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There are more things between the Alemão and the asphalt than our vain media supposes

24 mar

Ônibus queimados e vias interditadas por conta de criminosos não são novidades nas noticias veiculadas a respeito da violência urbana no Rio de Janeiro: há pelo menos duas décadas esses eventos acontecem
1. Porém, em novembro de 2010, um fato até então inusitado ocorreu na cidade. Em resposta a onda de ataques (supostamente motivados pela instalação de novas Unidades de Polícia Pacificadora – UPP‟s, em comunidades controladas por traficantes), a polícia, com a ajuda das Forças Armadas, tomou de assalto o Morro do Cruzeiro e, posteriormente, um conjunto de favelas – o complexo do Alemão -, considerado, até aquela data, território livre do “crime organizado”.

O assunto dominou as manchetes e páginas dos jornais, as chamadas dos portais de notícia da internet e originou horas de cobertura televisiva. As ações foram mostradas como um grande êxito das autoridades que triunfaram sobre o tráfico de drogas. Contudo, o acesso da mídia nas áreas de conflito foi restrito, visto de pontos determinados pelas autoridades. Inclusive, o espaço aéreo do Morro do Alemão esteve fechado para helicópteros da imprensa. A mídia só subiu o morro depois de tudo já estar sob controle. No Alemão não houve
corpos nem sangue para serem mostrados.

Acabada as ações militares, uma onda de entusiasmo e ufanismo tomou conta de parte população. Era uma vitória da “ordem pública” sobre o “crime organizado” 2. A libertação de uma área antes dominada pelos traficantes de drogas foi vista com grande entusiasmo. Enfim, o clamor de justiça, de uma parcela importante da sociedade carioca, estava ganhando uma expressão coerente por parte da polícia. O Estado estava, finalmente, do lado do “cidadão de bem” que sempre quis se ver livre do crime e dos “marginais”.

O que quero tratar aqui são alguns pontos que, no meu entender, ainda parecem obscurecidos para a opinião pública. Meu objetivo é apontar possibilidades para a reflexão do que houve no Rio. Esta onda de entusiasmo não nos deixa refletir e questionar com um pouco mais de isenção e profundidade sobre o que não conseguimos ver durante toda “a Guerra do Alemão”. As perguntas iniciais que nos ocorrem são: Por que agora e não antes? Como a ação apresentada na mídia foi tão rápida e certeira? Tão eficaz na apreensão de armas e toneladas de drogas? Tão “higiênica”, sem derramamento de sangue e corpos pelas vielas do complexo do Alemão? Sem a imagem triste e já habitual da choradeira de mães e familiares de vítimas do conflito com as forças militares?

Vou, a seguir, discutir sumariamente alguns fatores a partir das evidências que tenho a mão. Minha principal hipótese aqui é que este êxito não pode ser creditado apenas a uma bem realizada ação tático-militar, ela também deve ser pensada como um bem sucedido ato político. Bem, por que agora e não antes? Uma pista é dada num bilhete encontrado num dos ônibus queimados no dia 24 de novembro: “se continuar as UPP‟s (Unidades de Polícia Pacificadora) não vai ter Copa e nem Olimpíadas” 3.

O governo federal tem investido muitos recursos em comunidades, em especial no Alemão, com vistas nesses dois eventos. O montante destinado às favelas cariocas foi de cerca de 2,4 bilhões de reais. O risco desse dinheiro se perder com a continuidade de traficantes truculentos operando na região eram demasiado alto. Além disso, as áreas de favelas do Alemão têm um potencial econômico enorme: só com o fim dos “gatos” (ligações clandestinas da rede elétrica) e a regulação do fornecimento de energia, estima-se um recolhimento anual de 200 milhões de dólares4.

