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Uma nova geração de pesquisadores, de países como Alemanha, Grécia e México, está de olho no país. O que eles estudam, pensam e falam sobre nós

18 jul

Por muito tempo, eles foram conhecidos como brasilianistas. O termo designava historiadores, sociólogos e cientistas políticos que, a partir da segunda metade do século 20, dedicaram-se a estudar a política, a economia e a sociedade brasileiras a partir de uma perspectiva externa. Acadêmicos quase sempre americanos, como Thomas Skidmore, Albert Fishlow e Alfred Stepan, publicaram livros e falaram a plateias internacionais no papel de tradutores do Brasil. “Eles ajudaram a definir o país quando os brasileiros sofriam de problemas de identidade”, diz Norman Gall, fundador do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial – ele próprio um americano que adotou o Brasil como tema dos seus estudos e acabou não voltando mais para sua terra natal.

A geração de Fishlow e Skidmore começa agora a ser sucedida por um grupo bem mais heterogêneo de acadêmicos. Com idades entre 30 e 40 anos, vindos também de países como Alemanha, Grécia e México, eles se interessam pelas consequências do desenvolvimento econômico brasileiro na diplomacia, nas relações comerciais e nos investimentos. Quase sempre analisam o Brasil em comparação com outros países emergentes. São estudiosos como Oliver Stuenkel, um alemão de Düsseldorf que se instalou em São Paulo para estudar os movimentos recentes da chancelaria brasileira e hoje é professor de relações internacionais da Fundação Getulio Vargas. Ou Aldo Musacchio, um mexicano que dá aula na Harvard Business School sobre a participação do Estado na economia. Resistentes ao título de brasilianistas, eles trazem um novo e bem-vindo fôlego às discussões sobre as principais questões do Brasil de hoje.

UM PAÍS DE DUAS CARAS
Em um de seus primeiros contatos com a cultura brasileira, Oliver Stuenkel, o alemão da foto ao lado, descobriu… a lambada. Era o início dos anos 90 e, ao voltar de uma viagem ao Rio de Janeiro, seu pai o presenteou com uma camisa do Flamengo e uma fita cassete com os sucessos da época. “Tinha até um guia com os passos da dança”, diz Stuenkel. O entusiasmo pelo ritmo passou, mas o interesse pelo Brasil, não. Ele está no país há dois anos, estudando as transformações na diplomacia. Tem analisado o que chama de “dupla personalidade do Brasil”. Para Stuenkel, a retórica do governo para o mundo é como um pêndulo – ora ressalta a afinidade do país com o mundo subdesenvolvido, ora com o poderio dos países ricos. Ao dizer que a crise financeira de 2008 foi causada por “gente branca de olhos azuis”, o ex-presidente Lula vestiu o chapéu dos pobres. O mesmo ocorreu nas diversas vezes em que seu governo se valeu do histórico de miséria para atacar o protecionismo contra o etanol brasileiro. “Já quando o objetivo é conquistar um assento no Conselho de Segurança da ONU ou liderar a reconstrução do Haiti, o país é a encarnação do poder dos emergentes”, diz Stuenkel.

Segundo ele, a elasticidade no discurso oficial já diminuiu no governo Dilma. “Ao assumir a posição de potência global, o país se tornou corresponsável pelas decisões que atingem o mundo e não pode mais se esconder atrás de uma imagem que remete ao passado”, afirma. Stuenkel prepara um livro sobre as doações feitas pelos principais emergentes, como Brasil, China, Índia e Arábia Saudita, a países subdesenvolvidos, especialmente na África. “O Brasil tem se valido de empresas com capital público, como Vale e Embrapa, para aproximar os governos e se posicionar como parceiro”, diz.

DESVENDANDO O BNDES
Um dos critérios empregados por um fundo de participações para investir numa empresa é seu desempenho recente. Trata-se de checar se o negócio deu ou não bom retorno aos acionistas nos últimos anos. No caso do BNDESPar, braço de investimentos do BNDES, nem sempre é assim. “Na média, as empresas que recebem capital do BNDESPar não apresentam bons resultados financeiros no período anterior à injeção de recursos”, afirma o mexicano Aldo Musacchio, professor de administração da Harvard Business School que estuda a atuação do fundo estatal brasileiro. Musacchio analisou o balanço de 296 companhias brasileiras de capital aberto que receberam investimentos no período de 1995 a 2003 – durante os anos FHC. O ponto comum entre as empresas selecionadas pelo BNDES era a necessidade de recursos para se expandir fora do Brasil. “São negócios com potencial de liderança internacional que precisam de capital para comprar outras empresas, e não empresas com histórico de boa gestão e entrega de dividendos aos acionistas”, diz.

