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O professor e intelectual afirma que a academia não deu a importância devida ao filósofo Karl Marx e analisa os rumos da ideologia política nos tempos atuais

12 jul

Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Leandro Konder trabalha na fronteira entre a história, a arte e a própria filosofia, a qual define como “busca ilimitada por ponderação”. Se o exercício do pensamento tem de vir acompanhado da síntese, assim adverte Konder, a atividade intelectual tem de ser realizada por meio da ação transformadora.

A vida do pensador brasileiro nascido em 1936, em Petrópolis, Rio de Janeiro, sempre foi coerente com tal afirmação. Filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro nos anos de 1950 e permaneceu militante até 1982. Herdou a convicção política do pai, o comunista Valério Konder. Durante a ditadura militar foi preso e torturado, o que o obrigou a sair do país.

Na Alemanha, ingressou na Universidade de Bonn Rhein, onde deu início aos estudos de Filosofia. Voltou ao Brasil em 1978 para concluir seu doutorado. Por aqui, foi o responsável por disseminar a doutrina marxista no meio acadêmico, com a tradução de obras de Georg Lukács e Antonio Gramsci. A oportunidade veio de sua colaboração na Editora Civilização Brasileira, ao lado do editor Ênio Silveira. Leandro Konder prefaciou Concepção Dialética da História, primeiro volume de Gramsci lançado no Brasil.

A partir da publicação de seus mais de vinte livros, entre eles, Marxismo e Alienação (1965); Os Marxistas e a Arte (1967); A Derrota da Dialética (1987); Lukács (1980); e Walter Benjamim, o Marxismo da Melancolia (1988), torna-se importante articulador dos conceitos da estética no campo da cultura. Principalmente pelo aprofundamento na obra de Georg Lukács e Walter Benjamin.

Leandro Konder dialoga, também, com Franz Kafka em Kafka, Vida e Obra (1966); com Bertold Brecht em A Poesia de Brecht e A História (1996); e flerta com a escrita ficcional em A Morte de Rimbaud (2000). Em entrevista à Revista E, realizada em dois momentos diferentes, por questões de saúde do filósofo, afirma: “Ao lutar pela arte, luta-se por uma sociedade mais justa, mais humana”.

Mas vê com ressalvas o aparelhamento da arte por meio da indústria cultural. “A arte não vai nos livrar dessa carga pesada que o capitalismo coloca em nossos ombros.” Aos 75 anos, finaliza a entrevista com um balanço positivo de suas ações políticas e convicções. “A gente aprende a brigar. Por fim, melhor participar da vida do que ficar ausente.”

“Se você encontrar hoje um intelectual que diz ter em mãos um livro que irá mudar todo o rumo da nossa vida, vai ficar desconfiado. Esse otimismo não é sinal de muita lucidez”

Caso Lênin não tivesse lido Karl Marx, não tivesse posto suas teorias em circulação por meio da Revolução Russa, o alemão seria apenas um obscuro filósofo do século 19?

Marx era um filósofo competente. Há uma tese de que ele foi prejudicado na medida em que não foi reconhecido como filósofo. Marx ficou sendo um crítico da política, um crítico da economia e não foi aproveitado como crítico da filosofia. A crítica do mercado não pode ser calcada em sua obra. A obra de Marx reflete uma experiência histórica importante, mas limitada. Ele não enxergou todos os problemas da economia de mercado.

E nós não nos aprofundamos em sua obra o suficiente para lê-lo como filósofo. Marx tem observações fundamentais sobre a relação do homem com os problemas que o isolam. Vai além sobre a teoria do mercado, denunciando com muita lucidez esses sistemas. Agora, foi mal aproveitado, por várias razões. Uma delas é que os Manuscritos de 1844 – que são brilhantes – só foram publicados em 1932. Mas, sem dúvida, depois de Hegel, é o filósofo mais importante da era moderna.

Certa vez o senhor reiterou o que Karl Marx dizia: não se pode negar o lado criativo do capital. Observa-se que toda a crítica feita ao capitalismo, em especial no âmbito das artes, é transformada em produto. Como analisar esse processo?

O mercado mostrou uma vitalidade, uma força monstruosa, e nós não discutimos suficientemente de onde vem essa força. As pessoas se orientam em função das razões de mercado e fico preocupado com isso; não é possível que a humanidade tenha chegado a esse conformismo. Preocupa o fato de nós não termos conhecimento, domínio teórico para combatê-lo.

O comunismo não deu certo, o movimento comunista falhou. Agora isso não quer dizer que precisamos nos conformar com o funcionamento do capitalismo que nos envolve. Acho que temos que procurar um outro caminho, outras soluções para velhos problemas.