Com o sucesso da retomada da área, o governo do Estado, em parceria com o governo federal, também já anunciou novos investimentos na ordem de 2,2 bilhões de dólares em comunidades no Rio (vinculadas ao PAC 2) 5. Fica claro que retomar o Alemão significou também abrir possibilidade de arrecadação e da iniciativa privada ganhar dinheiro, além de recuperar o investimento estatal que já havia sido feito6. Misse (2007) aponta que o aspecto da territorialização vinculada ao crime confere uma dimensão política ao fenômeno e “reforça estereótipos e estigmatiza importantes segmentos sociais do espaço urbano.

Por outro, passa a constituir efetivamente novas redes de sociabilidade, que emergem das relações de poder
que demarcam esses territórios”. Contudo, no caso em tela, essas redes de sociabilidade parecem ter sido esgarçadas com o tempo, o que gerou a legitimidade conferida pelos moradores da comunidade à ação armada do poder público.

Outro fator, também observado por Misse (2007), é que: “o „movimento’ (tráfico de drogas e seus lucros) diminuiu em muitas áreas, o que explica em parte o aumento dos assaltos, numa nova migração de jovens traficantes de volta ao roubo nas ruas”. Creio que tais fatores evidenciam que o momento não poderia
ter sido mais oportuno.

Quanto à eficácia da ação é que residem os pontos mais obscuros. Na Vila Cruzeiro, vítimas, inclusive civis inocentes, chegaram a figurar nas páginas dos jornais, mas no Alemão a cobertura jornalística não mostrou uma gota de sangue, não foram mostrados nem mortos e nem feridos. Como já dissemos anteriormente, a imprensa foi muito bem contida pelas tropas policiais e militares, em áreas específicas, o que mostra que a ação também teve essa preocupação. Não se tratou de apenas tomar um território, mas mostrar
convenientemente como foi feita esta operação.

Poderia se argumentar que realmente não aconteceram incidentes que terminassem em vítimas. Neste caso é importante lembrar que também não foram feitas prisões de grande importância durante a ação, o que reforça a hipótese de que “mercadorias políticas” (MISSE 2006) foram negociadas. Por essa perspectiva, faz sentido pensar que os operadores ilegais que dominavam a área negociaram com o poder público (oficiosamente) sua saída de lá. Isso explicaria tanto a falta de sangue quanto a quase inexistência de prisões.

Mas, as marcas da violência oficial que não foram mostradas podem ter existido de fato. Depois da ocupação, ONG‟s moveram ações na tentativa de apurar os abusos cometidos durante as operações, dentre eles: desvio de armas e drogas, furto de casas (a chamada “caça ao tesouro”), a execução sumaria de suspeitos e a não divulgação de mortos e feridos no conflito (número este que até agora não foi divulgado oficialmente) 7.
Desses questionamentos, uma certeza indubitável permanece: a ação empreendida foi um sucesso para o poder público. Hoje a área, em que moram cerca de 130 mil pessoas, está experimentando um período de dinamismo econômico grande. O então presidente Lula esteve na favela um mês depois das ações (no dia 22 de dezembro de 2010), para inaugurar um teleférico e afirmou: “É importante levar a imagem disso para os gringos saberem que a gente tem capacidade de fazer não só uma Olimpíada, mas a melhor Olimpíada da história”8.

Um cinema 3D de última geração também foi inaugurado antes do Natal, na região. A opinião pública foi sensibilizada com a chance de vislumbrar o fim do comércio de drogas nos moldes de violência até então vigentes. O ineditismo desta “vitória” deu um novo ânimo para boa parte da população carioca, que
renovou seus créditos de confiança junto à polícia. A opinião pública foi positivamente impactada pelas notícias veiculadas em todos os meios de comunicação. Notícias de teor negativo referentes à ação do Alemão, apesar de existirem, foram poucas e facilmente rebatidas diante dos inúmeros entusiastas da
ação. A violência oficial que não veio à tona e o sangue que não jorrou nas telas também não impactaram como ônus da ação.

Por Luiz Claudio Lourenço/Universidade Federal da Bahia – UFBA
Em Debate, Belo Horizonte, v.3, n.1, p. 23-27, jan. 2011.

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Publicado por em 24/03/2011 em Uncategorized

 

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