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A internet e a urna em 2012

02 ago

Inversão de papéis: uma pesquisa qualitativa em que os entrevistados foram os pesquisadores. E na casa deles: a sede do Ibope em São Paulo, na última quinta-feira. O tema: o papel da internet nas eleições municipais de 2012. A conclusão? A rede vai influenciar ainda mais o resultado das urnas e o comportamento do eleitor no próximo ano do que já influiu em 2010, entre muitos outros insights.

O encontro foi organizado por Silvia Cervellini, diretora do Ibope Inteligência, a pedido do Estado. Silvia é autora de um dos mais interessantes estudos sobre a eleição de 2010, apresentado no congresso anual da Associação Mundial de Pesquisa de Opinião (Wapor). Junto com Malu Giani e Patrícia Pavanelli (ambas pesquisadoras do Ibope), ela demonstrou como o voto religioso, impulsionado pela discussão sobre legalização do aborto na internet, moldou a reta final da campanha presidencial.

Além das três, participaram do focus group sobre internet, política e eleição dois outros pesquisadores do Ibope que apresentaram trabalhos diferentes sobre o tema no congresso da Wapor: João Francisco Resende e Rosi Rosendo. Para temperar o debate, o Estado entrevistou o jornalista Caio Túlio Costa, que dirigiu dois dos maiores portais brasileiros (UOL e iG) e foi o arquiteto da bem-sucedida campanha de mídia digital de Marina Silva na eleição presidencial de 2010.

As conclusões a seguir, especialmente se equivocadas, são de responsabilidade do autor. Eventuais méritos são dos entrevistados.

O que. Com mais eleitores online e participando de Orkut, Facebook, Twitter e Google Plus, entre outras redes, a influência da internet tende a aumentar. Os novos hábitos de troca de informações aumentam a virulência dos boatos e notícias. Mesmo quando o fenômeno começa no “mundo real”, ele reverbera e é ampliado pela internet. Os casos da “legalização do aborto (Dilma)” e da “bolinha de papel (Serra)” em 2010 são exemplos disso.

“É muito mais fácil atingir um público local”, diz Caio Túlio. Mas a influência deve variar de local para local: “Depende muito da infraestrutura da banda larga. Se não será decisiva, (a internet) será um pouco mais decisiva”.

Onde. As cidades onde maiores parcelas do eleitorado está online são as mais aptas à internet ter um papel decisivo. Mas não depende só disso. Onde já existem redes pessoais, comunidades atuantes e organizadas, a internet potencializa a mobilização eleitoral. Já para Caio Túlio, “nos grandes centros, tudo indica que a internet será muito mais usada e ajudará muito mais do que ajudou até agora na conquista de votos”.

Como. Nas cidades conectadas, os principais instrumentos devem ser: monitoramento de redes sociais, blogs, mobilização via Facebook (que cresce exponencialmente e começa a atingir a classe C), Orkut e Twitter (outras redes podem aparecer ou aumentar em influência até a eleição, como o Google Plus). A magia negra do SEO (técnica que influencia os resultados de buscas em mecanismos como o Google) pode ser usada para beneficiar um candidato ou prejudicar o adversário, associando-o a um fato negativo. O celular, que encontra o eleitor onde ele estiver, também é peça-chave, mas precisa ser usado com moderação para não saturar.

“A internet fura a espiral do silêncio dos meios de comunicação”, diz Silvia Cervellini. Temas que normalmente ficam de fora da cobertura dos jornais, rádio e TV aparecem na rede e ampliam o debate, especialmente questões de interesse local. Alguns fazem tanto barulho que acabam pautando os meios de comunicação tradicionais. Isso pode mudar a agenda da campanha municipal em algumas cidades.

“(A internet) será mais usada especialmente na arrecadação de doações de pessoas físicas – que não será espetacular, por conta de características culturais”, prevê Caio Túlio.

Quem. Praticamente todas as campanhas terão gente dedicada a mobilizar via internet (“custo é muito baixo”). Mas isso não é tarefa fácil. “É preciso entregar um conteúdo relevante no momento certo”, diz Silvia, ou a campanha online pode se voltar contra o candidato, como já se voltou contra algumas empresas que se arriscaram a fazer marketing via blogs e redes sociais sem ter uma boa estratégia.

Por isso, não é trabalho para amadores. “Há experiência que pode ser copiada e disseminada. Mas a maior dificuldade será encontrar profissionais capazes de dedicação exclusiva e inteligente para realizar campanha na internet para cada candidato. Campanha online não é “commodity” nem “prêt-à-porter”, é “taylor made” (sob medida)”, diz Caio Túlio.

Consequências. Outsiders, candidatos pouco conhecidos e zebras passam a ter mais chances, porque dispõem de uma plataforma de grande penetração e comparativamente barata para alcançar os eleitores. Dependem de um bom discurso (relevância) e de uma boa estratégia (oportunidade). Podem fazer isso desde já, driblando as limitações da legislação, se conseguirem cativar comunidades já existentes na rede e fora dela. Atrair para o debate eleitoral os eleitores 2.0, aqueles jovens com perfil semelhante ao dos “indignados” espanhóis, que estão descontentes com a forma tradicional da política – desde a polarização PSDB x PT até a maneira de cima para baixo para como as decisões são tomadas.

Aumentam o potencial para surpresas e a velocidade das mudanças na corrida eleitoral. Os eleitores online tiveram intenção de voto muito mais volátil na eleição de 2010. Subidas e quedas abruptas ficam mais prováveis, principalmente na reta final.

Por OESP/José Roberto de Toledo

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Publicado por em 02/08/2011 em Uncategorized

 

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