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A verdadeira utopia

14 set

Para dar conta das necessidades de transformações na sociedade, é preciso ir além do iamginado por Marx e não temer radicalizar a atualizar suas noções de proletariado e comunismo.

Para instaurar uma forma diferente de funcionamento do poder, que vá além dos limites da democracia representativa, permanecer el à ideia comunista não é su ciente. Devem ser localizados, na realidade histórica, os antagonismos que fazem dessa ideia uma urgência prática. Deve-se, em primeiro lugar, transformar de maneira crítica os aparatos conceituas de Marx. Por causa de sua negligência quanto à dimensão social do a general intellect, Marx não vislumbrou a possibilidade de privatização do próprio general intellect – é isto que está no coração da batalha pela “propriedade intelectual”. Nisso a Negri está certo: sob esse ponto de vista, a exploração no sentido marxista clássico não é mais possível – e é por isso que ela tem de ser reforçada, cada vez mais, por medidas legais diretas, ou seja, por uma força não econômica. É por isso que hoje a exploração assume cada vez mais a forma de uma renda. Como a rma Carlo Vercellone, o capitalismo pós-industrial é caracterizado pelo “tornar-se renda do lucro”. E é por isso que a autoridade direta é necessária. É preciso impor as condições legais (arbitrárias) para que se extraia a renda, condições que não são mais “espontaneamente” geradas pelo mercado.

Talvez aqui resida a “contradição” fundamental do capitalismo “pós-moderno” contemporâneo. Enquanto sua lógica é desreguladora, “antiestatal”, nomática/desterritorializante etc., a tendência principal do “tornar-se-renda-dolucro” assinala um fortalecimento do papel do Estado, cuja função (não somente) reguladora é mais e mais onipresente. Desterritorialização dinâmica coexiste com e se apoia mais e mais em intervenções autoritárias do Estado e seus aparelhos legais (e outros). O que é possível discernir no horizonte do nosso porvir histórico é, assim, uma sociedade em que liberalismo pessoal e hedonismo coexistem com (e são sustentados por) uma complexa rede de mecanismos estatais regulatórios. Longe de desaparecer, o Estado está se fortalecendo.

Em outras palavras, quando, devido ao papel crucial do general intellect (conhecimento e cooperação social) na criação da riqueza, formas de riqueza estão mais e mais “fora de quaisquer proporções com o tempo de trabalho direto envolvido em sua produção”, o resultado não é, como Marx parece esperar, a autodissolução do capitalismo, mas a transformação gradual e relativa do lucro gerado pela exploração da força de trabalho em renda apropriada pela privatização do general intellect. Tomemos o caso de Bill Gates. Como ele se tornou o homem mais rico do mundo? Sua riqueza não tem nada a ver com os custos de produção dos produtos vendidos pela a Microsoft (podese até mesmo argumentar que a Microsoft está pagando a seus trabalhadores intellectuais um salário relativamente alto), isto é, a riqueza de Gates não é resultado de seu sucesso em produzir bons softwares por preços mais baixos do que seus competidores, ou com uma maior “exploração” dos trabalhadores intelectuais con tratados. Fosse esse o caso, a Microsoft já teria ido à falência há muito tempo. As pessoas teriam aderido em massa a programas alternativos e gratuitos, como o a Linux – que, de acordo com especialistas, possui melhor desempenho do que os programas da Microsoft .

Por que, então, milhões de pessoas ainda compram produtos da Microsoft ? Porque a Microsoft se impõe como um padrão quase universal, (quase) monopolizando o mercado, uma espécie de encarnação do general intellect. Gates se tornou o homem mais rico do mundo em algumas décadas apropriando-se da renda cobrada pela permissão, dada a milhões de trabalhadores intelectuais, de participar da forma de general intellect que ele privatizou e controla. É verdade, então, que os trabalhadores intelectuais de hoje não estão mais separados das condições objetivas de seu trabalho (eles possuem seu próprio PC etc.), o que seria, em Marx, a descrição da “alienação” capitalista? Sim, mas, mais fundamentalmente, não. Eles foram mutilados do campo social de seu próprio trabalho, do general intellect – que por sua vez é mediado pelo capital privado.