Ex-professor do Insper, em São Paulo, ele está mergulhado nos dados do BNDESPar há dois anos. Em 2012, planeja concluir a pesquisa cobrindo os oito anos do governo Lula. “Pelo que analisamos até agora, o desempenho financeiro continua relegado em nome de outros interesses na hora de emprestar o dinheiro.” Em parceria com pesquisadores de vários países, Musacchio está cruzando dados sobre a atuação do BNDES com informações sobre bancos públicos ou órgãos de fomento de emergentes, como China, Índia e Rússia, nos quais o Estado tem atuado para dar estímulos ao crescimento. “Todos os Brics atuam de alguma forma para estimular as empresas de setores estratégicos.”

A EUROPA CORDIAL
A novela é conhecida dos brasileiros. Após um longo namoro, países interessados em um acordo de livre comércio anunciam o noivado. Só que, depois disso, o enlace empaca. Para a grega Elena Lazarou, especialista nas relações entre União Europeia e Brasil que dá aulas na Fundação Getulio Vargas no Rio de Janeiro, esse enredo finalmente está perto de um final feliz. “Depois de anos de negociação, o Mercosul e a União Europeia estão diante de uma chance real de selar um acordo comercial”, diz. Elena desembarcou no Rio em 2010 como pesquisadora da Universidade de Cambridge e decidiu não usar a passagem de volta. Ela acredita que, apesar das restrições levantadas por países como Argentina, Polônia e Hungria, que temem os possíveis efeitos da abertura, o acordo deve acontecer até o ano que vem. A maior interessada é a União Europeia, que atravessa sua pior crise em décadas, mas, segundo Elena, as duas partes têm feito concessões.

As empresas da UE depositam no crescimento dos países emergentes a esperança de sair da crise aumentando suas exportações. De seu lado, o Brasil pleiteia maior acesso aos países europeus, tradicionalmente protecionistas. “Também servem como moeda de troca as tecnologias europeias na área de infraestrutura e o conhecimento do Brasil no setor de energias renováveis”, afirma Elena. Em abril, uma comitiva de 11 deputados europeus veio ao Brasil discutir os termos da parceria. O resultado da missão foi descrito como um progresso sem precedentes. Houve consenso em mais de 90% dos pontos referentes à indústria e em 80% na pauta do setor agrícola. Elena diz que, para além dos interesses comerciais, o Brasil tem valores culturais que o colocam em posição privilegiada frente a Índia e China. “Com o tempo, ficará claro que o Brasil está mais apto que os outros emergentes a se relacionar com a Europa.”

O INIMIGO DA CORRUPÇÃO
Há duas décadas, a notícia de que, em quatro anos, um político multiplicou seu patrimônio por 20, como parece ser o caso do ministro Antonio Palocci, teria poucas chances de ganhar as manchetes dos jornais brasileiros. A tese é do americano Matthew Taylor, professor de ciências políticas da Universidade de São Paulo que desde 1993 dedica-se a estudar o Brasil. “Quando os números estavam escondidos pela penumbra da hiperinflação, era difícil avaliar as contas de políticos”, afirma. Por essa lógica, a estabilização econômica alcançada em 1994 com o Plano Real ajudou a jogar luz sobre supostos casos de corrupção. “O Real alavancou a corrupção a tema prioritário para o país.” A análise fará parte de um livro sobre a história do Brasil após a redemocratização que ele planeja enviar à editora no próximo ano.

Seu mais recente trabalho publicado é o livro Judging Policy (“Políticas sob a Justiça”), que trouxe um novo olhar sobre a relação entre os poderes Executivo e Judiciário. Ele constatou que, tanto no governo FHC quanto na gestão Lula, o Supremo Tribunal Federal foi sistematicamente utilizado pela oposição como instrumento de veto às políticas públicas do governo. De acordo com o estudo, foram abertos 912 processos contra leis federais no período de 1994 a 2008. Destes, 32% foram julgados e 20% implicaram alguma mudança. Do total de processos abertos com o objetivo de obstruir projetos, 84% foram requeridos pela oposição. “Considerando que apenas 0,026% das propostas do Executivo votadas pelo Congresso foram rejeitadas na década posterior à Constituição de 1988, esse papel do STF não pode ser menosprezado”, diz Taylor. “Se o custo de desafiar a política nos tribunais é relativamente baixo, há pouca razão para que os oponentes ao governo não façam uso dessa tática”, diz o estudo.

Por Época Negócios

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