável da população de baixa renda e ao mesmo tempo promover a mobilidade social. “O número de pobres cresce mais que o de ricos”, diz o demógrafo Fausto Brito, coordenador do estudo. As projeções mostram que 55% dos nascimentos nos próximos anos ocorrerão em famílias com renda inferior a um salário mínimo. Como a capacidade de poupança dessa fatia da população é quase nula, se não houver crescimento econômico e geração de empregos em quantidade suficiente, o cenário será desolador. “A crise social aumentaria e exigiria ainda mais recursos públicos para pagar a aposentadoria dessa população no futuro”, afirma Brito. Não existe mágica para sair dessa encruzilhada. O estudo do NAE engrossa o coro quanto à necessidade de reforçar os investimentos em educação e tomar medidas que facilitem o ingresso de novos trabalhadores no mercado, além da realização de uma nova reforma na Previdência. “É preciso reduzir os encargos trabalhistas e investir mais no ensino médio, principalmente no profissionalizante, para que o jovem entre no mercado de trabalho com uma profissão”, diz o economista Samuel Pessoa, chefe do núcleo de desenvolvimento econômico da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro.

As estratégias adotadas por Japão e Co réia do Sul para aproveitar o seu bom momento demográfico, décadas atrás, são bons exemplos para o Brasil. Ambos os países investiram em educação e no aumento da produtividade. O milagre japonês ocorreu entre as décadas de 60 e 80, justamente quando a população em idade ativa atingiu seu maior número, para depois entrar em forte ritmo de envelhecimento. O Japão contava com a vantagem de já ter uma boa base educacional, o que turbinou seu desenvolvimento. No auge daquele período, a taxa média de crescimento anual da economia japonesa chegou perto de 11%. O aumento da força de trabalho e do consumo doméstico ajudou a tornar as empresas competitivas e a ampliar as exportações. Foi uma fase de expansão e de ganhos de escala, por exemplo, das montadoras, como Toyota e Honda, e das fabricantes de produtos eletrônicos, como a Sony. Os coreanos, de certa forma, repetiram o caminho dos japoneses. “A Coréia, que tinha uma situação mais parecida com a do Brasil, investiu fortemente em educação a partir dos anos 60, o que ampliou a capacidade técnica da população e formou novos consumidores”, diz Marcus Campomar, professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo. Com isso, os coreanos souberam aproveitar seu bônus demográfico, que começou em meados dos anos 70 e deve durar até 2020.

Para as empresas brasileiras, a hora de colocar essa janela de oportunidade no planejamento é agora. “O futuro aponta para o aumento do consumo popular, com concorrência mais acirrada, e mais participação dos idosos no mercado, o que elevará a demanda por novos produtos e serviços”, diz o especialista em marketing Eugênio Foganholo. Grandes empresas perceberam essas mudanças, que já estão em curso. Alimentos funcionais, que combinam o aspecto nutricional com os benefícios para a saúde, são uma tendência crescente para a população mais madura. A Danone e a Nestlé estão reforçando essa linha no Brasil. A Johnson & Johnson, fornecedora de produtos de higiene para todas as faixas etárias, constatou que é preciso aumentar o acesso das classes de baixa renda a seus produtos. “Não vamos abandonar as classes A e B, cujo padrão de consumo deve se sofisticar, mas existe uma grande demanda nas classes C, D e E, e é lá que está o futuro do mercado”, afirma José Vicente Marino, presidente da J&J no Brasil. O mesmo ocorreu com a incorporadora Rossi Residencial, uma das maiores do país. Em junho ela anunciou a ampliação do lançamento de imóveis para a baixa renda. “Esse mercado está deslanchando e, com a queda dos juros e o aumento do prazo de financiamento, esperamos um forte crescimento da demanda”, diz Leonardo Diniz, diretor comercial da Rossi. A previsão é que a participação desse segmento no faturamento da empresa passe dos atuais 15% para 50% na próxima década. A janela de oportunidades, portanto, já está aberta.

Por Exame

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Publicado por em 03/12/2010 em Uncategorized

 

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