E o mesmo acontece com os recursos naturais. Sua exploração é uma das maiores fontes de renda hoje em dia, acompanhada pela luta por quem irá controlar essa renda, as populações do Terceiro Mundo ou as corporações ocidentais. A ironia suprema é que, para explicar a diferença entre força de trabalho – que, em seu uso, produz mais-valia sobre seu próprio valor – e outras mercadorias – cujo valor é simplesmente consumido em seu uso, sem envolver exploração -, Marx menciona como exemplo de mercadoria “comum” o petróleo, a mesma mercadoria que hoje é a fonte de extraordinários “lucros”. Aqui também não faria sentido vincular os aumentos e as quedas do preço do petróleo à exploração do trabalho – o custo de produção é negligenciável, o preço que pagamos pelo petróleo é a renda que pagamos aos proprietários desses recursos por sua escassez e oferta limitada.

ZIZEK NO BRASIL

Nascido na pequena Eslovenia, então pertencente a extinta República Socialista Federativa da Iugoslávia, o filósofo, sociólogo e psicanalista Slavoj Zizek despontou como um dos pensadores capazes de renovar a teoria marxista no final da década de 1980. Sua mescla de psicanálise lacaniana, marxismo revigorado e crítica cultural ganhou força na década seguinte, primeiro no Leste Europeu, depois por toda a Europa e teve, enfim, forte impacto em outros continentes. Antes, no ano de 1990, candidatou-se à presidência da Eslovênia pelo Partido Liberal Democrático, agremiação que reunia feministas, minorias, pensadores alternativos, artistas, ecologistas e dissidentes da ortodoxia comunista em geral (a vitória naquele pleito foi do advogado e ex-militante do PC esloveno Milan Kucan).

A recepção às ideias de Slavoj Zizek no Brasil iniciou-se pela via academica no final dos anos 1990. Após o atentado de 11 de setembro de 2001, os intelectuais de esquerda renovadores e criativos voltaram a ser notados para além dos centros de estudo. Seus artigos, livros e entrevistas chamaram a atenção dos leitores brasileiros. Em 2008, Zizek participou do programa Roda Vida, da TV Cultura, retransmitido para outras emissoras públicas do país. Sua fala rápida, seus gestos repletos de tiques e movimentos tensos compõem a personalidade carismática e curiosa do pensador esloveno.

O que é possível discernir no horizonte do nosso porvir histórico é, assim, uma sociedade em que liberalismo pessoal e hedonismo coexistem com (e são sustentados por) uma complexa rede de mecanismos estatais regulatórios. Longe de desaparecer, o Estado está se fortalecendo.

1 BEM-VINDO AO DESERTO DO REAL! (2003)
“Com essa esquerda, quem precisa de direita?” Tendo como mote essa frase provocativa, Slavoj Zizek analisa, em cinco ensaios, os acontecimentos e as consequências dos atentados ao World Trade Center e ao Pentágono no dia 11 de setembro de 2001. A tentativa do filósofo esloveno é despertar a esquerda para uma nova atitude, inventiva e contudente, para recuperar o terreno perdido e colocar-se como alternativa à ordem hegemônica, representada pelos EUA, consolidada após a queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da União Soviética (1991). Para tanto, é preciso não cair nas falácias da ideologia, das falsas polaridades e do “deserto do real”.

Antagonismo e Protagonismo Global

A única questão verdadeira hoje é: o capitalismo global contém antagonismos fortes o suficiente para impedir sua reprodução indefinida? Existem, penso eu, quatro desses antagonismos: a ameaça iminente de uma catástrofe ecológica, o caráter inapropriado da propriedade privada para designar a chamada “propriedade intelectual”, as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientíficos (especialmente na biogenética) e, por último, mas não menos importante, as novas formas de apartheid, os novos muros e as favelas. Há uma diferença qualitativa entre este último aspecto, a lacuna que separa os excluídos dos incluídos, e os outros três, que designam os domínios daquilo que Hardt e Negri chamaram de “comuns”, a substância partilhada do ser social cuja privatização é um ato violento a que se deve resistir, igualmente, com meios violentos, se necessário:

* os comuns da cultura, as formas imediatamente socializadas de capital “cognitivo”, primariamente a linguagem, nosso meio de comunicação e educação, mas também a infraestrutura comum do transporte público, da eletricidade, dos correios etc. (se o monopólio fosse permitido a Bill Gates, chegaríamos à situação absurda em que um único indivíduo seria literalmente dono da tessitura, do software de nossa rede básica de comunicação);

* os comuns da natureza externa ameaçados pela poluição e exploração (do petróleo às florestas e habitats naturais);

* os comuns da natureza interna (a herança biogenética da humanidade): com a nova tecnologia biogenética, a criação do novo homem, no sentido literal de mudar a natureza humana, se torna uma perspectiva realista.