“A filosofia está condenada a uma busca ilimitada por ponderação, por equilíbrio. Uma síntese eficaz exige certa contenção. Essa síntese, para a filosofia, é imprescindível”

A ideologia morreu também dentro desse contexto do novo capitalismo?

Anos atrás, escrevi um livro chamado A Questão da Ideologia (Cia. das Letras, 2002). E aí encontrei um amigo, marxista, que me perguntou: “Você escreveu um livro chamado A Ideologia? Eu disse: não, escrevi um livro chamado A Questão da Ideologia. Ele disse: “Que alívio!”.

Quer dizer, dentro do universo acadêmico há toda uma pretensão em discutir sobre ideologia. Porém, abandoná-la seria um prejuízo fatal. A ideologia nos incita a pensar, a refletir criticamente sobre as construções do espírito humano, inclusive sobre as construções do espírito da direita. A direita é poderosa, nós chegamos a essa situação de privilégio da direita porque trabalhamos mal.

O conceito de esquerda e direita está fora de moda?

Acho essa cisão estimulante. A esquerda quer fazer as maiores mudanças possíveis e a direita quer preservar o poder o quanto pode. No Brasil, as coisas são meio confusas, porque a direita se aliou a setores hegemônicos da esquerda.

E a esquerda está intimidada, confusa diante desse monumental poderio criado pela direita. Há uma crise de parte da esquerda. Essa crise precisava ser estudada à luz de muitos esclarecimentos. Se você encontrar hoje um intelectual que diz ter em mãos um livro que irá mudar todo o rumo da nossa vida, vai ficar desconfiado. Esse otimismo não é sinal de muita lucidez.

Não se fala mais em utopias, revoluções. Mas ouvimos constantemente as palavras “meta” e “produtividade”. Qual sua visão sobre essa mudança de paradigmas?

A palavra utopia carrega sempre ambiguidades. Utópico é uma maneira de lidar com o futuro, percebendo de maneira confusa que o futuro a nós pertence. Então é preciso elaborar um projeto que ajude a lidar com essa confusão. A utopia foi desprezada, entre os marxistas, um pouco cedo demais. Isso nos remete a um projeto da revolução que foi um projeto ousado, mas mal elaborado.

Os utopistas nos ajudam a pensar coisas que normalmente deixamos de lado. Têm ideia de que há uma superioridade racional da ideologia sobre as representações do mercado capitalista. Então, você me pergunta: o que tem de errado na utopia? A utopia não consegue lidar com a questão crucial da ação transformadora. O utopista sonha, mas age pouco.

Como fica a arte dentro da indústria cultural?

A arte resiste à pressão da indústria cultural, mas fica enfraquecida. A indústria cultural é prepotente. Só que, com toda a sua prepotência, não conseguiu eliminar o espaço da arte. Nós vivemos em uma época na qual a indústria cultural está recorrendo a expedientes cada vez mais hábeis. A arte cumpre uma função importante, nos coloca diante de aspectos da experiência humana que não têm sido ainda registrados de maneira eficiente.

A arte nos ajudou, nos séculos 19 e 20, a superar o transbordamento de seriedade entre os intelectuais – que era superficial. Ao lutar pela arte, luta-?-se por uma sociedade mais justa, mais humana. Agora, a arte não vai nos livrar dessa carga pesada que o capitalismo coloca em nossos ombros. Havia um pouco a ilusão de que a luta seria das ideias generosas contra conceitos mesquinhos.

Temos que fazer um esforço de releitura da nossa literatura, das nossas teorias que foram publicadas. Temos que revalorizar a poesia. E revalorizar a filosofia. Filosofar é uma aventura do espírito. O Georg Lukács, Theodor W. Adorno, Horkheimer, Walter Benjamin são autores que refletiram sobre as condições sofridas por que passaram artistas e filósofos.

Arte sobre Divulgação/Boitempo Editorial

Como era possível dentro do movimento marxista haver dois pensadores tão díspares: Lukács e Benjamin?

Acho que eles viveram experiências divergentes. Walter Benjamin quis ficar em Paris e frequentava a biblioteca nacional parisiense. O Lukács não tinha facilidade em Paris, então foi para Moscou. E lá surgiu a relação do Lukács com os burocratas soviéticos.

Às vezes, tenho dificuldade em articular um com o outro. O Lukács foi um pensador muito valente na maioria das batalhas que ele travou no campo político e cultural e das propostas dos comunistas para a política da arte. Mas ele não foi santo, teve seus pecadinhos. Já o Benjamin escapou de vir para o Brasil. É um marxista que consegue se dedicar às contradições sociais criadas no âmbito da cultura.

