RSS

Em entrevista exclusiva, o cientista político mineiro Fábio Wanderley Reis discute o processo de institucionalização partidária e as possibilidades de uma política ideológica no Brasil

05 jul

Doutorado em Ciência Política pela conceituada Universidade Harvard, Fábio Wanderley Reis assumiu importantes cargos ao longo de sua carreira, como o de presidente da ANPOCS (Associação Nacional em Pós Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais) e o de membro do Conselho Deliberativo do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Desde 1981, é professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais e, atualmente, é professor emérito da mesma instituição.

Como pesquisador, se dedicou a temas como o da transição democrática e o processo eleitoral no contexto brasileiro. Dentre suas obras estão os livros Tempo Presente: do MDB a FHC, de 2002; Mercado e Utopia: Teoria Política e Sociedade Brasileira, de 2000, e Política e Racionalidade, do mesmo ano.

Em seu último artigo, Identidade Política, Desigualdade e Partidos Políticos Brasileiros, publicado em 2010 (Revista Novos Estudos, Cebrap, volume 87), Reis discute o processo de institucionalização partidária que ocorreu após a redemocratização e as suas implicações para a política partidária brasileira atual. Na entrevista que se segue, o professor responde a questões sobre esse contexto, especialmente ao que diz respeito ao papel da ideologia nas escolhas políticas do eleitorado.

“Há um sentido básico, que pode ser recuperado, em que a esquerda se identifica com a ideia de busca de igualdade, enquanto a direita se identifica com a valorização da ordem e de uma estrutura competitiva, em que se privilegiam as regras do mercado e um individualismo eventualmente exacerbado”

A GRANDE ADESÃO DO ELEITORADO A LULA, E DEPOIS A DILMA, SIGNIFICARIA UMA ORIENTAÇÃO MAJORITARIAMENTE DE ESQUERDA NO BRASIL ATUAL? FAZ SENTIDO PENSAR EM CATEGORIAS COMO ESQUERDA E DIREITA NO CONTEXTO DO ELEITORADO BRASILEIRO?

Sem dúvida faz sentido, mas temos de tomar com reservas a ideia de esquerda e direita. Sobretudo, temos de questionar o conteúdo da dicotomia direita esquerda em seu sentido mais ambicioso. Há um sentido básico, que pode ser recuperado, em que a esquerda se identifica com a ideia de busca de igualdade, enquanto a direita se identifica com a valorização da ordem e de uma estrutura competitiva, em que se privilegiam as regras do mercado e um individualismo eventualmente exacerbado.

Nesse sentido básico, podemos pretender dizer que o eleitorado popular brasileiro – composto de pessoas menos informadas, menos atentas politicamente, que não são ideologicamente refinadas – se orienta numa direção de esquerda, no sentido de reivindicarem acesso a bens econômicos, sociais, etc. Mas essa orientação ocorre de uma forma difusa, em que a oposição entre direita e esquerda não corresponde ao sentido que lhe é dado tradicionalmente, no qual as posições seriam definidas por perspectivas programáticas intelectualmente sofisticadas. Pensando nesses termos, é possível dizer que temos com Lula e Dilma um predomínio de posições de esquerda junto ao eleitorado, ainda que isso aconteça por razões que poderiam parecer “erradas” do ponto de vista dos mentores ideológicos supostamente sofisticados do PT ou de intelectuais esquerdistas.

• Política social » Segundo o próprio governo petista, o carro-chefe de sua política social é o programa Bolsa Família. Apesar de receber algumas críticas que classificam o programa de meramente assistencialista, também é elogiado por especialistas pelo fato de amenizar a fome das famílias em situação financeira precária. Em maio de 2006, atingiu 99,9% dos municípios brasileiros, beneficiando 11,118 milhões de famílias, beneficiando quase 47 milhões de brasileiros.
E O QUE HÁ DE PRINCIPAL EM JOGO NA ESCOLHA POLÍTICA DOS ELEITORES?