O que todas essas lutas têm em comum é a preocupação com os potenciais destrutivos, inclusive a autoaniquilação da própria humanidade, se fosse dada carta branca à lógica capitalista de enclausuramento desses comuns. Nicholas Stern estava correto em caracterizar a crise ambiental como “o maior fracasso do mercado na história da humanidade” (Revista Time, 24/12/2007). Então, quando Kishan Khoday, um líder de equipe da ONU, escreveu recentemente que “existe um espírito crescente de cidadania ambiental global, um desejo de fazer da mudança do clima uma questão de preocupação comum de toda a humanidade”, deve-se dar toda ênfase nos termos “cidadania global” e “preocupação comum” – a necessidade de estabelecer uma organização e um engajamento plítico globais que, neutralizando e canalizando os mecanismos de mercado, representem uma perspectiva propriamente comunista.

2 A VISÃO EM PARALAXE (2008)
Considerado sua obra teórica mais densa, A Visão em Paralaxe sintetiza as questões e o repertório teórico de Zizek. O próprio significado da palavra “paralaxe” é complexo (e tomado emprestado da astronomia). Segundo o Houaiss, paralaxe é o “deslocamento aparente de um objeto quando se muda o ponto de observação”. Jacques Lacan, Karl Marx e G. W. F. Hegel estão entre as referências do filósofo, que mesmo num trabalho de fôlego – 512 páginas na edição brasileira – não deixa de lado seu estilo de associar psicanálise, marxismo e filosofia a análise de fenômenos das artes. literatura, cinema e da cultura de massa.

A única questão verdadeira hoje é: o capitalismo global contém antagonismos fortes o su ciente para impedir sua reprodução inde nida? Existem, penso eu, quatro desses antagonismos: a ameaça iminente de uma catástrofe ecológica, o caráter inapropriado da propriedade privada para designar a chamada “propriedade intelectual”, as implicações socioéticas dos novos desenvolvimentos tecnocientíficos (especialmente na biogenética) e, por último, mas não menos importante, as novas formas de apartheid, os novos muros e as favelas.

É essa referência aos “comuns” que justi- ca ressuscitar a palavra comunismo. Ela nos permite ver o “enclausuramento” em marcha dos comuns como um processo de proletarização daqueles que estão, assim, excluídos de sua própria substância. A situação histórica de hoje não só não nos compele a abandonar a noção de proletariado, da posição do proletariado; ao contrário, ela nos compele a radicalizá-la a um nível existencial para além da imaginação de Marx. Necessitamos de uma noção mais radical do sujeito proletário, um sujeito reduzido a um ponto evanescente do cogito cartesiano, privado de seu conteúdo substancial.

Por esa razão, a nova política emancipatória não será mais o ato de um agente social particular, mas uma explosiva combinação de diferentes agentes. O que nos une é que, em contraste com a clássica imagem dos proletários que não tem “nada a perder senão seus grilhões”, corremos o perigo de perder tudo. A ameaça é que sejamos reduzidos a um sujeito cartesiano abstratamente vazio, desprovido de todos os conteúdos substanciais, desapropriado de substância simbólica e com a base genética manipulada, condenado a vegetar num meio ambiente inabitável. Essa tripla ameaça a totalidade de nosso ser nos torna, de certo modo, todos proletários, reduzidos à “subjetividade sem substância”, como Marx a rma nos Grundrisse. O desa o ético-político é reconhecermos a nós mesmos nessa gura – de certa forma, todos nós somos excluídos, tanto da natureza como de nossa própria substância simbólica. Hoje somos todos potencialmente Homo sacer, e a única forma de evitar que nos tornemos um é atuando preventivamente.

