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Sobre a democracia, conversando pode ser que nos entendamos; sem conversar é impossível

14 out

Por que a vida política brasileira é tão frustrante? Por que avançamos tão pouco na construção de uma democracia séria, capaz de resistir com energia à corrupção e disposta a ouvir com seriedade os pleitos dos cidadãos?

Vou tentar escrever uns quatro ou cinco textos sobre este tema, começando amanhã (07.10.11). Para chegar a respostas sensatas e consistentes, eu acredito que pelo menos três pontos precisam ser examinados.

Primeiro – e peço perdão pela obviedade-, o próprio conceito de democracia. Mesmo com o conceito bem elaborado, não há como refletir sobre a democracia sem enfrentar certas áreas de turbulência.

O tema suscita emoções, isto é óbvio. Por isso, o primeiro passo é portanto estabelecer com a maior clareza possível o significado que vamos dar ao termo – ou seja, sobre o que vamos falar.

Segundo, o balizamento histórico e comparativo da questão. Em nosso caso, a formação colonial, a escravidão, as desigualdades sociais e o Estado patrimonialista pesam no prato negativo da balança, quanto a isso não cabe dúvida.

Mas nosso nível de desenvolvimento econômico e nossa história político- institucional são bastante razoáveis… – ou não? Se não fossem, se tivéssemos as nossas patas bem plantadas no autoritarismo português, como teríamos conferido direitos políticos iguais a mais de 130 milhões de pessoas? Como se explicaria termos tido um ex-operário e agora uma mulher na presidência da República?

Podemos eventualmente divergir sobre a significação desses três fatos, mas primeiro reconheçamos que são fatos, realidades não construídas na maioria dos países atualmente existentes.

Existem, com efeito, diversos tipos de regime político no mundo atual. No balanço periódico que tem publicado, a revista The Economist, por exemplo, distingue quatro tipos: democracias plenas, democracias defeituosas, regimes híbridos e regimes autoritários. É um bom ponto de partida.

As democracias obviamente variam muito em qualidade, e já adianto que o Brasil é classificado como uma democracia “defeituosa”. Ocupa o 47º lugar numa escala de “democraticidade”: um pouco acima da Argentina e um pouco abaixo da Índia. Será boa essa posição? Será ruim? Razoável? Vamos ver, a partir de amanhã.

Em terceiro lugar, é preciso levar em conta o “processamento” da política na consciência da sociedade. Em que medida e em que termos nós apoiamos a democracia? Damos de fato o nosso apoio às instituições, em quaisquer circunstâncias, ou só quando elas funcionam a nosso favor?

Este é o fascinante reino das atitudes em relação à democracia. Atitudes de indiferença e até de rejeição existem em todos os países democráticos. Formam-se e se espalham em função de dificuldades econômicas, desde logo, mas não só, muitos outros fatores podem contribuir para que isso aconteça. Unanimidade a favor do regime não existe em lugar algum, nem na Escandinávia.

Neste aspecto, a história brasileira e em geral a da América Latina transborda de exemplos. Por toda parte, intelectuais, pseudo-intelectuais e estudantes desencantados, religiosos agoniados pelo contato com a pobreza, militantes de extrema-direita e extrema-esquerda têm propensão a beber na mesma fonte.

Atraídos pela música de suas respectivas sereias, sonham com mudanças radicais; saem em busca de soluções ab ovo e julgam tê-las ao alcance da mão sempre que avistam algum novo desfile de fantasias.

Por Exame/Bolívar Lamounier
Sociólogo e cientista político, sócio-diretor da Augurium Consultoria, é autor de alguns dos mais conhecidos estudos de ciência política no país. Seu livro mais recente, A Classe Média Brasileira: ambições, valores e projetos de sociedade, escrito com Amaury de Souza, foi lançado este ano pela Editora Campus.

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Publicado por em 14/10/2011 em Uncategorized

 

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