Estão em jogo coisas que têm a ver com a dimensão da busca pela redistribuição e pelo acesso expandido a bens econômicos e sociais, que foram fundamentais na intensificação da popularidade de Lula. Foi o êxito da política econômica e, sobretudo, da política social* que levou ao sucesso inédito do ex-presidente, terminando o seu segundo mandato com uma aprovação que excede 80% e elegendo a sua sucessora.

COMO SE DÃO OS PROCESSOS DE IDENTIFICAÇÃO COM UM POLÍTICO, COM UM PARTIDO OU COM UMA IDEOLOGIA, NO SENTIDO MENOS RIGOROSO DO TERMO?

Em boa medida pela percepção de ganhos e perdas econômicos. Por exemplo, a partir da possibilidade, como vimos com Lula, de acesso a crédito, a um salário mínimo maior, aos benefícios do programa Bolsa Família, etc. Naturalmente, ganhos como esses tendem a criar disposições de gratidão e identificação com respeito à liderança política que os tornou possíveis. Mas há outro fator importante e que é compatível com a precariedade ideológica. Trata-se do fato de que uma figura como a de Lula tem associada a si um simbolismo popular difuso. Lula tende a ser percebido como “um dos nossos” pelo “povão” e a ser objeto de identificação popular de modo independente, em alguma medida, dos resultados efetivos da administração que realizou. Essa imagem se combina com as percepções de ganhos objetivos e produziu um resultado muito especial de apoio a ele, como estamos vendo.

UMA CONSEQUÊNCIA DE TUDO ISSO É QUE UMA VERDADEIRA DEMOCRACIA, EM QUE AS ESCOLHAS ELEITORAIS FOSSEM BASEADAS EM DECISÕES RACIONAIS, NÃO SERIA VIÁVEL EM UMA SOCIEDADE DE MASSAS?

Até certo ponto podemos dizer isso, sim. O ideal democrático é o de uma sociedade composta de cidadãos esclarecidos, informados, intelectualmente sofisticados, que têm uma percepção lúcida de seus interesses. Teriam, assim, a possibilidade de chegar a definir de maneira reflexiva a sua própria identidade e o foco de solidariedade correspondente, tomando decisões políticas e eleitorais com base nisso. Esse ideal está longe de ser realizado em um país como o Brasil, além de raramente ser aproximado, mesmo em países mais “avançados”. Se tomarmos os Estados Unidos como exemplo, são grandes o alheamento e a desinformação populares com respeito à política e há baixíssimo comparecimento eleitoral, mesmo nas eleições presidenciais.

“Foi o êxito da política econômica e, sobretudo, da política social que levou ao sucesso inédito do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, terminando o seu segundo mandato com uma popularidade de excelente em nível de aprovação que excede 80% e elegendo a sua sucessora, Dilma Rousseff”

Nas décadas recentes, a desigualdade social tem aumentado fortemente lá, o que não impede que os estudos mostrem a manipulação político-eleitoral bem-sucedida exercida pelas elites conservadoras no quadro da chamada “guerra cultural” que se tem intensificado. De todo modo, o nosso legado é mais pesado e torna as coisas mais difíceis. E acho que o que cabe almejar, com realismo, é a eventual consolidação institucional de um sistema partidário em que se prescinda da idealização envolvida na concepção de uma democracia feita de cidadãos esclarecidos. O fundamental é que possamos vir a ter identificações partidárias estáveis, mesmo se elas se basearem em fatores “espúrios” do ponto de vista daquela idealização.

DENTRO DO POSSÍVEL, ESTAMOS VIVENDO UM BOM MOMENTO POLÍTICO ELEITORAL?

Sem a menor dúvida. Até porque estamos vivendo uma experiência de consolidação institucional da democracia. Até algum tempo atrás, a simples ameaça de vitória eleitoral de alguém como Lula ou de um partido de esquerda criava a iminência de um golpe de Estado.

Mesmo com todas as dificuldades trazidas pelas precariedades sociais, é imperioso registrar que é bom que a questão social se torne um tema presente e decisivo no processo eleitoral, trazendo problemas a serem resolvidos como desdobramento institucional do que ocorre nas eleições, e não eventos que se opõem aos resultados eleitorais. Nesse sentido, não há como negar que estamos vivendo um momento bom. As eleições de fato ocorrem e as decisões se processam dentro das vias institucionais.