3 LACRIMAE RERUM (2009)
Lacrimae rerum: ensaios sobre cinema moderno reúne ensaios do autor sobre cinema no quais questiona os cineastas, mesmo aqueles ligados ao “cinema crítico”, de “conceder legitimidade ideológica ao real”, a partir das imagens e históricas com um “panorâma estático” da realidade. Entre os filmes e diretores examinados nos ensaios estão o russo Andrei Tarkovski (1932-1986), diretor de Solaris (1972), o polonês Krzysztof Kielowski (1941-1996), de A Triologia das Cores (1993-1994), e os irmãos de Chicago (EUA) Andy e Larry Wachowski, realizadores da trilogia Matrix (1999-2003).

Comunismo é hoje não o nome da solução, mas o nome do problema, o problema dos comuns em todas as dimensões – os comuns da natureza como a substância de nossa vida, o problema de nossa biogenética comum, o problema de nossa cultura comum (“propriedade intelectual”) e, por último, mas não menos importante, diretamente o problema dos comuns como espaço universal da humanidade, do qual ninguém deveria ser excluído. Isso porque, como colocou Linera, nosso horizonte tem de permanecer comunista – horizonte não como um ideal inacessível, mas um espaço mental no qual nos movemos. Isso é impossível? Nossa resposta deveria ser o paradoxo que retorna ao ponto que começamos: a Soyons realistes, demandons L’impossible . A verdadeira utopia hoje é a de que seremos capazes de resolver nossos problemas com transformações modestas no sistema existente. A única opção realista é fazer o que parece impossível nesse sistema.

4 EM DEFESA DAS CAUSAS PERDIDAS (2011)
O que podemos aprender com as causas perdidas? Qual o legado das utopias passadas? É possível atualizá-las ou, ao menos, usá-las como exemplos do que fazer e não fazer em novas formas de ação transformadora? Essas são perguntas que Slavoj Zizek procura responder neste livro cujo título é autoexplicativo: Em Defesa das Causas Perdidas. Para fazer essa reconstituição histórica a serviço da fi losofi a – e da prática política -, Zizek mobilizou pensadores do porte de Lacan, Marx (sendo a psicanálise e o marxismo “teorias de luta”, Heidegger e Foucault.

Lembremos da de nição surpreendentemente relevante de Paulo* sobre uma luta emancipatória: “Porque não temos que lutar contra a carne e o sangue, mas contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes /kosmokratoras/ das trevas deste século, contra as hostes espirituais da maldade, nos lugares celestiais”. Ou, traduzindo em nossa linguagem de hoje: “nossa luta não é contra indivíduos corruptos concretos, mas contra todos aqueles no poder em geral, contra sua autoridade, contra a ordem global e a misti cação ideológica que a sustenta”. Se engajar nessa luta signi ca endossar a fórmula de Badiou, mieux vaut un desastre qu’un desètre, melhor assumir o risco e se engajar na delidade ao evento-verdade, mesmo que essa delidade termine numa catástrofe, do que vegetar na sobrevivência hedonista- utilitarista sem-eventos daquilo que Nietzsche chamou de último homem. O que devemos rejeitar é a ideologia liberal-vitimista que reduz a política a evitar o pior, a renunciar de todos os projetos positivos e perseguir a opção menos ruim – ou, como notou amargamente Arthur Feldmann, o escritor judeu vienense, o preço que usualmente pagamos para sobreviver é a própria vida.

5 PRIMEIRO COMO TRAGÉDIA, DEPOIS COMO FARSA (2011)
Escrita em o dezoito de brumário de Luis Bonaparte, a máxima “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa” é uma das mais emblemáticas frases de Karl Marx. Em Primeiro como Tragédia, Depois como Farsa, o fi lósofo esloveno utiliza o termo de Marx como gancho para analisar o mundo contemporâneo que seria uma nova etapa do capitalismo global, no qual os discursos políticos que são aceitos num primeiro momento (11/9) são rejeitados adiante (crise fi nanceira de 2008). A democracia liberal, celebrada por Francis Fukuyama após a queda do Muro de Berlim, sofreu na última década um duplo golpe – político-ideológico (2001) e econômico (2008).

Por Filosofia/Slavoj Zizek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. é filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos.

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Publicado por em 14/09/2011 em Uncategorized

 

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