Em 1930, numa época em que os marxistas estavam sendo postos na cadeia, o Benjamin teve a coragem de não ser triunfalista. Examinava os problemas históricos e dizia: “Tem coisa errada. Nós adotamos posições polêmicas que são limitadas”.

Ele era um cara de esquerda, mas da esquerda atenta ao que se passava do outro lado, porque a filosofia está condenada a uma busca ilimitada por ponderação, por equilíbrio. Uma síntese eficaz exige certa contenção. Essa síntese, para a filosofia, é imprescindível. Tem que trabalhar na fronteira, na linha divisória entre a ciência e a filosofia, a arte e a filosofia.

O senhor também escreveu sobre Bertold Brecht. No caso de Brecht, cada vez mais se começa a perceber que, como político, tinha uma força que era forjada no campo estético…

O Brecht talvez seja o maior autor do século 20. Ele era amigo do Walter Benjamin; no exílio fez três viagens à Dinamarca para encontrá-lo. Tem um pioneirismo muito significativo, alguns poemas dele abrem caminho para outros escritores lidarem com o material poético. Tem poemas com estruturas incomuns. Há poema de oito versos, eles vão se retraindo, sem perder o ritmo.

Há um livro seu sobre o Barão de Itararé, um notório anarquista. Usava do humor para desmontar discursos. Um dos casos únicos no Brasil em que o humor foi usado para a política. O que levou o senhor a escrever um livro sobre ele?

Barão de Itararé foi militante do Partido Comunista, tive contato com ele. Era muito brincalhão. Todo humorista tem um pouco de anarquista. O interesse pelo barão ocorreu porque eu estava procurando antepassados. Questionava os meus amigos: qual é o nosso antepassado? Escolhemos o barão, já que os outros fazem concessões demais. Eu li os parnasianos. Os parnasianos são conservadores – não podem ser nossos antepassados.

O senhor foi ligado ao Partido Comunista Brasileiro. Qual era a posição do PCB com relação ao uso da cultura brasileira como instrumento político?

O Partidão tinha um discurso mais interessante do que sua ação política. A ideia era a seguinte: Se não resolvíamos os problemas políticos que nos desafiavam, queríamos resolver os problemas culturais. Trabalhávamos com um material expressivo; sem dúvida. Ele não se constituiu por acaso.

Naquele momento, discutia-se a questão do desenvolvimento nacional e a busca por uma identidade própria como nação. A direita manteve uma posição muito reacionária sobre nossa identidade, que estava sendo construída. No final, havia muita retórica no pronunciamento dos comunistas. E a retórica não funciona adequadamente. Penso que o crítico tem que ter humildade. Toda formulação apresenta limites.

Hoje em dia, como o senhor lida com o tema da fé e da religião?

Alguns companheiros reagiram mal à simpatia de alguns pensadores pela fé. Acho que a sociedade fica muito atrelada a certos personagens religiosos pelo carisma de suas ideias. Mas muitos apresentam um pensamento dogmático, petrificado, aí não dá! Eu entendo que religião não se limita a isso.

“Dentro do universo acadêmico há toda uma pretensão em discutir sobre ideologia. Porém, abandoná-la seria um prejuízo fatal. A ideologia nos incita a pensar, a refletir criticamente sobre as construções do espírito humano”

O senhor é de uma geração na qual era comum morrer pelas ideias…

Fez parte de um projeto que era cultivar e reconhecer a inquietação da polêmica. O século 20 foi um período terrível porque nos ensinou que as pessoas se apegam facilmente em certezas.

O problema de mudanças revolucionárias era que você não conseguia impor coisa alguma. Veja o caso da União Soviética. Eles saíram da guerra bastante machucados.

No passado, o senhor sofreu represálias em nome de uma utopia…

Lembro-me do poema: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Esse problema [tortura, prisão e exílio] ocorreu, mas teve um encaminhamento efetivo. A situação hoje está bem melhor do que na minha época. Agora, o exercício da liberdade ainda é muito precário.

Viu o Egito? A Tunísia? Historicamente, a gente não pode fechar os olhos porque o risco exige uma transformação. A gente se envolve em movimentos sobre os quais não tem domínio, então arrisca a fazer papel de bobo. Eu acho que fiz papel de bobo algumas vezes, aceitei explicações que não eram muito convincentes.

Aceitei mentiras também. A gente aprende a brigar. Por fim, melhor participar da vida do que ficar ausente. Já viu um revolucionário cínico? É uma figura deletéria. ::

“A indústria cultural é prepotente. Só que com toda a sua prepotência, não conseguiu eliminar o espaço da arte”

Por Revista E

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