Mesmo com todas as dificuldades trazidas pelas precariedades sociais, é imperioso registrar que é bom que a questão social se torne um tema presente e decisivo no processo eleitoral, trazendo problemas a serem resolvidos como o desdobramento institucional do que ocorre nas eleições

O SOCIÓLOGO E EX-PRESIDENTE FHC, EM ARTIGO PUBLICADO RECENTEMENTE, ARGUMENTOU QUE A OPOSIÇÃO DEVERIA CONCENTRAR SEUS ESFORÇOS PARA GANHAR O APOIO DA NOVA CLASSE MÉDIA E ESQUECER-SE DO CHAMADO “POVÃO”, JÁ COOPTADO PELO PT. O QUE O SENHOR ACHA DESSA INTERPRETAÇÃO E DESSA SUGESTÃO DE ESTRATÉGIA?

Penso que há um equívoco em dois planos. Primeiro, no plano doutrinário ou normativo. Não faz sentido que um partido que tem a social-democracia* no nome diga que sua prioridade é a classe média e não o “povão”, pois ainda que se pretenda falar apenas de estratégia eleitoral, não há como evitar o recado que é mandado ao eleitorado quanto às prioridades em termos de administração e de políticas. Mas o outro aspecto do equívoco se dá no plano da própria eficiência eleitoral.

O “povão” é a maioria e é, portanto, decisivo eleitoralmente, em particular nas eleições para cargos majoritários. Algumas análises têm sustentado que a “nova classe média” aos poucos mudaria a sua perspectiva eleitoral pela nova posição social conquistada. Isso pode se mostrar verdadeiro em longo prazo. Mas de imediato não há nenhuma razão para presumir que os que se beneficiaram com o governo Lula estejam prontos para a ingratidão política e para ser recrutados contra Lula ou seus aliados.

• Social-democracia » é uma ideologia política de esquerda que surgiu no fim do século XIX, criada por partidários do marxismo que apoiavam a transição para uma sociedade socialista, mas acreditavam que ela podia ocorrer sem uma revolução, mas sim por meio de uma evolução democrática. A ideologia defende uma gradual reforma legislativa do sistema capitalista a fim de torná-lo mais igualitário. Porém, o conceito tem mudado com o passar das décadas desde sua introdução.

Um breve panorama da reforma política no Brasil

• As decisões recentes sobre a reforma política brasileira, até o fechamento desta edição, demonstraram um entendimento convergente sobre pontos como o financiamento público de campanhas, fim das coligações proporcionais, revisão do critério de suplência para senadores e coincidência das eleições. Algumas das posições a respeito foram amplamente discutidas em evento realizado pela Comissão Especial da Reforma Política, da Câmara dos Deputados, na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul, como parte de vários encontros sobre o tema nos estados. Posteriormente foi realizado um encontro em Aracaju (SE) e as discussões em Brasília seguem paulatinamente, na intenção de reorganizar também questões relacionadas a processo e propaganda eleitoral, unificação das eleições e regras para suplência de senador e deputado.

Para tanto foram também realizados debates entre membros do Legislativo e cientistas políticos, como Cláudio Gonçalves Couto, professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP); Jairo Nicolau e Fabiano Santos, professores do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj).

• No encontro do Sul, o relator da Comissão Especial da Reforma Política, deputado Henrique Fontana (PT-RS), foi favorável a uma maior participação popular nas discussões sobre o tema. Nesse sentido, um bloco organizado para acompanhar as decisões da reforma promete ser fonte ativa de subsídios para que o projeto seja executado com base no real contexto sociopolítico brasileiro. José Antônio Moroni, da Plataforma dos Movimentos Sociais pela Reforma do Sistema Político, em entrevista recente ao Le Monde Diplomatique, informou que, nos próximos meses, serão coletadas assinaturas para que as propostas de uma iniciativa popular de reforma política sejam levadas ao Congresso e tramitem como projeto de lei.

Por Revista de Sociologia

Anúncios
 

Tags: ,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: